Nunca, como hoje, assisti a uma tal unanimidade da comunicação social tão profundamente motivada em garantir uma derrota de uma facção política no nosso país.
Tanto os comentadores, que se consideram independentes, como a maioria dos jornalistas políticos parecem ter enfrentado estas eleições com a vontade de derrotar o projecto da AD, agarrando-se a um episódio, que correu mal, principalmente em termos de comunicação, mas que, de todo, consubstancia qualquer falta que possa minimamente inibir a manutenção de Luís Montenegro como candidato e próximo primeiro-ministro de Portugal.
Independentemente de todas as polémicas e tentativas de culpabilização de Montenegro durante a sua estadia como primeiro-ministro de Portugal, a verdade é que apenas dois casos poderiam ser razão de condenação por conduta imprópria:
A dedicação do seu tempo de trabalho a uma qualquer outra actividade profissional, porque tem a obrigação de exclusividade para exercer o cargo de primeiro-ministro, ou
A participação em qualquer tomada de decisão em temas que envolvessem terceiros com quem mantivesse ou tivesse mantido qualquer relação de interesse.
Quanto à primeira, penso que ninguém acreditará que Luís Montenegro tenha dedicado um minuto que seja ao desempenho de qualquer função na empresa que está agora em escrutínio e, no caso da segunda, não há qualquer registo que se tenha verificado a situação em causa.
Não deixa, por isso mesmo, de ser curioso compreender a razão de tal assunção das dores da derrota da AD por todos quantos comentam e noticiam estes temas diariamente nos meios de comunicação social.
E começo por assegurar que não é seguramente a qualidade e a confiança, ou falta delas, para a liderança do governo de Portugal pois, se assim fosse, dificilmente poderiam deixar que este primeiro-ministro pudesse vir a ser substituído por outro o que enquanto governante desbaratou o erário publico com uma comunicação por WhatsApp, para dar a uma funcionária de uma empresa pública uma indemnização de 500.000€, sem sequer envolver os responsáveis por essa mesma empresa, e muitas outras situações de que ainda mantemos presente.
Tampouco será por ser possível que se prolongue na gestão dos casinos a empresa que está visada por denunciantes anónimos – questão muito criticada, pelos mesmos, a todos os que a faziam no tempo da ditadura – uma vez que esta concessão tem vindo a ser continuada por todos os governos anteriores que por lá passaram.
Não tem com certeza que ver com a propriedade da empresa que a sua família mantinha, uma vez que a propriedade dessa empresa não está proibida a quem desempenhe o cargo de primeiro-ministro e, até a questão da confusão da venda com a situação do regime de casamento em comunhão de adquiridos, sendo ou não um acto nulo, em nada altera aquela circunstância.
Também não tem a ver com a questão original que levantou esta questão – a lei dos solos – uma vez que todos já deixaram cair essa questão.
Não deverá ser seguramente para desviar a atenção dos problemas que ocupavam anteriormente os telejornais nacionais e as primeiras páginas sobre o deputado das malas, ou sobre a pedofilia do mentor da castração química, pois não me aprece que tenha havido essa mudança radical de voto de todos estes que pretendem fazer opinião.
A mim parece-me que estamos apenas a assistir a uma repetição daquilo a que assistimos nos últimos anos nos Estados Unidos, em que os jornalistas e comentadores se transformaram nos grandes defensores da derrota de um dos candidatos e que foram tentando criar a ideia de que esse seria finalmente o desfecho das eleições.
Aí enganaram-se e perderam rotundamente. O povo, que é quem vota, não se deixa enganar pela vontade de quem se habituou a toldar a verdade.
Veremos o que se passará em Portugal, na terra em que todos dizem que o povo é sábio e decide sempre melhor.