Imagine que está num consultório médico para decidir o próximo passo de um tratamento complexo. No ecrã, um sistema de Inteligência Artificial (IA) sugere uma opção com base em milhões de dados. Mas não está sozinho; ao seu lado está um familiar ou um cuidador. Como é que esta nova “presença” digital altera a confiança entre as três pessoas naquela sala?

A ascensão da IA na medicina é inegável. Já sabemos que algoritmos de machine learning conseguem igualar, ou até superar, especialistas humanos na análise de imagens médicas e na previsão de doenças. Vemos o seu impacto desde dispositivos wearables que detetam arritmias até sistemas de apoio à decisão clínica que ajudam a personalizar planos terapêuticos e a reduzir erros. No entanto, enquanto a performance técnica é celebrada, as dimensões sociais e éticas desta interação permanecem, muitas vezes, em segundo plano.

Um estudo recentemente publicado na BMC Medical Informatics and Decision Making, sublinha uma peça do puzzle frequentemente ignorada: as pessoas de apoio ao doente. Estes acompanhantes são fundamentais para a literacia e a confiança do doente, facilitando a sua participação nas decisões. Contudo, a introdução da IA nesta relação triádica (médico-doente-acompanhante) pode gerar novas assimetrias de informação e incertezas.

A resistência à IA na medicina não é apenas teimosia; prende-se ao que os especialistas chamam de negligência da singularidade. É o receio legítimo de que uma máquina, por mais precisa que seja, não consiga captar as características únicas, os valores e o contexto de vida de cada indivíduo. Para que um sistema de IA seja verdadeiramente aceite, este tem de ser interpretável; as suas decisões precisam de fazer sentido não apenas para o médico, mas também para o doente e para quem o apoia.

O grande desafio que enfrentamos já não é tecnológico, mas de design. Muitos sistemas falham na transição do laboratório para a prática clínica porque foram concebidos sem envolver os utilizadores finais. Precisamos de uma IA centrada no humano, que preserve o toque humano e seja desenvolvida por meio de processos participativos. Isto significa integrar ética, ciências do comportamento e informática para garantir que a tecnologia seja um suporte à autonomia e não uma nova forma de exclusão. Como frequentemente defendo, a IA deve ser vista como uma ferramenta de capacitação, e não como um substituto. O futuro de uma saúde digital, equitativa e humana depende da nossa capacidade de garantir que, quando a máquina decide, o faça de forma transparente e em harmonia com as relações humanas que estão no cerne do cuidar.

A tecnologia pode processar os dados, mas a decisão clínica continuará a ser, acima de tudo, um ato de confiança e empatia entre pessoas. Estamos preparados para desenhar uma medicina que use o melhor do silício sem abdicar do que nos torna (melhores) humanos?