Surpreendido? Não é o único.

Costumamos falar da democracia como se fosse o estado natural das sociedades modernas. Algo que emergisse espontaneamente com mais educação, mais desenvolvimento ou melhores intenções políticas. Contudo, a  história e a psicologia política sugerem o contrário. A democracia é uma construção frágil. Não porque as pessoas sejam más, mas porque exige comportamentos que entram em tensão com tendências humanas profundas.

Durante a maior parte da nossa história evolutiva, sobrevivemos em pequenos grupos onde a lealdade pessoal, a hierarquia clara e a liderança forte eram vantagens adaptativas.

Para termos uma noção da escala do problema, ajuda pensar o tempo evolutivo humano como um dia de 24 horas. Se comprimíssemos os cerca de 300 mil anos de história do Homo sapiens nesse intervalo, quase tudo o que nos moldou – caça, guerra, alianças, hierarquias, liderança tribal – ocuparia praticamente o dia inteiro. As primeiras experiências democráticas surgiriam apenas nos últimos segundos antes da meia-noite. A democracia, tal como a conhecemos, não teve tempo de nos moldar. Fomos nós que tentámos moldá-la a nós próprios.

Confiar no “nosso” grupo, seguir figuras dominantes e punir dissidentes funcionava num mundo instável e perigoso. Esses mecanismos continuam ativos hoje, mesmo quando o contexto mudou.

A democracia liberal exige quase o oposto: impessoalidade, contenção do poder, tolerância à discordância e aceitação de regras que limitam líderes populares. Exige que resistamos ao impulso de confundir confiança com proximidade, autoridade com carisma e justiça com indignação moral.

Não é por acaso que, em contextos de crise, medo ou incerteza, emergem preferências por figuras fortes e discursos simplificadores. A psicologia política mostra que a perceção de ameaça ativa predisposições autoritárias latentes, reduz a tolerância ao pluralismo e reforça o pensamento tribal. Não se trata de ignorância ou má-fé, mas de funcionamento humano normal sob stress.

As redes sociais amplificam este problema. Plataformas que recompensam a atenção favorecem indignação, polarização e sinalização moral. O debate público transforma-se num campo de batalha reputacional onde vencer importa mais do que compreender, e onde qualquer tentativa de qualificação ou distinção tem um custo reputacional imediato.

Muitas análises falham porque tentam salvar a democracia apelando a mais virtude ou consciência cívica. Mas as instituições não sobrevivem por apelos morais. Sobrevivem porque reconhecem limites humanos e os enquadram.

Este argumento tem sido desenvolvido por vários autores na psicologia e na ciência política, e foi explorado por mim noutros contextos. Mas a ideia central é bastante simples: a democracia não funciona porque coincide com os nossos instintos. Funciona, precisamente, porque foi criada para os contrariar.