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Começa agora mais um "Porque sim não é resposta" com o Eduardo Sá. Hoje falamos daquelas frases como: "Não estejas assim, já passa, não penses mais nisso." Quem nos diz isto quase sempre quer ajudar, e no entanto, saímos da conversa a sentir-nos pelo menos incompreendidos. Olá, Eduardo. Comecemos pela intenção. Quando alguém nos diz: "Não estejas assim", o que de fato está a tentar fazer? A ajudar-nos ou a proteger-se do desconforto de nos ver sofrer?

As ditas duas coisas. Na verdade, as duas coisas. Eu não tenho dúvidas que a primeira intenção seja ajudar. Sem dúvida. Que é quase como quem diz: "Vamos tirar a pressão de cima desta pessoa," dando a ideia de que, no fundo, isto bem gerido, se resolve com facilidade. E às vezes até é verdade, às vezes até é mesmo verdade. Só que isto depois tem uma tradução simultânea, não é? Porque às vezes quando nos dizem isto, é quase como se dissessem nas entrelinhas, quantas vezes acontece nas relações conjugais ou nas relações entre os pais e os filhos, é quase como se nos dissessem: "Olha, o fato de estares embaixo está me a pôr muito aflito ou muito aflita. Por favor, não me faças isso," que é quase uma maneira de dizer: "Eu percebo-te em tudo, menos quando tu estás assim, porque quando tu estás mais embaixo, eu fico num sufoco, não tirem-me daqui e, portanto, serei o melhor marido do mundo, a melhor mãe do mundo, menos neste patamar, porque isto cai fora das minhas competências e aí eu não te posso ajudar." E, portanto, quando as pessoas nos dizem isso, como o Nelson estava agora a dizer , deixam-nos, sobretudo, mais sozinhos ou com o sentimento de estarmos mais sós do que quando iniciamos a conversa.

A frase soa um pouco a desqualificação, porque quando ouvimos: "Já passa", a tradução é: "A tua dor não é assim tão grande."

É, Edite. Mas está a ver, quantas vezes tu ou eu já fizemos isso no primeiro momento. Que é quase como quem diz: "Calma, também não vamos imaginar um descalabro só porque existe uma dor." E mais, eu acho que às vezes nós com as dores dos nossos filhos, educamo-los mal, porque eles se calhar, às vezes precisam de experimentar as pequenas dores para aprenderem a tolerá-las e sobretudo a reagir a elas. E às vezes nós queremos poupá-los tanto, que criamos assim uma espécie de imunodeficiência adquirida à dor. Eles não aprendem a lidar com ela. Mas sim, as coisas não são tão lineares. Às vezes, mais do que falares, Edite. Quando uma pessoa chega à casa e percebe que a pessoa com quem nós vivemos não está nos seus melhores dias, a nossa tentação é fazer sempre a mesma coisa: "O que é que se passa?" E a pessoa que está morta por falar, diz: "Não se passa nada." E quando diz: "Não se passa nada", é como se dissesse: "Se tu fosses uma companheira topo de gama, tinhas a fórmula certa para me fazer sentir bem." E quando tu perguntas, é como se dissesses: "Olha, eu conheço-te bem, mas há aqui alguma página em branco que me está a escapar." Às vezes, quando nós temos um filho, basta dizermos assim: "Olha, tu vens imediatamente aqui pro pé da mãe." Ele com umas trombadas de todo o tamanho, está ali cinco ou 10 minutos de corpo de mãe, sem direito a palavras, e agora vai à tua vida. E surpresa das surpresas, aquilo cicatrizou. A password é sempre a mesma. Se eles sentem que nós não ficamos assustados ou se não ficamos aflitos, ou se não ficamos ansiosos com as dores deles, significa que: "Ok, a minha mãe, meu pai, às vezes parecem frágeis, mas quando é preciso, eles não vacilam, estão cá." Quando nós, ou por palavras ou basta um olhar, ficamos assim mais cheios de tremeliques, eles sentem-se com duas dores, as dores com que chegaram e as dores por se sentirem um bocadinho desamparados, porque afinal nós não somos o antídoto pra dor que eles esperavam que fossem.

Há frases melhores do que: "Não penses mais nisso." É porque a dada altura, a voz interior da própria pessoa acaba por ser: "Bom, eu não devia estar assim."

Ó Edite, claro que eu não sou professor de Psicologia e claro que eu não sou especialista em crianças, etc. Está a ver?

Claro.

E, portanto, quando eu tinha um filho muito pequenino, lembro-me que cheguei à casa e ele me disse: "Tenho medo de fantasmas." Tinha visto umas histórias dos desenhos animados, tinha medo de fantasmas. E eu vinha muito cansado e a primeira coisa que lhe disse foi: "Olha, não tenhas medo de fantasmas por uma razão simples, eles não existem, claro." Ele tinha visto os fantasmas. Como é que eu fui parvo a este ponto? E ele ficou atônito a olhar pra mim como quem diz: "Ops, então é uma coisa muito pior do que eu imaginava. Eu continuo com medo de fantasmas e o meu pai não percebe nem sequer a dimensão do meu medo. O que eu vou fazer da minha vida?" E eu lembro-me de ter repensado e fui ter com ele e disse assim: "Olha, pensando melhor, eu não sei muito bem o que são os fantasmas de quem tens medo, claro, mas há uma coisa que eu te garanto. Se eles aparecerem cá em casa, tu chamas, eu aperto-lhes os colinhos, abro a porta da rua, dou-lhes um pontapé pelas escadas abaixo e eu te garanto que eles não voltam cá." E ele respirou fundo e ficou descansado. O segredo é só isto, percebe? Não há uma fórmula. A fórmula é nós dizermos: "Olha, entre estar para aqui a mandar uns falpitios pro ar, há uma coisa que tu precisas de saber. Se tu achas que eu fico muito assustada com as tuas dores, dorme descansado, porque são precisas muito mais dores pra que a mãe ou o pai fiquem, que não és Jesus. Portanto, pensa o que tu quiseres. Não vamos descobrir, provavelmente, o motivo pelo qual estás assim, mas que eu estou cá e que qualquer dor que te chateie vai levar uma chapada que ela vai pensar duas vezes, a isso tu podes ter toda a garantia do mundo que eu não saio daqui."

Eduardo, ficamos por aqui. Voltamos na segunda-feira. Bom fim de semana, grande abraço.

Igual pra ti, Edite.