Recentemente uma expressão pouco comum surgiu no debate público português: Gish gallop. O contexto é circunstancial, mas o fenómeno levanta uma questão mais ampla sobre como construímos opinião e discutimos problemas públicos.
A expressão foi cunhada em 1994 pela antropóloga Eugenie Scott, a partir do estilo argumentativo de Duane Gish, conhecido por debates em defesa do criacionismo. Descreve a apresentação sucessiva de tantas afirmações, argumentos ou dados que se torna praticamente impossível responder a todos.
A eficácia assenta numa assimetria simples: afirmar demora segundos; verificar, contextualizar e responder com fundamento exige mais tempo.
Imaginemos um debate sobre habitação. Em menos de um minuto, alguém pode afirmar que há milhares de casas vazias, que o problema são os impostos, que o alojamento local fez aumentar os preços e que o controlo das rendas falhou noutros países. Não precisamos, para compreender o mecanismo, de saber se estas afirmações são verdadeiras ou falsas.
Avaliá-las exigiria consultar dados sobre oferta habitacional, fiscalidade, arrendamento e experiências internacionais. Quem afirma precisa de segundos; quem verifica, de horas; quem investiga um problema complexo, de muito mais tempo. Quem desenha uma política pública precisa diagnosticar, ouvir, comparar alternativas e avaliar impactos. Todos competem no mesmo espaço de atenção.
Isto revela uma desigualdade estrutural do debate público: entre a velocidade com que circula uma afirmação e o tempo necessário para produzir conhecimento sobre a mesma.
Gish gallop não é sinónimo de desinformação. Pode recorrer a afirmações falsas, mas também acumular factos ou argumentos legítimos numa velocidade incompatível com a sua avaliação.
A comunicação política há muito estuda a importância da rapidez, simplificação e emoção na comunicação pública. As plataformas digitais acrescentaram velocidade e capacidade de amplificação: uma explicação simples ganha vantagem sobre a complexa. A complexidade precisa de tempo.
Isto impacta diretamente nas políticas públicas, cujos problemas raramente admitem explicações monocausais. Conceitos como agenda-setting e framing ajudam a compreendê-lo: o que ganha visibilidade e a forma como um problema é enquadrado influenciam a importância que lhe atribuímos, as causas que reconhecemos e as soluções que admitimos.
As políticas públicas começam antes da aprovação de uma lei: quando uma realidade é reconhecida como problema, procuramos explicar as suas causas e certas soluções passam a ser consideradas adequadas. Se este processo ocorrer num espaço que recompensa a velocidade em detrimento da contextualização, podemos ter cada vez mais informação e cada vez menos condições para a compreender.
Também a dimensão da prestação de contas é afetada. Numa democracia, ouvir quem exerce ou pretende exercer poder exige condições para escrutinar o que é afirmado. O fact-checking é indispensável, mas a verificação pode chegar depois de uma afirmação ter contribuído para formar uma perceção.
A literacia mediática exige mais do que distinguir verdadeiro de falso: implica procurar evidência, avaliar fontes e identificar o contexto ausente. A responsabilidade não pertence apenas aos cidadãos; quem comunica, modera debates, faz jornalismo, as instituições públicas e as plataformas condicionam a qualidade do espaço informativo.
Talvez precisemos de prestar maior atenção à arquitetura da informação que antecede as políticas públicas: às condições em que as afirmações ganham visibilidade, são contextualizadas, verificadas e contraditadas.
O Gish gallop é, assim, a porta de entrada para uma questão maior: estamos a construir um espaço público em que a velocidade da comunicação deixa tempo para compreender?
Num espaço onde todos competem pela nossa atenção, talvez uma das competências democráticas mais importantes seja saber e ter ferramentas para avaliar argumentos.