A 29 de maio surgiu uma publicação no Facebook que tecia uma série de considerações sobre o novo coronavírus, como a ideia de que “a letalidade do vírus é de 0,26%”. A publicação chegou às 15,1 mil visualizações e às 252 partilhas. Mas, além de conter considerações generalistas, tem também afirmações erradas. Trata-se, por isso, de uma publicação falsa.

Publicação de 29 de maio tem várias considerações

Mesmo já em fase de desconfinamento, as redes sociais continuam a ser um campo prolífico em espalhar informações falsas e enganadoras sobre a pandemia da Covid-19. Neste caso, um utilizador do Facebook criticou com ironia a ideia de que “confinar todo o mundo salva vidas e é a saída da pandemia”. A publicação termina até dizendo que “o medo é sem dúvida a arma perfeita para atordoar e enfraquecer as massas”.

É, por isso, importante desmentir algumas destas considerações, começando pela ideia de que “a letalidade do vírus é de 0,26%”. Nesta altura, enquanto ainda estamos numa situação de pandemia, os especialistas e as autoridades de saúde têm usado o termo “taxa de letalidade” para dar conta da percentagem de mortes face ao total de doentes infetados. A Direção Geral de Saúde define-a como o “indicador que mede a gravidade de uma doença, correspondente à proporção de óbitos num grupo de doentes com determinada patologia e num período de tempo bem definido” .

O autor refere este valor sem dizer a que país se está a referir, por exemplo, ou a que período temporal. Sabemos, por outro lado, que este é um valor que vai variando num determinado espaço de tempo, já que vários países, como Portugal, apesar de terem iniciado o processo de desconfinamento, ainda estão a testar a sua população, logo, a descobrir, à partida mais pessoas infetadas. Ou seja, não há um número fixo e totalmente conclusivo da letalidade do vírus.

Por exemplo, se olharmos para os dados do World Meters e fazendo o cálculo: à data de 6 de junho, às 18h37, estavam reportados 6.916.826 casos de infeção por Covid-19 em todo o mundo e 400.012 mortos por infeção do novo coronavírus. Ou seja, a taxa de letalidade rondava os 5,78%, um valor muito distante dos 0,26% relatados na publicação inicial. Olhando para o caso português, segundo dados oficiais da DGS, à data de hoje, dia 6 de junho, há 34.351 infetados em todo o país e 1474 mortos registados. Ou seja, a taxa de letalidade é de 4,29%. Um número novamente muito distante do reportado pela publicação inicial.

Boletim DGS. Recuperados representam 60,5% do total de casos

O Observador consultou um virologista português, que não quis ser identificado por razões profissionais, que afirmou “não conhecer nenhum país que registe um valor tão baixo” nem ter visto este valor em qualquer lado. Não descarta ainda a hipótese de haver uma região, uma freguesia ou um local no mundo com os 0,26% de letalidade, mas denota que apresentar o número assim “não faz sentido”.

Passando para as outras afirmações do autor da publicação, é possível desmontar algumas delas. Por exemplo, quanto à ideia de que “o vírus não é transmitido por via área”, convém esclarecer o que é que isso significa. Segundo o virologista, existem vírus apelidados de “airborne”: que fazem grandes viagens pelo ar, como “atravessar o Canal da Mancha”.

O vírus SARS-CoV-2 não se encaixa nesta definição, porque se trata de um vírus respiratório. No entanto, “claro que é transmitido pelo ar, mas tem de haver algum contacto” para que acabe por infetar algum ser humano, afirma. Ou seja, tem de haver proximidade entre as pessoas para as partículas passarem de uma para a outra.

O virologista confirmou ainda que é verdade que o vírus não “dura muito tempo” ao ar livre sob luz solar e que a percentagem maior de mortos está associada a uma faixa etária mais velha. Porém, não é verdade que as crianças “não infetem adultos”. Esta afirmação “não tem evidência científica” e a comunidade científica já conseguiu identificar que os mais novos também podem infetar outras pessoas.

Por fim, também é necessário desmontar este argumento: “Sabemos que o número de mortes por COVID-19 foi inflacionado por terríveis protocolos de diagnóstico”. Além de conter um julgamento conspirativo, tem também uma imprecisão: é que, por vezes, os números reportados podem não corresponder à realidade por incapacidade de determinado país testar a sua população. É verdade que já saíram notícias sobre países que terão supostamente ocultado os verdadeiros números da pandemia mas não é sobre isso que se refere o autor. “Nós sabemos que a taxa de letalidade está inflacionada porque há incapacidade de diagnosticar todos os casos infetados”, comentou o virologista. Mas, “o número de mortos é o número de mortos”, termina.

Conclusão

A 29 de maio surgiu uma publicação no Facebook que tecia uma série de considerações sobre o novo coronavírus, entre as quais a ideia de que “a letalidade do vírus é de 0,26%”. A publicação não refere sequer . Um virologista português, que preferiu manter o anonimato por razões profissionais, explicou ao observador que  “não conhece nenhum país que registe um valor tão baixo” de letalidade. Não descarta ainda a hipótese de haver uma região, uma freguesia ou um local no mundo com os 0,26% de letalidade, mas denota que apresentar o número assim “não faz sentido”.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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