Há um Portugal que cresce acima da média da zona euro, com o turismo em máximos, as exportações resilientes, o investimento estrangeiro em recordes e o desemprego em mínimos. E há outro, menos fotogénico, que não o acompanha: o da produtividade estagnada, do valor acrescentado que não cresce e dos salários reais que custam a subir. A boa conjuntura é real e merece ser celebrada. Mas, sejamos claros, não chega.

Os números dizem-no sem rodeios. As remunerações dos trabalhadores deverão atingir 48,5% do PIB em 2026, o valor mais alto desde pelo menos 1995, ao passo que a produtividade cresce uns anémicos 0,2%, depois de recuar no ano anterior. O problema não são os salários, que continuam baixos e têm de subir: é a produtividade que não os acompanha e que os pode sustentar. E no ranking do IMD, o país desce para 40.º lugar (entre 70 países), com a produtividade em 48.º e as práticas de gestão num humilhante 53.º.

Eis o paradoxo: a economia melhora e a competitividade afunda.

O erro seria pensar que basta esperar pela próxima vaga de investimento ou pela Inteligência Artificial. Investir é condição necessária, não suficiente. Comprar máquinas a quem não as sabe organizar é alimentar a ilusão da modernidade sem a substância. É necessária inteligência e competência natural para aproveitar devidamente a inteligência artificial. O salto que nos falta não é apenas de capital. É de gestão, de qualificação e de execução.

E é aqui que mora o nosso “invernoso” descontentamento. Temos talento, mas perdemo-lo para a emigração e para a compressão salarial, que colou o salário mediano ao mínimo e tira prémio a quem arrisca. Formamos jovens qualificados para depois os empurrar para o aeroporto, num mercado que mal premeia o esforço. Temos empresas, mas demasiadas continuam pequenas, subcapitalizadas e mal geridas. Temos investimento estrangeiro, mas pouca arte para o tornar valor que permaneça. Numa palavra: temos boa moeda económica e má moeda estrutural. E, como diz a lei de Gresham, que Cavaco Silva trouxe à política num artigo marcante, a má moeda acaba por expulsar a boa.

Aumentar a produtividade não é palavra de ordem tecnocrática. É a única forma honesta de subir salários sem hipotecar a competitividade e sem repetir promessas que mais tarde se pagam com juros. É melhor formação, melhor gestão, melhor organização do trabalho e instituições que executem em vez de adiarem. É premiar o mérito, e não a antiguidade do compadrio.

A conjuntura favorável é uma janela, não um destino. Há reformas em cima da mesa, a do trabalho à cabeça, que merecem debate sério e não o bloqueio de quem prefere o imobilismo a quem tenta. Ou a aproveitamos para fazer o que sempre se adia ou veremos passar mais um ciclo bom sem nada mudar, à espera do próximo susto. Da última vez que adiámos, o resultado chamou-se troïka.

A boa notícia é que nada disto depende de sorte. Depende de querer. A má notícia é a mesma. A produtividade não se decreta nem se importa: constrói-se todos os dias, com quem cá está e quem formamos.

Conhecem a fábula. A cigarra canta o verão inteiro e a formiga trabalha a pensar no frio que há-de vir. Por cá invertemos a moral: a cigarra contempla, embevecida, o verão da conjuntura e não mexe uma palha, enquanto manda parar as formigas que insistiam em trabalhar e em reformar a casa. O inverno do nosso descontentamento, esse, não pede licença para chegar. E, quando chegar, não há canção que o aqueça.