A geopolítica mundial está a reposicionar-se rapidamente. A eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, aliada à crescente influência dos principais países que compõem os BRICS, como Rússia, China e Índia, trouxe novas alianças e um multilateralismo fragmentado, temático e instável. Neste novo xadrez, a Europa revela fragilidades persistentes na sua liderança política.
Individualmente, os governos europeus mostram-se desorientados, adotando estratégias ad hoc para problemas profundos. Os antigos idealismos políticos perderam-se das suas raízes ideológicas, e o confronto entre o wokismo e a extrema-direita não tem fortalecido as democracias liberais, nem melhorado a vida das populações. Acresce que os compromissos internacionais são frequentemente cumpridos de forma parcial. Um exemplo claro é o dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030, cujo progresso se limita a 17%, a apenas cinco anos da meta.
Para enfrentar este cenário, a Europa precisa de reafirmar os seus valores essenciais, tanto ideológica como institucionalmente, assumindo um papel ativo num mundo onde a sua relevância tem sido frequentemente colocada em causa. Se a construção da União Europeia foi um avanço civilizacional, agora este espaço democrático deve fortalecer as suas alianças com países e regiões com proximidade histórica, promovendo relações económicas, educacionais e culturais mais estáveis e duradouras.
As universidades, pela sua credibilidade e tradição, têm um papel decisivo nesta estratégia. Enquanto centros de excelência em ensino, tecnologia, inovação e ciência, representam uma massa crítica intelectual capaz de oferecer uma visão independente e informada, ajudando (através do ensino, da investigação e da extensão académica pelas redes transeuropeias) a moldar decisões estratégicas que beneficiem tanto as sociedades locais como o equilíbrio internacional, promovendo a paz, a cooperação e o desenvolvimento sustentável não apenas entre governos, mas também junto das sociedades civis.
Um exemplo concreto desta capacidade transformadora foi a reunião recente em Heredia, Costa Rica, onde reitores, académicos, investigadores e estudantes da América Latina, Caraíbas e União Europeia propuseram, em comunicado, aos Chefes de Estado e de Governo a criação de um Espaço Comum Euro-Latino-Americano para o Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação.
Num momento em que as lideranças políticas hesitam, a academia deve ser uma voz ativa e crítica, ajudando a definir novos modelos de convivência global, com base numa ética de solidariedade, responsabilidade partilhada e valorizando o multilateralismo como via essencial para enfrentar os desafios globais.
*Este texto reflete a visão do autor e não da APESP.