Se um bebé de dois meses fosse assassinado numa cidade europeia, o mundo pararia. As bandeiras desceriam a meia-haste, os chefes de Estado fariam declarações em cadeia, e alguém já teria proposto uma resolução na ONU antes de o sol se pôr no segundo dia. Em Riyom, distrito de Plateau, no centro-norte da Nigéria, um bebé de dois meses foi assassinado a 12 de julho de 2026. Não sozinho. Morreu junto com oito membros da mesma família, num ataque noturno por homens armados que invadiram a aldeia enquanto eles dormiam. No mesmo dia, dezoito pessoas foram mortas em Otukpo, Benue, a poucos quilómetros de distância. E o mundo não parou. Nem desacelerou. Nem notou. Mas há algo mais incómodo do que o silêncio ocidental. Há a hipocrisia nigeriana. Porque enquanto corpos cristãos se amontoavam em Riyom e Otukpo, o Presidente Bola Tinubu — o mesmo que pede, com toda a solenidade diplomática, um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas — tratava a carnificina como se fosse um problema meteorológico. E a meteorologia, ao contrário da política, não pede explicações.
A candidatura de Tinubu ao Conselho de Segurança não é retórica vaga. É uma campanha diplomática agressiva, conduzida pelo seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Yusuf Tuggar, que em setembro de 2024 apresentou formalmente a candidatura nigeriana na Assembleia Geral da ONU. A Nigéria, argumentou Tuggar, é a maior economia e a maior população da África — 220 milhões de pessoas — e merece representação adequada no órgão que decide sobre guerras e paz no planeta. Os Estados Unidos apoiaram. A Costa do Marfim, a Gâmbia, a Guiné-Bissau e o Togo endossaram. Até a China, membro permanente do Conselho, indicou interesse. Tinubu fala de reforma multilateral, de justiça histórica contra a África, de desenvolvimento económico, de liderança continental. E enquanto fala, em Plateau e Benue, os corpos acumulam-se. Não há contradição mais eloquente do que um líder que reivindica o direito de sentar à mesa onde se decidem as guerras do mundo, enquanto no seu próprio território não consegue — ou não quer — impedir uma guerra de extermínio contra os seus próprios cidadãos.
A natureza dos mortos em Benue e Plateau não permite eufemismos. Não são vítimas anónimas de violência generalizada. São, na sua esmagadora maioria, cristãos. Benue é um estado onde a Igreja Católica conta com mais de 2,3 milhões de fiéis, onde a Igreja Anglicana tem dioceses consolidadas há décadas, onde a N.K.S.T. Church — a primeira denominação cristã da região — tem a sua sede em Mkar, Gboko. A população dominante é a etnia Tiv, sedentária, agrícola, cristã. Os atacantes são, consistentemente, pastores fulani, etnia predominantemente muçulmana, que descem do norte em busca de pastagens. O conflito tem uma dimensão étnica, uma dimensão territorial, e uma dimensão religiosa que não pode ser escondida atrás de classificações neutras. Em
Riyom, os sobreviventes descreveram como os atacantes queimaram casas, como destruíram colheitas, como massacraram uma família inteira incluindo um recém nascido. Estas não são vítimas de um conflito de recursos. São vítimas de uma campanha sistemática de extermínio dirigida contra uma comunidade religiosa específica. E quando uma campanha é sistemática, dirigida, e baseada na identidade religiosa da vítima, o nome que a lei internacional lhe dá não é conflito. É outra coisa. E o governo de Tinubu recusa-se a pronunciar esse nome.
O que o governo pronuncia, em vez disso, são as alterações climáticas. Esta não é invenção minha. É a narrativa oficial, repetida pelo governo federal, pela ONU, e por inúmeros estudos académicos. O argumento é factualmente verdadeiro em parte: o Sahel sofre com desertificação, as secas estendem as estações secas, e a migração de pastores para sul exacerba tensões sobre terra e água. O International Crisis Group, o próprio sistema da ONU em Nigéria, e dezenas de relatórios científicos atribuem o conflito entre pastores e agricultores às alterações climáticas. Mas usar isto como explicação exclusiva — ou mesmo principal — para massacres coordenados, para queima de aldeias inteiras, para assassinatos de bebés em berços, é mais do que simplificação. É encobrimento. É a transformação de um crime político e sectário num fenómeno natural, como se os pastores fulani carregassem rifles automáticos porque a chuva escasseou. O clima não mata com intenção. Os atacantes de Riyom matavam com intenção. E a intenção, quando é sistematicamente dirigida contra uma comunidade religiosa específica, tem outro nome que o governo de Tinubu, a ONU, e boa parte da comunidade internacional se recusam a pronunciar.
A geometria geopolítica deste silêncio não é acidental. A Nigéria é um dos maiores exportadores de petróleo da África, membro da OPEC, com reservas provadas que a colocam entre os principais produtores mundiais. Com as sanções ocidentais contra a Rússia, que reduziram o acesso ao petróleo russo nos mercados europeus, a Nigéria tornou-se um fornecedor ainda mais estratégico para as economias ocidentais. As potências que apoiam a reforma do Conselho de Segurança e que dependem de fluxos energéticos estáveis têm interesse direto numa Nigéria cooperante e estável. E estável, neste léxico diplomático, significa que não crie problemas. Chamar a atenção para massacres de cristãos no centro-norte, reconhecer a dimensão sectária da violência, exigir responsabilização do governo federal — tudo isto criaria problemas. Criaria fricção com Abuja num momento em que Abuja é vista como parceira indispensável na transição energética, na segurança regional, e na reforma multilateral que os ocidentais querem promover. O petróleo nigeriano não é apenas uma commodity. É um silenciador diplomático. E o silenciador funciona em ambos os sentidos: abafa os tiros em Plateau e abafa as perguntas em Nova Iorque.
A matemática da morte não deixa margem para evasão. Segundo a organização Lawyers Alert, mais de 1.000 pessoas foram mortas em Benue apenas no ano anterior. Desde 2019, mais de 2,2 milhões de pessoas foram forçadas a abandonar as suas casas em
Benue e Plateau. O projeto ACLED, que regista violência em todo o mundo, documenta centenas de incidentes fatais todos os anos. E apesar disto, apesar de décadas de massacres, apesar de testemunhos de sobreviventes que descrevem ataques coordenados por grupos armados que chegam de motocicleta, queimam aldeias inteiras, e desaparecem antes do amanhecer, o governo nigeriano continua a chamar isto de conflitos entre pastores e agricultores. Como se a palavra conflito pudesse conter a assimetria entre uma comunidade desarmada e milícias armadas que atacam à noite. Como se conflito pudesse descrever uma situação onde, segundo a própria Lawyers Alert, não houve uma única prisão, acusação ou investigação credível apesar de mais de 1.000 mortes. O Tor Tiv, o monarca tradicional do povo Tiv, descreveu a situação em Benue não como conflito, mas como campanha genocida orquestrada e prolongada. As palavras dele não são minhas. São de quem vive no terreno.
A reação de Tinubu aos massacres é, no mínimo, tardia. Só visitou Benue a 18 de junho de 2025, após o massacre de Yelwata, e mesmo assim não visitou a própria aldeia, alegando o estado das estradas. Em Makurdi, prometeu uma varredura de segurança para expulsar pastores armados. Propôs a constituição de um Comité de Anciãos para encontrar soluções sustentáveis. Prometeu ainda uma cimeira nacional em Abuja. Mas estas comissões, neste contexto, são o equivalente diplomático de atirar água para um incêndio de petróleo. Não resolvem a questão da segurança. Não resolvem a questão da impunidade. Não resolvem a questão de um exército e de uma polícia federal que, segundo testemunhos de residentes locais, chegam tarde demais ou não chegam de todo. A pergunta de um sobrevivente — porque é que as forças de segurança não vieram — não tem resposta oficial. E a ausência de resposta é, ela própria, uma resposta. Entretanto, os agricultores de Benue, com sangue a escalar durante a época de plantação de 2026, continuam a manter-se fora dos campos. A fome que isto produzirá é a próxima tragédia, e já está a ser semeada.
A estratégia de Tinubu é dupla e calculada. Por um lado, acalma as comunidades atacadas com gestos simbólicos — visitas, promessas, comissões. Por outro, mantém a narrativa oficial de que isto é um problema de clima e de recursos, não de perseguição sectária. Reconhecer a dimensão religiosa da violência implicaria reconhecer a falha do Estado em proteger uma minoria — ou, neste caso, uma maioria regional que é minoria no contexto nacional muçulmano do norte. E esse reconhecimento teria consequências políticas que Tinubu não está disposto a pagar. A Nigéria é um país dividido entre um norte predominantemente muçulmano e um sul predominantemente cristão, e o centro norte — o Middle Belt — é a zona de fricção onde estas duas realidades colidem. Benue e Plateau estão nessa zona. E a violência que as consome não é, para o governo federal, apenas uma crise de segurança. É uma equação política que, se resolvida honestamente, poderia desestabilizar a frágil balança de poder que mantém a federação nigeriana unida. É mais fácil — e mais seguro politicamente — chamar-lhe alterações climáticas.
Mas o silêncio não é apenas nigeriano. É também ocidental, e é também da ONU. A organização que Tinubu pretende liderar, como membro permanente do Conselho de Segurança, tem sido notoriamente tímida em relação à Nigéria. Não há missões de investigação independentes que classifiquem a violência como perseguição religiosa. Não há relatórios do Conselho de Direitos Humanos que exijam medidas de proteção específicas para comunidades cristãs em risco. Não há pressão para que o governo nigeriano implemente uma política de segurança que reconheça a natureza sectária dos ataques. A ONU, através do seu sistema em Nigéria, trabalha em diálogo entre agricultores e pastores, em formação para reduzir a violência, em projetos de desenvolvimento agrícola. Tudo isto é louvável. Mas é irrelevante para quem está a ser massacrado. Um projeto de formação agrícola não protege uma família de um ataque noturno. Um diálogo intercomunitário não impede um grupo armado de queimar uma aldeia inteira. A ONU, neste caso, reproduz a mesma lógica dos seus membros permanentes: o interesse estratégico sobrepõe-se ao mandato humanitário. E se a ONU já é assim com um membro não permanente, imaginem como será quando a Nigéria, com o seu petróleo e a sua população de 220 milhões, tiver assento permanente e poder de veto. A comunidade internacional, neste caso específico, cometeu o erro clássico da diplomacia pragmática: confundiu o interesse com o princípio. O interesse diz que a Nigéria é parceira estratégica, fornecedora de petróleo, aliada na reforma multilateral, voz da África. O princípio diz que um Estado que não protege os seus cidadãos não merece liderar o mundo. E o princípio, como sempre, perdeu para o interesse.
A Nigéria não precisa de piedade ocidental. A piedade, neste contexto, seria insulto acrescentado à injúria. Precisa de vozes que não se cansem de contar, de jornalistas que não desistam de traduzir o intraduzível, de organizações que não se contentem com declarações de princípio. E enquanto não as houver, arderá — não apenas em chamas reais, que consomem corpos e comunidades, mas no esquecimento que é a segunda morte, a definitiva. A primeira é dos corpos, e é terrível. A segunda é da memória, e é irreversível. E a memória, no mercado global da atenção onde tudo é negociado e nada é sagrado, já tem preço de saldo permanente. Riyom não é Paris. E enquanto esta equação não for invertida — não no mapa, mas na consciência coletiva — a geografia da indiferença continuará a traçar as suas fronteiras invisíveis, e a Nigéria continuará a arder na escuridão que a Europa, por omissão calculada, e que Abuja, por escolha deliberada, lhe reservaram. O clima não mata. Quem mata são os homens que o governo deixa passar. E quem os deixa passar, quando deveria detê-los, é cúmplice. Não por omissão. Por escolha. E a escolha de Tinubu, entre um assento na ONU e a proteção dos seus cidadãos, já foi feita. A pergunta é se o mundo, ao conceder-lhe o primeiro, se tornará cúmplice do segundo.