Na noite de dia 10 vimos um jovem de 31 anos, marido, pai, a esvaziar-se de vida em questão de segundos, num vídeo que tomou as redes de assalto.
Com ele, em vez de silêncio, o riso. Partilhas eufóricas, emojis de gargalhada, celebrações, e declarações de vitória. Não de criminosos marginais, mas de militantes que se dizem apóstolos da tolerância, da paz, da liberdade.
Quando foi que a morte se tornou espetáculo moralizante?
Todos conhecemos a versão oficial, ouvimo-la na escola, pela boca do professor. Recolhemo-la no cinema, dialogamos com ela diariamente nos telejornais e em muita da imprensa escrita: a violência é de direita. Pequenos grupos, extremistas sem rosto, espalhados pelo mundo. É verdade que existem – e é verdade também que a direita tradicional os rejeita. Para ela, a vida é inviolável, mesmo quando isso lhe custa impopularidade em debates sobre aborto ou eutanásia.
Já à esquerda, para além de uma maior flexibilidade na interpretação do direito à vida, houve sempre uma constante demonização e até desumanização dos seus adversários políticos, e esta desumanização extravasa largamente a classe política governante, vai mais longe. O simples ativista, a pessoa comum, mas com ideias distintas, ou até as suas famílias e amigos. Qualquer pessoa que se sente na sua mesa é automaticamente igual a elas, seu cúmplice em tudo.
Estados Unidos, 2024. Donald Trump é baleado. A reação? Primeiro, teorias de conspiração. Depois, ironias. Uma encenação para ganhar o poder. Depois, um infortúnio a bala ter não ter passado uns centímetros ao lado.
Brasil, 2018. Jair Bolsonaro cai no chão, esfaqueado. O cenário foi o mesmo e um ano mais tarde, em Portugal, um partido pede a Santo António que “leve Bolsonaro para junto de Salazar”. Apelidam-na de piada simbólica.
Pouco importa, afinal falamos de “fascistas”, “nazis”, no fundo, de “monstros”. Quanto mais feia a palavra, mais fácil acreditar que não nos estamos a referir a seres humanos. O insulto já não descreve: legitima. Primeiro foram insultos, seguidas das agressões, das facadas e agora até das balas. Toda uma cruzada de violência abençoada pelos pregadores da paz.
Por cá os alvos desta adjetivação vão desde o PSD ao Chega, passando até pela IL, para garantir que nenhuma frente fica por atacar. Ora todos concordamos que os “Nazis” são o mal, são para ser combatidos de todas as formas, como fizeram os Aliados, então porque não haveríamos de combater todos estes “nazis” que a esquerda nos aponta? Porque devemos ter pena ou consideração por eles?
O objetivo desta desumanização, consciente ou não (dependerá do ceticismo do leitor), passa mesmo por tornar aceitáveis as agressões a estes alvos, que são cada vez mais.
Podíamos ficar por aqui, afinal em Portugal não passaram de palavras e – contrariamente a uma esquerda que pretende suprimir determinados tipos de discursos que “não se podem ter” – não comungo da ideia que há coisas que não possamos dizer, mas a realidade não é essa.
O Bloco e, pasme-se, o Partido Socialista, vão mais longe e integram ex-membros das FP25 nas suas listas. António Manuel Baptista Dias é número 5 na candidatura socialista à Câmara de Setúbal destas eleições autárquicas, Gobern Lopes, ex-dirigente das FP-25, foi 7.º do BE à freguesia do Barreiro em 2021. O caso do PS torna-se especialmente gritante já que António Dias esteve envolvido na morte do agente Álvaro Militão em 1987, éramos já uma democracia consolidada.
O assassinato de Charlie Kirk não nasceu apenas da mão que puxou o gatilho. Foi preparado por anos de insultos, normalizados como piada ou como um grito de guerra que vindo daqueles que já tomamos por pacíficos, por democratas, por reservas morais duma distorcida noção de liberdade por eles mesmos escrita. O objetivo último sempre foi claro, a cada segundo do trajeto até aqui.
A bala sai da arma, sim, mas não foi a bala que matou Charlie, foi a noção de que ali não estava um ser humano, mas um alvo a abater, algo tão abjeto que era indigno ser considerado humano.
Se não travarmos esta cultura, quem será o próximo Charlie?