A derrota de Portugal diante da França (1-0) não permitiu que a seleção nacional pudesse tentar a revalidação do título na Liga das Nações. Pelo meio de muita indignação nas redes sociais com a estratégia do selecionador nacional, Fernando Santos, surgiu uma publicação de Facebook, de dia 15 de novembro, que dava conta de “um grande escândalo” à volta dessa derrota. Segundo o autor, Portugal “vendeu a qualificação para a fase final da Liga das Nações”, sendo que os jogadores portugueses, previamente avisados, aceitaram perder mediante “o pagamento total de prémios”, que seria feito pela Nike. Estas negociações tiveram a suposta presença do empresário Jorge Mendes, do técnico português, de João Vieira Pinto  e de Fernando Gomes, presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF). Atingiu as 200 partilhas. No entanto, este post, além de ser altamente conspirativo, é falso.

Post viral que acusa a seleção nacional de se ter vendido.

O Observador contactou a FPF, que se recusou a comentar o caso. Mesmo assim, é possível desmontar, ponto por ponto, toda a informação propagada. Começando pelo início do texto, não é verdade que Diogo Jota, jogador do Liverpool, tenha dito a seguinte frase: “Se as pessoas soubessem o que aconteceu na Liga das Nações, ficariam enojadas”.

Apesar de não ser possível identificar a fonte ou resultados semelhantes que comprovem estas declarações, é certo que Diogo Jota, que entrou aos 56’ minutos da partida para substituir William Carvalho, falou no final do jogo. Mas em nenhum momento se referiu ao que está descrito acima. “Estávamos a jogar contra os campeões do mundo, têm grandes valores, mas acabou por ser um jogo equilibrado, com oportunidades de golo, algo que não houve no jogo em Paris. Infelizmente eles foram mais eficazes e em vantagem tornaram o nosso jogo difícil, souberam gerir e foi complicado. Demos o melhor mas não era o nosso dia”, disse o avançado à RTP1, citado pelo jornal “A Bola”. Este discurso pode ser encontrado em vários jornais e  no canal de televisão público.

Depois, o autor refere que outros jornais internacionais já estão a investigar o suposto esquema em que Portugal “vendeu” a sua derrota a troco de dinheiro, como o “Wall Street Journal of America” – título que não existe – e o “Gazzeta dello Sport”. Ao procurar por resultados em diferentes órgãos de comunicação social estrangeiros (“The Guardian”, “New York Times”, “Marca”, “Wall Street Journal” ou “Gazzeta dello Sport”), não é possível encontrar sequer um que comprove o que é descrito na publicação. O autor avisa ainda que a investigação deve “sair em breve assim que as provas forem colhidas e confirmarem os factos”. Ora, passaram dois dias, a investigação ainda não saiu. E se as provas ainda não foram colhidas nem os factos comprovados por jornalistas credenciados, é, no mínimo, duvidoso,  que só uma pessoa, que neste caso é um utilizador de Facebook, tenha conseguido reunir toda a verdade sobre esta história.

Sobre a suposta reunião que terá acontecido às 13h00 de dia 14 de novembro, envolvendo Fernando Gomes, Fernando Santos, João Vieira Pinto (que é diretor da FPF e não conselheiro da seleção, como diz o autor) e Jorge Mendes, também é facilmente desmontável. O Observador sabe que, àquela hora, os jogadores estavam a almoçar, seguindo para descanso, lanche, e viagem até ao Estádio da Luz. Quanto à suposição de que “os jogadores reservas” tenham ficado “em isolamento conforme normas da Direcção Geral da Saúde, nos seus quartos ou no lobby do hotel”, também não faz muito sentido: segundo um comunicado da FPF, todos os 25 jogadores convocados, mais Fernando Santos e a sua equipa técnica, realizaram testes laboratoriais RT-PCR de despistagem do novo coronavírus, tendo tido um resultado negativo. Ou seja, ninguém estava em isolamento nesse dia. Isso só se aplica caso alguém esteja infectado com Covid-19.

Não existe também nenhuma prova que tenho sido pagos prémios aos jogadores portugueses nem que tenha sido assinado o contrato com a Nike – algo que seria estranho, principalmente num ambiente de seleção nacional.  Resta dizer que esta marca está já associada à FPF desde 2000, sendo que o contrato estende-se até 2024. Convém esclarecer que um dos jogadores que o autor refere (Neymar) já não tem contrato com a Nike, como confirmado pelo próprio na sua conta oficial de Twitter, ao contrário do que o post alega.

Quanto à acusação de que os jogadores se recusaram, primeiro, em aceitar perder o jogo “em troca da organização do Mundial de 2030”, também é totalmente falsa. É sabido que as federações de futebol tanto de Espanha como de Portugal já se juntaram para assinar um protocolo com vista a uma apresentação de uma candidatura à organização do campeonato do mundo dessa data. Mas quem decide quem será o anfitrião deste evento não são os jogadores, mas sim a FIFA. O organismo internacional de desporto já veio afirmar, no seu site oficial, que essa decisão tomará lugar em 2024, no congresso anual da FIFA, sendo que o processo para a escolha será lançado no segundo semestre de 2022.

E não, Cristiano Ronaldo não “se recusou a jogar”: entrou de início no jogo e fez os 90 minutos mais descontos. Diogo Jota, como referido anteriormente, entrou na segunda parte, não tendo sido escolhido para o onze inicial da partida, como o post escreve. Por último, convém também dizer que o golo francês  não surgiu depois de uma “falha suspeita de José Fonte” (o autor escreveu também mal o apelido do atleta). O lance surgiu depois de uma defesa incompleta de Rui Patrício, deixando a bola para N’Golo Kanté, como se pode ver pelo resumo do jogo disponível no site da RTP1.

Conclusão

Não é verdade que Portugal tenha “vendido” a derrota contra França, que ditou a eliminação da seleção portuguesa para a final four da Liga das Nações. O autor da publicação divulga um suposto escândalo baseado em informações falsas, contraditórias e sem comprovação. Também não é verdade que esta tal investigação tenha sido noticiada por outros órgãos de comunicação social, nomeadamente estrangeiros. Além disso, cita, de forma errada, algumas afirmações de jogadores de futebol, como Diogo Jota. Nenhum dos 25 jogadores convocados se encontravam em isolamento profilático. Nem Cristiano Ronaldo se recusou a jogar, já que fez parte do onze inicial e fez toda a partida diante dos franceses. A Federação Portuguesa de Futebol recusou-se a comentar o post viral.

Assim, de acordo com a classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

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