Não me lembro da última vez que abri uma rede social e encontrei exatamente aquilo que procurava. Talvez porque, na maioria das vezes, nem sequer procurava nada. Um vídeo transformou-se em dez, dez em cinquenta e, quando dei por mim, tinham passado quarenta minutos. Quarenta minutos que não tinha planeado gastar, mas que alguém, algures, tinha todo o interesse em que gastasse.

Vivemos numa economia em que a atenção se tornou uma das moedas mais valiosas. Não precisamos de pagar para entrar, porque o verdadeiro negócio não está necessariamente naquilo que consumimos, mas no tempo que permanecemos. Cada segundo adicional representa mais uma oportunidade para nos mostrar publicidade, recolher informação sobre os nossos interesses e aperfeiçoar os mecanismos que nos mantêm ligados.

E talvez o mais inquietante seja a naturalidade com que aceitamos tudo isto.

Quando foi a última vez que questionámos por que razão determinado conteúdo apareceu no nosso ecrã? Porque vemos certos vídeos, determinadas opiniões ou produtos que, até há poucos minutos, nem sabíamos que queríamos? Gostamos de acreditar que somos nós a controlar aquilo que consumimos. Afinal, somos nós que deslizamos o dedo, que escolhemos o próximo vídeo, que decidimos continuar. Mas será que uma escolha continua a ser inteiramente livre quando o ambiente em que é feita foi cuidadosamente desenhado para influenciar o nosso comportamento?

Os algoritmos não precisam de conhecer as nossas convicções para influenciar aquilo que vemos. Basta-lhes aprender com os nossos hábitos. O que nos faz parar, o que desperta curiosidade, o que provoca indignação, o que nos mantém mais alguns segundos perante o ecrã. E, pouco a pouco, aquilo que parecia ser apenas entretenimento transforma-se numa seleção permanente da realidade a que temos acesso.

O problema não é apenas o tempo que perdemos. É aquilo que acontece durante esse tempo.

Numa sociedade em que a visibilidade depende frequentemente da capacidade de captar atenção, a indignação pode tornar-se mais rentável do que a ponderação, a polémica mais eficaz do que a nuance e a simplificação mais apelativa do que a complexidade. Não porque os algoritmos tenham necessariamente uma ideologia, mas porque os sistemas orientados para maximizar o envolvimento podem favorecer conteúdos que desencadeiam reações intensas.

E isso deveria preocupar-nos.

Discutimos frequentemente a falta de concentração dos jovens, a sua impaciência e a dificuldade em permanecer longe dos ecrãs. Mas raramente colocamos a questão ao contrário: por que razão exigimos autocontrolo individual perante plataformas que investem recursos consideráveis em descobrir como prolongar a nossa permanência?

É fácil recomendar que se desliguem as notificações, que se estabeleçam limites de utilização ou que se pratique uma espécie de desintoxicação digital. Estas medidas podem ajudar. Contudo, há algo de profundamente contraditório em responsabilizar exclusivamente os utilizadores por resistirem a mecanismos que foram concebidos precisamente para captar e reter a sua atenção.

Não se trata de negar a nossa responsabilidade. Trata-se de reconhecer que ela não é a única que existe.

As redes sociais trouxeram possibilidades extraordinárias de comunicação, informação e participação. O problema não está na tecnologia em si, mas na ideia de que o seu funcionamento deve ser orientado, acima de tudo, pela quantidade de tempo que conseguimos passar dentro dela.

Talvez devêssemos começar a fazer outras perguntas. Porque é que a nossa atenção é tratada como um recurso inesgotável? Porque aceitamos que empresas privadas tenham um papel tão significativo na organização da informação que recebemos? E porque continuamos a confundir a possibilidade de escolher com a garantia de sermos livres?

No fundo, a questão ultrapassa o número de horas que passamos diante de um ecrã. Diz respeito ao valor que atribuímos ao nosso tempo, à autonomia do nosso pensamento e à capacidade de decidir aquilo que merece verdadeiramente a nossa atenção.

Aceitamos os termos e condições quase sempre sem os ler. Talvez esteja na altura de questionarmos os termos de uma economia que aprendeu a lucrar com a nossa distração.

Porque, enquanto discutimos quanto tempo passamos nas redes sociais, há quem esteja a discutir quanto vale cada segundo da nossa atenção.