Há um fenómeno antigo na direita portuguesa — talvez remontando ao reinado do Senhor Dom Miguel — que desde a sua fundação se manifesta no PSD e hoje contamina a Aliança Democrática (AD), agora incumbida de governar o país: sempre que a direita conquista o poder, além dos zelosos comentadores, emerge uma personalidade ou uma facção interna pronta a fazer «fogo amigo». O Partido Socialista, pelo contrário, sempre tendeu a falar a uma só voz ao longo das mais de três décadas em que empatou o país, em pouco mais de meio século de democracia. Já à direita, a autofagia sempre foi o prato do dia. Quase sempre em nome da sacrossanta «independência»: estar do contra continua a ser visto como «cool».

O primeiro exemplo que me ocorre é o da direita liberal e conservadora que, através do jornal O Independente, torpedeou os mandatos de Cavaco Silva — ironicamente, o período mais profícuo em reformas e na liberalização do regime pós-25 de Abril. Nessa ofensiva anti-Cavaco, o CDS colocou-se orgulhosamente na oposição, à espera das migalhas. O rendimento político, diga-se de passagem, foi escasso.

Mas o padrão já tinha história. Meses antes das eleições que dariam a primeira vitória à AD no final de 1979, mais de metade do Grupo Parlamentar do PSD insurgiu-se contra Sá Carneiro. Algumas das mais importantes figuras como António Sousa Franco, Magalhães Mota e Jorge Miranda desfiliaram-se ou bateram com a porta, acusando o líder de autoritarismo e de “desviar o partido para a direita” através da aliança com o CDS.

Quando uma nova coligação PSD/CDS chegou ao poder em 2002, surgiram as vozes críticas do costume, de dentro e da opinião publicada. Contudo, o estilhaçar daquela maioria absoluta viria da deserção do próprio Primeiro-Ministro, Durão Barroso, seduzido pela presidência da Comissão Europeia. Jorge Sampaio cuidaria, numa conduta inédita, de dissolver o Parlamento e decapitar a respectiva maioria de direita. A acção haveria de abrir as portas ao advento de José Sócrates, enquanto o país e o comentariado exultavam ufanos.

Mais tarde, com Portugal à beira da bancarrota, a mesma música voltou a tocar, em tom ainda mais vocal, durante o governo da Troïka. Como exemplo, tomemos Manuela Ferreira Leite, Pacheco Pereira, Rui Rio ou José Eduardo Martins. Todos surgiram em coro afinado com a oposição para desgastar Pedro Passos Coelho — uns contra umas medidas, outros contra outras. Apesar de tanto “fogo amigo” e do infame “irrevogável” de Paulo Portas, a carta foi entregue a Garcia. A Troïka foi para casa, o país evitou a bancarrota e Passos Coelho ainda ganhou as eleições seguintes. Um feito, apesar de tudo.

Foi após oito anos de definhamento socialista — que incluiu uma inédita aliança com a extrema-esquerda que hoje acampa no Rossio — que Luís Montenegro devolveu a AD ao poder, ainda que numa vitória sem maioria absoluta. Apertado por uma tenaz parlamentar e com a aparição do Chega, qual necrófago do sistema, constata-se que no PSD ninguém aprendeu nada. E não estou só a falar das aparições ou silêncios de Pedro Passos Coelho. O vírus do ataque interno continua activo.

Há dias, após uma comunicação do Primeiro-Ministro ao país, enquanto fazia inadvertidamente zapping pelos canais de notícias, reparei na cobertura obsessiva dos acampamentos no Rossio e na Praça D. João I. Entre jornalistas e comentadores das mais diversas sensibilidades chamados a pronunciar-se sobre aquelas ocupações, não ouvi uma única voz em defesa da posição assumida pelo Governo: a de não ceder perante uma ocupação ilegal que degrada espaços públicos nobres por acção de uma minoria ruidosa que se julga dona da cidade. Ficou por reconhecer um dado essencial: num contexto tão inflamado, qualquer que fosse a estratégia do Executivo estaria sempre sujeita ao erro e à crítica fácil.

Percebo perfeitamente que Montenegro e o seu governo minoritário não despertem grandes simpatias nem entusiasmos messiânicos – emoções a que não sou atreito. Custa-me, porém, a engolir a cegueira de quem se recusa a reconhecer duas evidências políticas básicas: a esmagadora maioria dos portugueses é visceralmente contrária àqueles acampamentos selvagens, e há alternativas muito piores do que a AD à espreita para regressar ao poder. Na ânsia de protagonismo mediático e de emoções básicas que alimentem as audiências televisivas, muitos à direita parecem inteiramente dispostos a dar o ouro ao bandido. Esta é, aliás, uma das grandes causas do nosso atraso crónico: a gritante falta de pragmatismo e de realismo político – de que não estão isentos muitos dos fazedores de opinião da nossa praça.

Com amigos destes, quem precisa de inimigos? Antes de se juntarem alegremente ao circo mediático para desgastar a direita que governa, os críticos da nossa praça fariam bem em recordar uma regra de ouro da história portuguesa: isto pode sempre piorar.