Há algum tempo que queria ler As crónicas, de António Lobo Antunes, pelas quais o autor admitiu sentir um certo desprezo, olhando-as como o meio para atingir um fim: dinheiro. Li alguns dos seus livros, mas agora procurava silenciar todas aquelas vozes que pautam os romances (e que ao fim e ao cabo são a sua), na esperança de lhe conhecer a origem, como o terapeuta que procura as fundações para responder ao porquê de sermos o que somos. Ler uma crónica parece ser uma forma de espreitar o outro, e muitas vezes dá a impressão de que estamos a espiar mais o autor e menos as personagens, uma estratégia perfeita para desviar o olhar da nossa própria vida.

Houve um dia em que encontrei o livro à venda em segunda mão, numa plataforma de vendas online. Na descrição, lia-se “como novo” e, pelas fotografias, não era mentira. No entanto, o preço assinalado parecia pouco credível. Se o livro, novo, custava quase 30€ e ali estava a 5€, só podia tratar-se de uma pechincha ou de um futuro assalto com recurso a arma branca. Embora Lisboa seja uma cidade segura, é difícil não imaginar uma hipotética notícia na CMTV, um alerta com uma fotografia minha a decorar os ecrãs espalhados pelos cafés e pelas casas de todo o país, anunciando uma morte prematura, acompanhada de um trocadilho mal parido, algo como “MORREU, LITERARIAMENTE” ou “QUEM O ANTÓNIO MATOU?”. Tudo porque encontrei um livro a um preço ridículo. Sim, a vida já provou ser capaz de tais façanhas. Se é verdade que sempre receei uma morte aleatória (à imagem de qualquer episódio de Six Feet Under), agora ela estava mesmo à minha frente. A meu favor, apenas uma possibilidade quase heroica, em prol da leitura e do conhecimento. Como epitáfio, talvez “levou a leitura até ao fim”.

O que eu queria definitivamente era desvendar o mistério e compreender o porquê daquele preço. E se algo me diz “não vás por aí”, então é provável que vá. Um pouco como Orfeu quando, consciente de que não podia olhar para trás, escolhe fazê-lo. Se às vezes compensa, outras ficamos sem cabeça. Lembro-me que, a determinada altura, pensei se seria o próprio autor a ver-se livre de um último exemplar, ou a testar de alguma forma o leitor, num jogo criado a partir do tédio (há quem alegue que foi assim que Deus criou o mundo. Cioran, pelo contrário, escreveu que foi a partir de um bocejo do Diabo). Mas ALA devia ter mais que fazer. O anunciante apresentava morada em Campo de Ourique, zona da cidade mencionada diversas vezes pelo autor (tem, inclusive, uma crónica chamada “Uma carta para Campo de Ourique”), o que serviu para alimentar a fantasia de que podia ser ele.

Combinámos o assassinato para o dia seguinte, depois do trabalho. Não tinha como saber se a vendedora (Francisca?) seria de confiança, pois nem apresentava qualquer avaliação de outros compradores, algo que normalmente nos assegura a sobrevivência. Nos outros artigos que tinha para venda, anunciava apenas brinquedos para criança (típico de uma serial killer), um chapéu (de vítimas anteriores) e uma gola (difícil não pensar no verbo degolar). Apanhei o autocarro para Campo de Ourique, em direcção ao endereço que me deu. Aquela rua parecia tranquila e descansou-me ver que havia pelo menos uma testemunha: um empregado à porta de um restaurante, ou seja, o primeiro a ser entrevistado quando a tragédia se consumasse. Dei finalmente com o número da porta e encontrei uma mulher à espera, com um aspecto pouco criminoso (as pessoas normais são as piores, pensei). Disse-lhe que estava ali para comprar o livro e ela entregou-mo prontamente, como quem atira um objecto a ferver. O seu estado era impecável (o dela também, mas refiro-me ao do livro). Segurei-o e folheei-o. Era frio e pesado (tem cerca de 600 páginas). Sem assinaturas, dedicatórias, dobras ou manchas. Com letras, palavras e frases, pontos finais, travessões e vírgulas. Quando me certifiquei de que estava intacto, tive de lançar a pergunta:

— Peço desculpa, mas por que razão está a vender isto tão barato? O livro, novo, custa quase trinta euros.

— Tenho de ver-me livre dele. Está cheio de más energias.

Ri-me. Perguntei-lhe se seria por incluir um prefácio de Marcelo Rebelo de Sousa. Não reagiu.

— Agora passou as más energias para mim — acrescentei.

— Lamento.

Agradeci e fui embora. Entrei num novo autocarro, sentei-me junto à janela e iniciei a leitura. A caminho de casa, imaginei a minha vida gradualmente a degradar, mas senti-me feliz por finalmente ter onde colocar a culpa: nas más energias de um livro maldito.