No Facebook e no Twitter, circula uma fotografia que mostra um grupo de jovens sorridentes para a câmara. A legenda é feita em tom de indignação: “Oh pá! Qual é o problema de todos nesta foto aleatória de dirigentes da JS terem cargos?”, questionam utilizadores destas duas redes sociais, ironizando com a “mania” de “desconfiar” de quem pertence à Juventude do Partido Socialista e rematando: “Vocês não suportam é a competência que grassa por lá!”.

A ideia de que as juventudes partidárias servem em boa parte de ‘trampolim’ para que os seus membros acedam a cargos políticos é comum. Mas será que esta fotografia prova isso mesmo? E estará a legenda que a acompanha, e que supostamente faz corresponder as caras dos jovens que aparecem na imagem aos seus nomes e aos cargos políticos que ocupam, correta?

Desde logo, há um erro inicial: quando se diz que “todos” nesta “foto aleatória” (publicada por inteiro no Twitter e cortada na versão do Facebook) têm “cargos”, isso não está correto porque, desde logo, as legendas não correspondem exatamente às pessoas que aparecem na fotografia. Por um lado, a legenda só identifica doze nomes, quando na foto estão quinze pessoas; por outro, com a ajuda de fontes que estavam presentes no momento em que a fotografia foi tirada, numa reunião de presidentes de federação da JS que terá ocorrido entre 2015 e 2016, ou de fontes da ‘jota’ que conhecem os presentes, o Observador conseguiu identificar que alguns dos nomes mencionados não estão na fotografia, enquanto outros estão e não aparecem na legenda.

Quer isto dizer que pessoas como Carlota Borges — que é de facto vereadora na Câmara Municipal de Viana do Castelo, no Executivo do PS liderado por José Maria Costa — e Maria João Ribeiro — que foi nomeada adjunta do Gabinete do Secretário de Estado das Infraestruturas a 31 de dezembro de 2019, como a legenda indica — não estavam presentes no momento em que a fotografia foi tirada. Também Andreia Carreiro, que foi diretora regional da Energia no anterior Governo dos Açores (PS) e é desde 11 de janeiro técnica especialista no gabinete do secretário de Estado Adjunto e da Energia, ainda com despacho a aguardar publicação, é mencionada mas não aparece na imagem, assim como Hugo Carvalho, deputado.

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Pelo contrário, na fotografia estão, sem que sejam mencionados, alguns ‘jotas’ que têm cargos, e outros que trabalham em áreas que nada têm a ver com a política. São os casos de Fábio Pinto, líder da JS da Guarda, nomeado em julho do ano passado para o gabinete da secretaria de Estado da Ação Social; João Romão, que trabalha numa empresa de informática; Ricardo Calé, empresário no Algarve; Catarina Lourenço, que em agosto passado passou de técnica especialista a chefe de gabinete do Secretário de Estado da Conservação da Natureza, das Florestas e do Ordenamento do Território; Tiago Gonçalves, nomeado este ano vogal da Administração Central do Sistema de Saúde; e Ana Rita Santos, que era então presidente da JS de Bragança.

Quanto aos restantes nomes, a fotografia identifica corretamente vários dos presentes: Paulo Tomaz foi de facto nomeado chefe de gabinete do secretário de Estado do Comércio, Serviços e Direito do Consumo, João Torres (que era líder da JS na altura em que a foto foi tirada) em 2019; Tiago Estevão, Maria Begonha e Ivan Gonçalves (estes dois últimos são os mais recentes ex-líderes da JS) são deputados; Selene Martinho foi nomeada a 23 de janeiro de 2020 adjunta do Gabinete do Secretário de Estado da Juventude e do Desporto; e Tiago Preguiça foi realmente notícia esta semana pela sua nomeação enquanto diretor da Segurança Social em regime de substituição, tendo antes disso trabalhado no gabinete de Vieira da Silva, o anterior ministro do Trabalho, sido seu chefe de gabinete e assessorado politicamente António Costa para as questões do trabalho e segurança social.

Há, por fim, dois erros nos currículos de pessoas que estão efetivamente na fotografia e na legenda: Eduardo Alves já não trabalha no grupo parlamentar do PS, onde era assessor, tendo sido nomeado secretário do gabinete de vereação da câmara municipal de Ponte Sor em dezembro de 2020; e o Luís Soares que aparece na fotografia, antigo presidente da federação da Viseu, não é o mesmo Luís Soares que a legenda refere, esse sim deputado.

Ao Observador, um dos presentes no momento em que a foto foi tirada e um dos ex-líderes da ‘jota’, Ivan Gonçalves, contextualiza: “Essa foto foi tirada no contexto de uma reunião de líderes (ou seus representantes) das diversas federações da JS de todo o país. Fazem parte de uma pequena minoria, entre os mais de 30 mil militantes que a JS tinha à data, que estão neste momento a fazer política a tempo inteiro”. Para o ex-dirigente da JS, é “um orgulho” fazer parte uma geração de quadros bastante qualificados da Juventude Socialista que neste momento estão a dar o seu contributo para ajudar o Partido Socialista a fazer bem o seu trabalho, em prol do país”.

Já o atual presidente da JS, Miguel Costa Matos, que já preparava uma reação ao caso, frisa que “não é estranho que alguns militantes de uma juventude partidária queiram dedicar parte da sua vida profissional à política, nem que estes sejam considerados para algumas dessas funções. Apenas alguns o fazem (…) Mas a verdade que ninguém parece querer ver é que a esmagadora maioria dos militantes não têm, nem nunca terão, qualquer função profissional relacionada com política”, garante.

Conclusão:

Uma análise detalhada da fotografia em causa e o cruzamento da informação com várias fontes que estavam presentes ou que conhecem os presentes, assim como uma análise dos despachos de nomeação para gabinetes do Governo e outros órgãos, permite perceber que a conclusão geral da legenda está correta — muitos dos jovens que a fotografia mostra eram de facto dirigentes da JS e desempenham cargos políticos, tendo a maioria sido nomeada recentemente. Por outro lado, a publicação identifica incorretamente alguns deles ou menciona pessoas que nem sequer estão na fotografia, deixando outras que aparecem efetivamente de fora, e comete erros nos cargos que atribui em alguns casos. Isso torna a publicação parcialmente falsa. Além disso, o texto mistura o que são cargos de nomeação política e cargos eleitos pela população (com listas escolhidas pelos partidos), como os de deputado ou vereador.

Segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

ENGANADOR

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

PARCIALMENTE FALSO: as alegações dos conteúdos são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou está incompleta.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

Artigo alterado a 22 de abril com a informação de que Hugo Carvalho estava corretamente identificado na legenda, mas não presente na fotografia.

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