Portugal anuncia com solenidade que em 2026 a dívida pública ficará nos 87,8% do PIB. É apresentado como um feito histórico, uma prova de responsabilidade e competência. O número impressiona: abaixo dos 90% pela primeira vez em décadas, dizem. Mas convém perguntar: o que significa, de facto, esta descida?
A matemática é simples. A dívida mede-se em percentagem do PIB. Se o PIB cresce mais depressa do que a dívida, a percentagem baixa. Não é necessário amortizar nada de substancial; basta que a economia não trave. É a vantagem de falar em rácios e não em contas bancárias: o saldo pode continuar negativo, mas a proporção parece mais saudável.
Na prática, o peso da dívida continua a ser um fardo pesado sobre cada contribuinte. Portugal é o terceiro país mais endividado da zona euro, depois da Grécia e de Itália. Não é uma posição de mérito. E, no entanto, as comemorações fazem lembrar um estudante que festeja uma melhoria de nota de 8 para 9 como se tivesse entrado em Harvard.
O problema não é apenas o valor absoluto da dívida. É o modo como chegámos aqui. O Estado habituou-se a gastar mais do que tem, confiando sempre que Bruxelas, Frankfurt ou os contribuintes futuros segurarão a corda. Quando a austeridade aperta, corta-se na saúde ou na educação. Quando a folga aparece, distribuem-se aumentos e subsídios em ano eleitoral. O ciclo repete-se.
Enquanto isso, o cidadão comum continua a viver com salários que mal acompanham a inflação e com impostos que parecem sempre mais rápidos do que o crescimento. A dívida baixa no Excel, mas não no bolso de quem paga renda em Lisboa, combustível a 2 euros ou IRS de classe média. É esta distância entre os relatórios oficiais e a vida real que mina a confiança no discurso político.
Há ainda outra questão: que país se prepara Portugal para deixar à próxima geração? Uma dívida pública que continua entre as mais altas da Europa, serviços públicos cronicamente subfinanciados e uma juventude que emigra porque não encontra futuro cá. A tal descida para 87,8% é um número simpático, mas não responde a nenhuma destas perguntas.
Reduzir a dívida pública não devia ser apenas um objetivo técnico, para agradar às agências de rating ou aos tratados europeus. Devia ser sinal de um Estado mais eficiente, menos dependente de dívida para cada despesa corrente. O problema é que em Portugal a dívida baixa sem que o Estado aprenda a gastar melhor.
O que nos apresentam como conquista é, afinal, apenas gestão estatística. Portugal não se aproxima da prosperidade por descer de 88,9% para 87,8% do PIB. Continua encostado ao mesmo muro: uma economia débil, uma estrutura fiscal sufocante e uma dependência crónica da dívida. Celebrar isto é como comemorar um alívio momentâneo de febre sem tratar a infeção.
O futuro económico de Portugal depende de decisões estratégicas, não de sinais positivos isolados. Mas é curioso como muitos continuam a aplaudir números que soam bem no papel, mesmo quando a vida real dos portugueses continua a ser comprimida.