1. Mudei eu, claro.
  2. Mudou a minha mulher, a Rute.
  1. Mudou a família que de dois passou a seis, com os nossos 4 filhos.
  1. Mudaram as nossas famílias de origem que viram o número de genros, noras e netos crescer, e perder avós e tios.
  1. Mudou Portugal, que às vezes parece outro país e, noutras ocasiões, está igualzinho ao que era.
  1. Mudou o modo como prestamos atenção, agora maioritariamente cativo do cordão umbilical digital.
  1. Mudou a juventude, que não sabe falar com adultos e, ao mesmo tempo, fala frases inteiras em inglês e pensa ideias inteiras em inglês.
  1. Mudaram as nossas cidades, que parecem versões do Parque Mayer de si mesmas.
  1. Mudou o estrangeiro, que também está mais igual às nossas cidades porque o mundo inteiro opta por versões supostamente típicas de si mesmo.
  1. Mudaram as expectativas das pessoas, que agora em maior número se consideram destinadas a viajar para lugares mais diferentes onde tudo está sempre mais igual.
  1. Mudou o cristianismo que tem menos vergonha de ser antigo e tem menos vergonha de ser moderno.
  1. Mudou a moda de internet que então estava nos blogues e que anos mais tarde foi arrasada pelas redes sociais.
  1. Mudou a política que se deslocou drasticamente para a direita depois da esquerda ter esquecido o povo.
  1. Mudou a minha profissão, que na altura andava pela televisão e hoje é a igreja.
  1. Mudou o resto da minha adolescência musical que passou da jovem editora anónima FlorCaveira para participante da renovação da música popular portuguesa.
  1. Mudaram os evangélicos portugueses que, continuando tímidos, crescem com a diversificação cultural do país.
  1. Mudou o país que hoje é mais estrangeiro.
  1. Mudou a nossa ignorância, que aumentou sob a ilusão de a informação nos tornar mais inteligentes.
  1. Mudou a nossa inteligência, que eventualmente também terá crescido mais com acesso a leituras mais diversas potenciadas pela internet.
  1. Mudou como vemos filmes e TV e como ouvimos música, com tanta escolha que já não decidimos nada mas somos pasto de algoritmos.
  1. Mudou a nossa memória, com um excesso tal de fotografias que só aconteceu se houver um ficheiro que prove.
  1. Mudou a comunicação social, obrigada a singrar na arte do clickbait.
  1. Mudou tudo para que tudo fique na mesma.