Portugal é um país que sempre soube vestir bem a formalidade. Durante séculos, a nossa sociedade organizou-se em torno de títulos, hierarquias e protocolos que separavam quem mandava de quem obedecia. A monarquia, as ordens religiosas, a aristocracia e, mais tarde, o Estado Novo consolidaram uma cultura onde a deferência pública era tão importante como a competência. E este passado, ao contrário do que gostamos de acreditar, não ficou lá atrás. Continua a infiltrar-se nos gestos e nas palavras com que abrimos cerimónias, inaugurações, sessões académicas. Refiro-me à liturgia dos cumprimentos — aqueles minutos iniciais de “Excelentíssimos”, “Magníficos”, “Ilustríssimos” e outras variantes protocolares recitadas antes de qualquer discurso começar. Um ritual aparentemente inofensivo, quase automático, mas que diz mais sobre Portugal do que gostaríamos de admitir.
Durante séculos, o lugar social definiu a forma de tratamento, e a forma de tratamento consolidou o lugar social. Mesmo depois da República, e muito depois da aristocracia de sangue, manteve-se uma aristocracia de cargos. A cultura da honra transformou-se em cultura institucional. Quem fala deve, antes de tudo, mostrar que sabe onde está — e quem está acima de quem. O discurso começa, não com ideias, mas com um mapa de poder cuidadosamente desenhado. Há também um traço tipicamente português que raramente é discutido: o peso excecional do Direito na construção do Estado e da esfera pública. Durante décadas, juristas ocuparam os cargos mais relevantes do país — no governo, na administração pública, nas universidades, nos tribunais. Com eles veio uma linguagem própria: formal, distante, reverencial. As universidades tornaram-se guardiãs dessa liturgia. O resultado é quase caricatural: jovens dirigentes estudantis de vinte e poucos anos abrem discursos como se estivessem no Senado Romano, repetindo fórmulas que aprenderam sem nunca as questionar.
Mas há uma raiz ainda mais profunda — e mais desconfortável — para esta obsessão protocolar. É social. O português médio evita o confronto direto, prefere não melindrar ninguém e teme parecer “desrespeitador”. O famoso “respeitinho” — palavra tão nossa — não é respeito. É prudência. É medo. É subserviência aprendida. Ninguém quer ser o primeiro a romper a corrente. E assim repetimos o que sempre vimos fazer: cumprimentamos longamente, inclinamos simbolicamente a cabeça e só depois falamos.
O mais revelador é que isto não é inevitável, nem culturalmente inevitável, nem civilizacionalmente necessário. Basta olhar para o norte da Europa — Suécia, Dinamarca, Noruega, Finlândia, Holanda — para perceber que a comunicação pública pode seguir outra lógica. Ali, o que importa é o conteúdo, não a coreografia. Um simples “Ladies and gentlemen” resolve em cinco segundos aquilo que por cá demora cinco minutos. E não é coincidência que estes países, que privilegiam a substância em vez da pompa, liderem consistentemente os rankings de qualidade de vida, transparência e confiança nas instituições. Nós, pelo contrário, continuamos obcecados com a forma. Talvez porque, muitas vezes, é o que há para oferecer. Adormecemos a sala com títulos e excelências e só depois iniciamos o discurso — quando a atenção já se perdeu. É uma das estratégias mais antigas para esconder a falta de conteúdo: começar tarde, com a audiência entorpecida.
Não por acaso, quando Portugal tenta fugir a esta solenidade excessiva, cai no extremo oposto. Basta observar alguns discursos em eventos como a Web Summit, onde figuras públicas — de presidentes de Câmara ao próprio Presidente da República — surgem num registo performativo, cheio de piadas forçadas, informalidade teatral e uma ansiedade quase palpável de parecer “moderno”. É uma informalidade tão artificial quanto a solenidade tradicional. Oscilamos entre a pompa anacrónica e a palhaçada performativa, incapazes de encontrar um ponto intermédio adulto, natural e confiante. E tudo isto tem consequências. Quando naturalizamos a hierarquia nos discursos, reforçamos a hierarquia na sociedade. Quando tratamos o topo com solenidade excessiva, aceitamos o topo como imutável. Estes pequenos gestos não são neutros: funcionam como marcadores de ordem social. As mesmas sociedades que comunicam assim tendem a ser aquelas onde o elevador social é lento, quase imóvel. Onde se cumpre antes de se questionar. Onde a crítica é adiada. Onde a decisão se empurra. Onde a espinha se dobra com facilidade.
Simplificar a abertura de um discurso não vai, por si só, transformar Portugal. Mas libertar-nos destas pequenas amarras culturais é um passo importante. Mudar o gesto é simbólico, sim. Mas símbolos moldam comportamentos. E libertar-nos do “respeitinho” é aprender que respeito não é subserviência. Que deferência não é competência. E que nenhum país cresce de cabeça baixa.
Talvez esteja na altura de Portugal aprender a começar discursos de cabeça erguida.