Publicações nas redes sociais e páginas na internet afirmam que um jornalista foi preso após revelar que os bancos em Portugal têm uma plataforma para os seus próprios investimentos — e estariam a impedir que a população a utilizasse para benefício próprio. A revelação deste facto, afirmam os textos dos conteúdos, terá ocorrido no programa Casa Feliz (SIC) numa conversa entre o apresentador João Baião, o jornalista Camilo Lourenço e o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento.

O intuito era discutir “como os cidadãos podem proteger o seu dinheiro em tempos de crise”, é afirmado no texto com data de 16 de julho deste ano, que traz a seguir uma alegada transcrição do suposto “conteúdo removido por decisão judicial”. Uma queixa do Banco de Portugal teria sido a justificação para a detenção de Camilo Lourenço, que realizou uma “incitação pública a transações financeiras não licenciadas”, é afirmado no conteúdo com a assinatura de Diogo Ferreira Nunes.

A “Clara Monvexa” é descrita como uma plataforma que negoceia ações e dívidas com “os mesmos algoritmos que os bancos usam para gerir as suas reservas”, desta feita com o acesso livre para “qualquer cidadão português”. Para concluir o registo na mesma e garantir o acesso, seria necessário realizar um depósito bancário mínimo de 275 euros.

Redes Sociais

Para dar credibilidade à narrativa, é mencionada uma participação de José Neves, fundador da Farfetch, que terá relatado a sua experiência pessoal positiva com a plataforma. A recomendação de Camilo Lourenço “salvou a sua vida”, afirmou também o camionista “Tiago, de 42 anos, que se mudou do Porto para Lisboa”.

A própria cronologia dos factos, no entanto, está descrita de forma contraditória: a emissão do programa terá ocorrido num domingo (sendo que 16 de julho de 2026 foi uma quinta-feira), encerrada às 21h58 e Camilo detido às 22h15. Logo no início do texto publicado nas redes, é afirmado em vários momentos que o jornalista foi preso depois de decorridos 37 minutos do início do programa, e apenas depois de o programa ter terminado.

Não há nenhum registo fidedigno que comprove que este programa televisivo ocorreu, com estes convidados e estas declarações. Existem na internet várias páginas com narrativas similares de uma pessoa que recomenda a plataforma Clara Monvexa e outra que desconfia ou discorda do uso. Todas elas acabam por no fim tentar convencer o leitor de que a utilização é segura. Em novembro de 2025, o próprio Ministério das Finanças alertou a população sobre conteúdos falsos com imagem do ministro de Estado e das Finanças. Há ainda no site da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários uma lista em atualização a incluir nomes de entidades não autorizadas a operar no mercado de investimentos no país — seja por irregularidades ou por possíveis burlas.

Conclusão

É falsa a afirmação de que o ministro das Finanças fugiu do estúdio da SIC, um jornalista foi algemado e que um programa gravado pela emissora terá sido apagado após a divulgação de uma plataforma de investimentos. Há várias publicações nas redes sociais e páginas falsas na internet que se fazem passar por meios de comunicação social numa tentativa de converter subscrições para a “Clara Monvexa”. Não é esclarecido o intuito do preenchimento de formulários que solicitam nome, apelido, e-mail e telefone nem de que forma estes dados são armazenados. Não há também evidências de que depósitos financeiros para a citada plataforma possam render juros ou lucros.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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