Durante décadas, o Alentejo foi o pulmão agrícola de Portugal ; o território vasto e fértil onde se semeava o pão, se produzia o azeite e se mantinha viva uma tradição de trabalho duro e dignidade rural. Hoje, esse mesmo Alentejo está a definhar. O que outrora foi o “celeiro de Portugal” é agora um campo de abandono, vítima de políticas agrícolas desajustadas, de uma burocracia impiedosa e de um desinteresse político que beira o insulto.

A Política Agrícola Comum (PAC), que deveria ser instrumento de coesão e desenvolvimento, tornou-se um fardo. Pensada em gabinetes de Bruxelas onde ninguém conhece o cheiro da terra lavrada, a PAC impõe regras cegas e metas artificiais que asfixiam quem ainda tem coragem de produzir. Em vez de premiar o mérito e o esforço, distribui subsídios segundo critérios que beneficiam mais os grandes grupos e menos os pequenos produtores. O resultado é visível: campos deixados ao abandono, explorações a fechar, e uma juventude rural sem perspetivas, forçada a emigrar ou a trocar o campo por um emprego precário na cidade.

Enquanto isso, o território alentejano é vendido a retalho. Terras outrora familiares, que sustentavam aldeias inteiras, passam agora para mãos estrangeiras a preços quase simbólicos. Empresas de fora, com capital de sobra e visão puramente especulativa, instalam-se para explorar monoculturas intensivas, controladas por algoritmos e não por agricultores. E fazem-no sob a bênção de Bruxelas, que dita a produção e o ritmo da terra como se Portugal fosse uma folha em branco onde se pode escrever sem conhecer a sua História.

O mais grave é que esta perda de soberania agrícola é aceite com uma resignação cúmplice. Ao longo das últimas décadas, já passaram pelo Ministério da Agricultura vinte e cinco titulares ; uma verdadeira procissão de ministros que, salvo honrosas exceções, nada percebem da vida rural. A maioria nunca sujou as mãos na terra, nunca acompanhou uma colheita nem viu de perto o drama de um agricultor que espera pela chuva. O seu contacto com o campo resume-se, na melhor das hipóteses, a um almoço de domingo em Lisboa ou no Porto, onde o “campo” se serve num prato de vitela arouquesa.

O Alentejo não precisa de piedade, precisa de visão. Precisa de políticas que o respeitem como território estratégico, e não como reserva de solos baratos ou destino de subsídios europeus. Precisa de investimento em tecnologia agrícola adaptada à realidade portuguesa, de incentivos à fixação de jovens agricultores e de uma verdadeira reforma que devolva dignidade e rentabilidade ao trabalho rural.

Enquanto continuarmos a olhar para o Alentejo como uma paisagem bucólica para turistas e investidores estrangeiros, estaremos a trair a nossa própria História. Porque um país que abandona o seu celeiro, abandona também uma parte de si. O Alentejo é mais do que planícies e horizontes ; é memória, é sustento e é futuro. E se o deixarmos definhar ao ritmo da indiferença, não será apenas o Alentejo a desaparecer ; será Portugal a perder o seu chão.