“Isto não se confirma pois não? De poder durar até uma semana?”. Nos grupos de trabalho do Observador instalou-se a dúvida assim que alguns órgãos de comunicação social portugueses citaram a agência de notícias Reuters que avançava, esta segunda-feira, por volta das 15h00 da tarde, que a REN teria estimado “que a normalização total da rede energética” podia demorar “até uma semana”.

Por essa altura, já eram muitos os jornais internacionais que faziam a cobertura em direto do que se passava em Espanha e Portugal, que ficaram às escuras por volta das 11h30 (hora em Lisboa).

Mais, a Reuters avançava que a REN tinha informado que “um fenómeno atmosférico raro em Espanha” estaria na origem dos cortes de energia na Península Ibérica. Às 15h22, nem meia hora depois de a notícia ser disseminada, a REN negava toda a informação.

“A REN desmente categoricamente a informação de fonte anónima colocada a circular em nome da empresa, em que se estima que a normalização do abastecimento de energia ao país possa demorar uma semana”, lia-se na nota enviada ao Observador.

A empresa de fornecimento de energia repetia ainda que estava a “proceder às operações tendentes à reenergização do sistema elétrico nacional, de cujo andamento irá dando conhecimento público, através dos seus canais oficiais”. E apelava: “Todas as informações provenientes de outras fontes devem ser desconsideradas.”

Por outro lado, o instituto de meteorologia espanhol, o AEMET, anunciou esta terça-feira que não foi detetado na segunda-feira, 28 de abril, “nenhum fenómeno meteorológico ou atmosférico invulgar, nem sequer variações bruscas da temperatura na rede de estações meteorológicas”. Descarta, assim, uma ligação entre o apagão e um hipotético fenómeno meteorológico, como referido no comunicado da REN que se veio a verificar ser falso.

Comunicado falso foi citado pela Reuters, Sky News e BBC. Notícias erradas ainda não foram apagadas e circulam agora nas redes sociais

É a própria Reuters a confirmar ao Observador que “removeu o take de última hora” que dava conta da suposta comunicação da empresa de distribuição de eletricidade, assim que a REN informou que não havia feito tal declaração.

Por essa altura, no entanto, vários jornais que faziam a cobertura do apagão em Portugal e Espanha ao minuto, caso da Sky News e BBC, tinham já utilizado a informação da agência para fazer várias entradas nos respetivos artigos em direto.

A BBC escrevia, pouco depois das 15h00, que “restaurar a energia em Portugal” poderia “levar até uma semana'”. Citava o comunicado falso da REN, sem referir a Reuters, apontando para um cenário em que a “normalização total da rede” pudesse demorar vários dias, e não horas, como referiam vários responsáveis políticos em declarações públicas.

No artigo em direto da Sky News a mesma informação foi partilhada poucos minutos depois das 15h00. “‘Fenómeno atmosférico raro’ está na origem dos cortes de energia e perturbações poderão durar uma semana, afirma o operador português”, destaca-se no título da entrada da cobertura ao minuto do jornal inglês, apresentado no formato de breaking news, a amarelo.

A CNN Brasil, por exemplo, por ter publicado a informação em formato de notícia, publicou uma “atualização à primeira versão do texto” sobre as causas do apagão que que afetou Portugal e Espanha na segunda-feira. “A REN, operadora de energia elétrica de Portugal, negou ter afirmado que um fenómeno atmosférico foi a causa”, destacava-se na notícia, pouco depois de o desmentido ser tornado público.

Bastaram, no entanto, minutos da partilha da informação incorreta, cuja origem ainda não é conhecida, para que, nas redes sociais, as entradas de liveblogs (artigos em direto) dos vários jornais internacionais fossem partilhadas como verdadeiras e sem qualquer tipo de correção ou contexto adicional.

Caso de um post no Facebook, partilhado às 16h48 do dia 28 de abril, em que a informação partilhada pela Sky News é replicada na íntegra, com tradução em espanhol.

Como sempre acontece nas redes sociais, já existem réplicas da mesma publicação que chegam e continuarão a chegar nos próximos dias a centenas de pessoas em todo o mundo.

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