Há qualquer coisa de obsceno na forma como a nossa civilização gere o tempo. Gastamos milhares de milhões em biotecnologia para esticar a vida, apenas para depois não sabermos o que fazer com a malta que teima em continuar viva, lúcida e, horror dos horrores, competente. Um estudo seminal da Universidade de Stanford, publicado na Nature Medicine veio implodir a nossa compreensão do envelhecimento. Longe de ser um declive suave e constante, a biologia humana revela-se em três ondas dramáticas de alteração proteómica. O corpo não “envelhece” todos os dias um pouco; ele muda de patamar em momentos específicos: aos 34, aos 60 e apenas aos 78 anos.
Se a ciência nos diz que aos 60 anos estamos apenas a entrar numa “maturidade tardia”, como explicar que o mercado de trabalho continue a tratar os profissionais de 50 anos como peças de museu? O recrutador médio hoje comporta-se como um curador de museu de arte moderna: só quer o que é “disruptivo”, ignorando que a fundação do edifício onde ele trabalha foi lançada por gente que hoje não passava no filtro do seu algoritmo cego. Tratam o talento sénior como se fosse lixo radioativo, quando na verdade é urânio enriquecido. Lamento informar o recém-licenciado de barba aparada e sapatilhas de marca, que gere as redes sociais da empresa entre dois lattes de aveia, que a senioridade não é um vírus informático. A agilidade digital dele pode ser invejável, mas não substitui a calosidade cerebral de quem já viu impérios de papel desmoronarem-se.
Por detrás do discurso colorido sobre a importância do “espírito crítico”, o que o mercado e os RH procuram, na verdade, é carne fresca. Mas não se trata apenas de vigor; trata-se de permeabilidade à moldagem. Um jovem é, por natureza, mais vulnerável à pressão, à intimidação velada e à imposição de regras absurdas sob o manto da “cultura da empresa”. Uma pessoa com décadas de experiência já detém visões consolidadas e uma personalidade que não se dobra ao primeiro sopro de autoritarismo corporativo. Para um gestor inseguro, um profissional sénior não é um recurso; é um problema de gestão. É difícil intimidar quem já sobreviveu a várias administrações e crises globais. Além disso, a ética é um músculo que se constrói com o tempo e com as quedas; num jovem, ela está muitas vezes ainda “verde”, o que o torna o alvo ideal para quem quer subordinados que obedeçam sem questionar. É de uma parvoíce pegada achar que a falta de espinha dorsal é sinónimo de “agilidade”.
Há também um equívoco perigoso na veneração cega da disrupção como um monopólio da juventude. Convencionou-se que ser disruptivo é um atributo de quem acaba de chegar, mas a lógica diz-nos o contrário: para quebrar verdadeiramente um sistema, é preciso primeiro conhecer as suas engrenagens. O que se celebra hoje como “disrupção” é, muitas vezes, apenas a ousadia da ignorância, um idadismo positivo que confunde falta de bagagem com visão de futuro. A disrupção real exige o repertório de quem já viu o que funciona e o que falha. Sem memória, a inovação é apenas uma roda reinventada com um design mais apelativo, mas com a mesma ineficiência de sempre. Só quem conhece o “tudo o que há” pode propor algo que realmente o supere.
A própria ideia de reforma tornou-se um anacronismo perigoso. Criámos um deserto existencial de vinte anos entre os 60 e os 80. Condenar a malta de 65 anos ao banco de jardim e às palavras cruzadas, quando as suas proteínas sanguíneas ainda gritam “ação”, é uma forma de eutanásia social administrativa. O mercado de consumo já percebeu o potencial dos “Nolts” (Normal Old Lifers). Queremos o seu dinheiro, mas não queremos o seu cérebro. É de um cinismo galopante que ignora que, num mundo de automação, o que restará de verdadeiramente valioso será o discernimento e a ética humana, algo que não se descarrega num update de software, nem se aprende num tutorial de cinco minutos.
Não podemos continuar a ter uma biologia do século XXI presa a uma mentalidade de gestão do século XX. O estudo de Stanford é o golpe de misericórdia na narrativa do declínio linear. Precisamos de uma “limpeza” urgente nos processos de recrutamento e de uma revolução individual. A biologia já nos deu o bónus de tempo. Agora, resta saber se temos inteligência suficiente para o usar, ou se vamos continuar a empurrar as nossas melhores mentes para a prateleira apenas porque o seu BI tem mais dígitos do que o nosso senso comum permite aceitar.