Nas primeiras palavras que proferiu enquanto eleito, naquela loggia na praça de São Pedro, Leão XIV pediu aos fiéis para se ajudarem “uns aos outros a construir pontes, com o diálogo, unindo-nos todos para sermos um só povo sempre em paz”. Na missa que marcou o final da sua mais recente viagem apostólica a França, na Catedral de Santo Estevão, em Metz, Leão XIV apontou para os vidros que ocupavam a maior parte das paredes daquela catedral, que permitiam que a luz do exterior passasse para dentro, através das mais variadas cores e formas que constituíam os vitrais. Em vez de criar paredes com o mundo lá fora, os vidros permitem que a luz entre e assim ilumine aquela grande catedral. Assim também se parece a Igreja que o Papa Leão XIV vem representar: uma igreja que, apesar de majéstica em tradição e idade, permite a passagem da luz e não impõe uma parede de pedra.

Numa época assinalada pela polarização, pela impaciência com saber imediatamente o que o outro pensa e pela dificuldade em conseguir escutar, o Papa Leão realça uma maneira diferente de olhar e de liderar.

Particularmente, no último dia em Metz, na cidade onde nasceu o fundador da ideia da UE – Robert Schumann – o Papa Leão teve um encontro inter-religioso que contou com a presença dos líderes das principais religiões em França. Este gesto vem demonstrar um líder que realmente quer unir tanto dentro da Igreja coberta por vitrais, como por fora, derrubando as paredes. Revela um Papa que caminha com o outro, mesmo quando divergem em questões fundamentais.

São muitos os que dizem que o Papa Leão tem uma paz que desarma, fruto das suas reações e atitudes construtivas. Isto deve-se ao facto de nunca ninguém saber o que é que aqueles olhos ternos têm por detrás. E é precisamente por causa dessa incerteza que foi tão importante esta sua viagem a três cidades francesas – todas elas relevantes de sua natureza. É a face de Leão XIV que revela esta paz que desarma: porque não atira bombas, não bate o pé de forma óbvia, não critica com o simples propósito de criticar, mas contempla. Leão XIV entrou em França, país que aparenta estar em permanente manifestação e foi recebido com amor, flores e multidões.

Assim se vê uma liderança verdadeira, compassiva e firme: porque age enquanto se disponibiliza a preservar, porque entra em “território inimigo” para dar um abraço ao marginalizado, porque não vem para vencer um debate, mas para apresentar novas formas de superar as diferenças.

E isto vê-se especialmente no anúncio que fez desde a sua varanda, quando contou aos fiéis, como alguém que conta à família e aos amigos, que iria ser submetido a uma cirurgia devido a um nódulo encontrado no seu pulmão. Como um pai que conta aos seus filhos que algo se passa, o Papa contou-nos com total transparência e – lá está – com uma serenidade e paz que desarma, que teria um impedimento de saúde, mais uma vez reforçando a importância do diálogo e abertura; abertura que veio a ser demonstrada de forma especial a partir desse momento, comunicando-nos todos os dias qual o ponto de situação da saúde do Papa, durante o processo da sua operação e recuperação, como se fosse um grupo de família no Whatsapp.

Em um ano e meio de pontificado, o Papa Leão XIV tem conseguido diversos feitos em reação às crises que atualmente assolam a humanidade. E tem logrado isto não com palavras de ódio, inveja, raiva ou frustração, mas com amor e diálogo. Disponibiliza-se para construir pontes e não destruir, como nos pediu a todos quando foi eleito Papa. Se calhar temos de ser um pouco mais assim: um pouco mais vitral, mais contemplação, mais reflexão, mesmo quando não concordamos – especialmente quando não concordamos; para que em vez de muros, existam vidros e para que em vez de distância existam pontes.