No discurso que pronunciou quando da trasladação das cinzas de Jean Moulin para o Panteão Nacional, em 1964, André Malraux narra um acontecimento insólito. «Numa aldeia de Corrèze, os alemães tinham morto combatentes do maquis, e deram ordem ao edil para fazer que fossem enterrados em segredo, de madrugada. É costume, nessa região, que todas as mulheres assistam às exéquias de cada morto da sua aldeia permanecendo de pé sobre o túmulo da sua própria família. Ninguém conhecia esses mortos, que eram alsacianos. Quando chegaram ao cemitério, transportados pelos nossos camponeses sob a guarda ameaçadora das metralhadoras, a noite, que se retirava como o mar, fez aparecer as mulheres negras de Corrèze, imóveis, de baixo ao cimo da montanha, aguardando em silêncio, cada qual sobre o túmulo dos seus, o enterro dos mortos franceses».

É bem sabido que a fraternidade na morte é um sentimento inerradicável do ser humano, uma vez que se funda no destino universal de tudo o que vive. Mas é também um sentimento de fraternidade contra a injustiça cometida, fundando-se no princípio não menos universal de que a injustiça contra um ser humano fere todos os outros. Os atentados de 11 de Setembro, cujo 25º aniversário se comemorou, constituíram um testemunho dessa fraternidade. E uniram também os homens de boa vontade na condenação do terrorismo, que não recua diante da morte de inocentes. O fundamentalismo islâmico tornou-se a partir dessa data o inimigo público do ocidente – os atentados têm autor. O actual presidente da câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani, entendeu o contrário. Entendeu que a noite devia persistir para que as trevas se apoderassem dos mortos para sempre, os mortos que foram os outros mas são também os nossos. Para isso recorreu, laboratorialmente e com toda a má fé, à magna questão da qualidade do ar. Em conferência de imprensa a 8 de setembro, três dias antes do dia 11, para assegurar o curso mediático da atoarda, e gastando 34 milhões de dólares, Mamdani inverteu os valores. Tentou que os festejos se virassem contra Nova Iorque, para anular em simultâneo a autoria dos atentados. O essencial era suscitar a revolta contra as mentiras das autoridades que haviam garantido, no rescaldo dos atentados, que o ar era respirável.  No próprio dia 11, durante a leitura solene dos nomes das vítimas, as imagens captadas mostram o edil a rir-se na companhia de Alexandria Ocasio-Cortez. Não se trata de um faux pas social, o que dada a matéria já seria grave, é sim o aviltamento da cerimónia. A memória e o sofrimento não lhe dizem nada, ou, talvez pior, ele veja nos atentados a justa punição do imperialismo americano. O riso feliz, que celebra o presente, é a contraparte da noite e, paradoxalmente, é a sua continuação. Assegura que nada há lamentar e que as vítimas nunca existiram, e que por isso, desfeita a noite, não se verá ninguém de pé sobre o túmulo dos seus.