A publicação de uma imagem com a afirmação de que os Testes PCR são “80% falsos positivos, por isso os mortos, infetados e internados CoV1D não são reais” aparece precedida de um longo texto que pega em dados divulgados pelo jornal Público, e que depois levanta uma série de questões e dúvidas à política que o Governo tem seguido para combater a pandemia, atrasando o tratamento e mesmo o diagnóstico de todos os outros doentes.

Nessa notícia de 19 de janeiro de 2021, de facto o bastonário da Ordem dos Médicos admite que a “situação é excessivamente grave e vai ter um impacto brutal na saúde das pessoas”. As declarações de Miguel Guimarães surgem em reação aos números que mostram que, em 2020, por comparação com 2019, houve menos 11,4 milhões de contactos presenciais nos centros de saúde, menos 3,4 milhões de contactos hospitalares, entre consultas, cirurgias e urgências e menos 25 milhões de exames e análises. Números a que se juntam milhares de pessoas que não fizeram rastreios de doenças oncológicas.

Nesta publicação do Facebook, à qual se junta uma imagem com a frase que aqui escrutinamos, lê-se depois que no verão de 2020 se “tornou nítido que o objetivo ‘diminuir o Covid’” se tinha transformado no “objetivo ‘zero Covid’”. Questionando também como é que a ministra da Saúde, Marta Temido, “continua a dar ordens para suspender a maioria dos cuidados não-Covid, nomeadamente ocupando os cuidados primários com tarefas burocráticas?”

Todo este contexto serve para fundamentar a imagem que se segue com a frase “80% falsos positivos, por isso os mortos, infetados e internados CoV1D não são reais”.

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No entanto, não é a primeira vez que informação desta circula nas redes desde o início da pandemia em 2020. A Lupa, do jornal brasileiro Folha de São Paulo, recentemente analisou uma mensagem que circula igualmente pelas redes sociais que afirma que os testes PCR para a Covid-19 “geram 97% de falsos positivos como resultado”. De acordo com a publicação, de cada 100 pessoas diagnosticadas com o novo coronavírus, só três estariam realmente infetadas, acusando o teste de ser pouco fiável.

Ao Lupa, porém, a especialista em microbiologia, Karine Lourenço, explicou que os testes PCR são “extremamente sensíveis” e que mesmo numa carga viral baixa é possível identificar o vírus. “Eu trabalho com PCR para outros vírus há mais de oito anos, e essa informação não procede”, diz. O virologista e professor da USP Paulo Eduardo Brandão também reafirmou que os testes PCR têm elevadíssimas sensibilidade e especificidade. “A PCR criticada é a usada no mundo todo e recomendada pela OMS”.

Também o Observador já tinha analisado uma informação semelhante em julho de 2020, lembrando que aquando das notícias dos jogadores da Primeira Liga de futebol que tinham dado falsos positivos, a Unilabs afirmou que não há nenhum teste com uma fiabilidade de 100%. “O teste tem 97% de especificidade e 83% de sensibilidade”, adiantou a Unilabs em maio, apontando assim para uma margem de erro de 3%.

Na altura, os especialistas ouvidos pelo Observador apontavam algumas razões para esse facto. Tirando defeitos nos próprios testes, o que também já aconteceu, o momento da infeção em que ele é feito e a própria forma como é feito podem condicionar o resultado. “A técnica tem de ser feita corretamente, pois a sensibilidade com que nós detetamos depois o vírus depende muito de como a colheita foi feita”, explicou à data à RTP João Gonçalves, da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa.

Se a colheita for feita de uma forma em que traz pouca amostra, então, no final, não conseguimos dar um resultado fidedigno”, adiantou ainda, apontando que “os profissionais de análises clínicas, enfermeiros, ou médicos têm já uma experiência de colheitas”.

Ricardo Mexia, do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, explicou então ao Público que “é possível que haja um falso positivo se houve uma contaminação de amostras”, ou se o teste não foi realizado corretamente. Por exemplo, se “a zaragatoa for usada de forma muito verticalizada, o que não permite que ela atinja a mucosa da nasofaringe”. Segundo João Gonçalves, “os testes bem feitos e fidedignos são aqueles que (…) trazem o material suficiente para fazer a análise”.

Já um estudo da Johns Hopkins University, nos Estados Unidos da América, mostrou que testar doentes no início da infeção pode também aumentar as hipóteses de obter um falso resultado negativo. “Independentemente de uma pessoa ter ou não sintomas, um teste negativo não garante que essa pessoa não esteja infetada”, afirmou, por altura da publicação da investigação na revista “Annals of Internal Medicine”, a médica Lauren Kucirka, uma das autoras do estudo, lembrando que “como reagimos e interpretamos um teste negativo é muito importante, porque colocamos outras pessoas em risco quando assumimos que o teste é perfeito”.

Fact Check. Testes à Covid-19 têm margem de erro superior a 80%?

Mais estudos surgiram depois disso. Recentemente, em meados de janeiro, também os vários testes com resultados diferentes ao Presidente Marcelo Rebelo de Sousa fizeram alimentar as dúvidas. Marcelo teve um resultado negativo e, mais tarde, um resultado a um teste PCR positivo e, de novo, um resultado negativo. Fez ainda um outro teste que acabou por dar negativo.

Podia então tratar-se de um falso negativo (um teste que diz que não se tem o vírus quando se tem), o que, segundo o Público, varia consoante o tempo de infeção: a taxa de falsos negativos é mais elevada se o teste for realizado nos primeiros dias de infeção. Já a taxa de falsos positivos – quando o resultado diz acusa a presença do novo coronavírus, quando afinal não há presença do vírus – é próxima de zero. Ou seja, a maioria dos resultados de falsos positivos deve-se a contaminação no laboratório ou outros problemas na forma como foi realizado o teste.

Ainda assim, o teste PCR tem sensibilidade para detetar cargas virais mais baixas. Estes testes moleculares procuram o material genético que provém apenas do vírus, usando uma técnica chamada “reação em cadeia da polimerase” para detetar a presença de ARN do vírus e que é detetado ainda que em muito pequenas quantidades. Esta é uma técnica que amplifica material genético do vírus em ciclos sucessivos – a cada ciclo o material duplica.

Um estudo publicado pela Oxford Academic em setembro de 2020 concluiu que os testes de PCR têm uma especificidade e sensibilidade superiores a 95%. Nesse estudo foi testada a relação entre a capacidade que as amostras recolhidas tinham de infetar células e o número de ciclos necessários para obter um resultado “positivo”.

“A proporção de amostras que já não eram capazes de infetar as células mantidas em cultura no laboratório aumentava com o aumento do número de ciclos necessários para obter um sinal positivo. Isto sucede porque depois de o nosso corpo controlar a infeção há fragmentos do material genético do vírus que persistem e vão decrescendo ao longo de dias, quando o indivíduo já não representa um perigo para os outros”, explicou o investigador do Centro de Estudos de Doenças Crónicas (Cedoc) da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, Vasco Barreto, ao Público — quando percebeu que este estudo tinha sido erradamente usado por duas juízas do Tribunal da Relação de Lisboa num caso que envolveu quatro turistas alemães obrigados a confinamento, durante o mês de agosto, nos Açores.

As magistradas concluíram exatamente o contrário que o estudo preconizava, com a ideia de que “a probabilidade de a pessoa receber um falso positivo é de 97% ou superior”. O que, segundo aquele estudo, só acontece se o limiar de ciclos for superior a 35, “como acontece na maioria dos laboratórios do EUA e da Europa”, lê-se no acórdão. Mas Vasco Barreto, que trabalha num laboratório, afirma mais uma vez que essa informação não é correta porque, no seu local de trabalho, “para 42% dos testes positivos foram precisos apenas 25 ou menos ciclos e há evidência científica da alta capacidade de propagação do vírus de casos “positivos” a menos de 25 ciclos.

Conclusão

Os testes de PCR têm uma especificidade e sensibilidade superiores a 95%, como atesta um estudo publicado pela Oxford Academic, e e na esmagadora maioria dos casos detetam a presença do novo coornavírus que provoca a Covid-19, pelo que é falso dizer que 80% dos seus resultados são falsos positivos.

Mais, a taxa de falsos positivos – quando o resultado acusa a presença do vírus no organismo e o vírus não está, afinal, presente – é próxima de zero. O que se verifica nalguns casos, sim, é existirem falsos negativos, ou seja, o teste diz que não há presença de vírus quando há, o que pode acontecer se for realizado nos primeiros dias de infeção. Deitando mais uma vez por terra a afirmação que tem circulado nas redes sociais.

Assim, segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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