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Tem a companhia do professor Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. É um gabinete de guerra em formato mais reduzido e centrado na Assembleia Geral das Nações Unidas, que arrancou esta tarde com a intervenção de António Guterres. O secretário-geral da ONU faz a última intervenção nessa qualidade, termina em breve o segundo mandato. Também já fez uso da palavra Lula da Silva, presidente do Brasil, e Donald Trump, uma intervenção aguardada com expectativa. Professor Jorge Rodrigues, boa tarde, bem-vindo, obrigado pela sua disponibilidade. Um discurso que começou olhando muito para dentro, quase como se fosse um discurso dirigido à nação, um discurso do Estado da nação e menos um discurso voltado para o mundo.

Boa tarde, Miguel. Acho que foi muito bem apanhada essa imagem, quase um discurso do Estado da nação e com a grande frase "America is back". Ou seja, comprovadamente a sua direção comunicacional era a sua base de apoio às eleições, apesar de, já antevendo algum tipo de mau resultado possível, se foi afastando um bocadinho, dizendo que ele já foi às eleições e que estas eleições não tinham a ver com Donald Trump. Parecia que estava a dirigir-se exatamente aos pontos que foram lançados e apresentados por António Guterres, só que dando razão a António Guterres por oposição. Projeção de poder, ao contrário do multilateralismo, uma conjugação de nações desenvolvidas exatamente nessa linha para impor um pouco a vontade dos Estados Unidos em diversos países. E quando fala em ameaças, que teve a coragem de as enfrentar e que realmente foi no caminho. Internamente, e era esse o ponto, de salientar nitidamente que diminuiu a pobreza, segundo ele, os rendimentos aumentaram e as fronteiras ficaram controladas. Há aqui, no entanto, uma mensagem direta e efetiva internamente para as questões mais ligadas a um ambiente woke, em que deixa claro que a sua posição nunca irá permitir um conjunto de direitos que eram luta com a administração anterior e, a nível internacional, uma certa mensagem na competição no plano da inteligência artificial, que ele agora designa com superinteligência, em que está à frente da China e manter-se-á à frente da China. Reparemos que este ponto, apesar de ter sido mencionado apenas lateralmente, foi uma importante mensagem a antecipar já a reunião que irá ter com Xi dentro de dois dias, mas que foi marcando uma posição, porque aqui a competição está quase ao nível da competição das administrações massiva. Portanto, isto de parte a parte, não é só da parte dos Estados Unidos. E que tem sido puxada uma tentativa de algum tipo de diálogo, nomeadamente através de um mecanismo de notificação que tem sido falado e, portanto, quer partir para essas negociações, entre aspas, numa posição de força nítida.

Professor, relativamente ao Irão, há esta afirmação de Donald Trump de que o Irão vai acabar por assinar um acordo de paz, logo a seguir às eleições intercalares nos Estados Unidos. Isto tem fundições, esta afirmação de Donald Trump, ou é mais uma, como ouvimos tantas ao longo deste período de conflito?

Não me parece definitiva, apesar de naturalmente a situação no terreno poder evoluir para outra direção, mas a verdade é que não foi ainda alcançado o equilíbrio estratégico. Há, no entanto, aqui alguns pontos que podem ser determinantes. Primeiro, o desinteresse dos Estados Unidos em prosseguir com o conflito por vários motivos, portanto, uma solução negociada seria excelente. Do Irão, acredito que uma parte representada aqui na ONU, que o presidente Ebrahim Raisi, de alguma forma, também não pretende prolongar o conflito, mas naturalmente há outras componentes, outras variáveis, nomeadamente a nível interno do Irão, que não têm objetivo de alcançar e querem maximizar o sucesso relativo que foi alcançado. Vejo aqui o segundo vetor, que era esse ponto que eu queria lançar, que é uma tentativa de "juntem-se a nós, eu lidero, será de acordo com as minhas indicações, mas juntem-se a nós a cortar as linhas de financiamento ao Irão". E esse esforço, que já tinha sido lançado por Scott Bessent, com uma referência muito explícita de ameaça a quem, de alguma forma, permitir algum tipo de apoio financeiro ao Irão, isso envolve inclusivamente a China, coloca em causa o relacionamento a nível global. É uma pressão forte, é uma pressão que se for aplicada vai criar consequências muito relevantes. Coloca em causa toda a organização externa de apoio ao Irão, seja através dos BRICS, seja inclusivamente em alguns parceiros e inclusivamente alguns países que não sendo parceiros acabam por manter ligações financeiras com o Irão e portanto, essa sim, terá umas repercussões muito diretas a ser aplicadas, deixo bem claro.

Professor, temos ainda aqui um minuto. Antes de ir a esta intervenção de Donald Trump, fizeram uso da palavra Lula da Silva e também o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, a última intervenção nestas vestes de secretário-geral da ONU, com preocupações, e o senhor professor há pouco também sublinhava precisamente isso, bem diferentes daquelas que foram expressas pelo presidente norte-americano.

Eu vou me concentrar um pouco em Guterres, dado o pouco tempo. Vamos lá ver, ele lidera o que seria o sistema regulador a nível da comunidade internacional. É uma entidade anacrônica, que tem a competição de outras entidades como o G20, o Conselho para a Paz, etc. Mas de alguma forma nós estamos a falar de uma entidade que não representa o poder atual. E António Guterres tem consciência disso e foi falando nos vários pontos. Este último discurso pareceu muito interessante, mas a verdade é que tudo vem em linha com todo o seu mandato, ou com os seus mandatos, de querer analisar todos os pontos, considerar todos os pontos quase ao mesmo nível e esquecer-se o que é essencial e o que é acessório. Naturalmente, ele gostaria de ter um mundo diferente, ele é ativista, ele defende interesses, interesses positivos para a humanidade, bem entendido, para não haver confusões. Mas a verdade é que o mundo tem que ser visto de uma forma pragmática para se conseguir algum tipo de sucesso. Fala em duas outras ideias que me parecem interessantes e reforça as do passado já, que é o diálogo, que é o multipolarismo em rede, que é algo muito interessante e a ser conseguido. E depois fala algo que, apesar de ter passado um pouco despercebido, é determinante, que são os novos atores do sistema político internacional, seja as empresas privadas, seja o AI como sujeito. É preciso dar prioridade, é preciso proceder a reformas do Conselho de Segurança, muito difícil, mas da própria ONU como um todo, e aí há responsabilidades também internas. É importante não deixar normalizar os conflitos, mas é também muito importante ser pragmático e na análise do futuro, conseguir encontrar formas de atingir objetivos essenciais e não apenas lutar por algumas questões, que eu diria laterais, importantes sim, mas são laterais no contexto global.

Professor Jorge Rodrigues, e a leitura que faz da última intervenção do secretário-geral das Nações Unidas, nessa qualidade, António Guterres, prestes a terminar este segundo mandato, neste dia, nesta terça-feira, marcada pelo arranque da sessão número 81 da Assembleia Geral das Nações Unidas.