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A crise pandémica que vivemos foi uma experiência inédita e assustadora. A Europa viveu setenta e cinco anos de paz e progresso e, tirando os sobressaltos das crises petrolíferas e do subprime, construímos uma sociedade em que a segurança e o bem-estar pareciam garantidos. Inesperadamente, a natureza veio mostrar o seu poder, comprometendo o funcionamento da sociedade e até o que julgávamos serem conquistas irreversíveis da civilização. Tivemos cidades desertas, sistemas de saúde colapsados e a economia mundial em crise.

Só na Europa, registaram-se 56 milhões de contágios e 1,5 milhões de vítimas mortais. Em Portugal, uma em cada dez pessoas foi contagiada e ocorreram mais de 18 mil óbitos. Em 2020, o lay-off, o encerramento das atividades comerciais e o fecho das fronteiras, provocaram a queda do PIB nacional em 7,6% e da procura interna em 4,7%, a contração mais severa registada nas séries do INE.

Este cenário mostra por que razão as crises são vistas como destrutivas e perturbadoras. Mas as crises têm também outra face: obrigam a pôr em causa os paradigmas tradicionais e, por isso, geram novas oportunidades, abrindo caminhos para o futuro. As crises são também destruições criadoras e motores do desenvolvimento. Fazem surgir inovações que afastam os velhos modelos de negócio e abrem caminho a outros com mais sucesso. São ganhos do futuro conseguidos com o sacrifício do presente.

Com a pandemia, os produtores de desinfetantes e de máscaras, esgotaram os stocks. Enquanto os restaurantes encerravam, os take away e as entregas domésticas de bens de primeira necessidade, dispararam. Os meios de transporte trabalharam a ritmo reduzido e o comércio tradicional paralisou, mas o tráfego na internet e as vendas on-line atingiram níveis históricos.

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O desenvolvimento e a inovação também acompanharam a evolução da crise pandémica. A China construiu em 10 dias um hospital com capacidade para mil camas. Startups da área farmacêutica criaram testes rápidos de diagnóstico. Em Hong Kong foram aplicados robots para desinfetar as carruagens do metro e para entregar aos pacientes medicamentos, bebidas e alimentos, evitando o contacto físico. Muitos doentes foram tratados em sua casa com novos meios da telemedicina e as grandes tecnológicas aperfeiçoaram ferramentas para facilitar o trabalho à distância. A nível global, o número de patentes registadas em 2020 desceu quase 1%, mas as tecnologias médicas tiveram um número record de registos. Pouco depois de declarada a pandemia, tínhamos 115 vacinas em desenvolvimento e, menos de um ano depois, estavam no mercado.

Uma sondagem da consultora Twilio, sobre o impacto da COVID 19, mostrou que, para 43% dos inquiridos, a crise acelerou a inovação nos negócios, entre um e quatro anos. Outro estudo da Accenture indicou que a pandemia foi um estímulo ao “pragmatismo criativo”, aumentando a procura por inovação: 95% das pessoas declararam ter feito pelo menos uma mudança de hábitos de vida que iria perdurar.

Por que razão as crises criam condições favoráveis à mudança e são aceleradores da inovação? Há cinco razões que explicam este facto.

  1. As crises criam oportunidades de negócio. Alteram os modelos habituais de produção e comercialização, as rotinas do quotidiano e as necessidades dos consumidores. Levam, por isso, à criação de novos modelos de negócio, relançam outros e mudam as formas de interação dos diversos parceiros. As compras com entrega ao domicílio já existiam, mas ganharam um novo fôlego com o encerramento dos espaços comerciais. O ensino à distância teve um novo impulso e tornou-se uma alternativa ao ensino presencial. O mesmo com o teletrabalho. Muitas empresas e profissionais (re)descobriram a eficácia do trabalho remoto e desenvolveram tecnologias e práticas de gestão ajustadas a este novo modelo.
  2. As crises criam foco e sentido de urgência. Em contextos de estabilidade, as organizações dispersam os seus recursos por diversos objetivos estratégicos e de negócio, explorando diferentes oportunidades nem sempre de forma coerente. Em situações de crise, cria-se sentido de urgência na resolução de problemas concretos e os recursos tendem a ser concentrados nos desafios que verdadeiramente importam. As crises aumentam a seletividade na escolha dos objetivos, elevam a pressão para se obterem resultados práticos e forçam a aplicação intensiva dos recursos. Ao concentrarem energias e meios no que é essencial, aumentam a probabilidade de se encontrar novas soluções no curto prazo.
  3. As crises facilitam a mudança dos comportamentos. Os contextos de crise obrigam a quebrar rotinas, abandonar hábitos instalados e arriscar novos comportamentos. Por isso, é mais provável incorrermos em comportamentos que contrariam as nossas crenças e práticas habituais, produzindo estados de dissonância. Uma forma de restaurar a consonância é abandonar as crenças e práticas do passado e reconhecer as vantagens do que foi feito por exceção. É assim que as crises criam condições favoráveis à inovação comportamental. Muitos consumidores que não compravam on line foram obrigados a fazê-lo, com o confinamento e o fecho das lojas físicas. A experiência contribuiu em muitos casos para os “converter” e passarem a utilizadores regulares deste canal.
  4. As crises aumentam a tolerância ao risco. A alteração na maneira como se avalia os riscos é talvez o efeito mais visível das crises sobre o comportamento. Em contextos estáveis, em que as soluções habituais funcionam, qualquer mudança é vista como introduzindo um grau de risco e incerteza. Deste modo, a avaliação da relação custo-benefício de uma mudança tende a sobrestimar os custos e a onerar a responsabilidade de quem se propõe mudar. Tem-se medo do fracasso. É o conhecido provérbio “em equipa que ganha, não se mexe”. Em contextos de crise, a realidade é outra. Há novos desafios e muitas rotinas são disfuncionais. Uma vez que as antigas práticas não resultam, não se perde nada em tentar soluções diferentes, com ganhos potenciais. Se o que fazemos não serve, por que não experimentar outras alternativas? O risco é não mudar e “quem não arrisca…”
  5. As crises fazem surgir lideranças transformadoras. As crises conferem às lideranças particulares responsabilidades e também a oportunidade de serem agentes de mudança. Os contextos de crise tornam as pessoas especialmente mobilizáveis por propostas que prometem um quadro de futuro coerente, estável e gratificante. Por isso, são o terreno propício para a demagogia e para os falsos profetas, mas também favorecem as lideranças inovadoras que, fundadas na competência e em valores humanistas, apontam novos caminhos às organizações e à sociedade. As crises estimulam a emergência de lideranças e, ao mesmo tempo, aumentam a recetividade às mensagens dos líderes.

Por serem inesperadas, as crises parecem patologias da vida social. Na verdade, são parte integrante da sua dinâmica. Destroem valor, mas também aceleram a inovação e abrem novos caminhos. O fator decisivo para limitar o impacto negativo das crises e aproveitar o seu potencial de mudança, é a forma como são geridas. É isso que está nas nossas mãos: prevenir, controlar e aproveitar as oportunidades da crise para construir o futuro.