A História não se repete, mas às vezes rima. E a música que se ouve hoje entre os Estados Unidos e os seus aliados europeus começa a soar demasiado familiar para quem já estudou as grandes superpotências do passado.

No século XVII, a Espanha era uma superpotência global. Riquíssima com o ouro das Américas, militarmente temida, espalhada por vários continentes. Mas, apesar de todo esse poder, começou a ruir, não apenas por batalhas perdidas ou crises internas. Foi por algo mais invisível, mas igualmente fatal: perdeu a confiança dos seus aliados.

O império espanhol vivia de uma teia de alianças — com nobrezas italianas, com a Igreja, com casas reais europeias. Essa rede era essencial para sustentar a máquina militar e o comércio. Mas a arrogância, a sobrecarga fiscal, as guerras religiosas e uma obsessão com hegemonia acabaram por afastar até os mais próximos. Deixou de ser um parceiro fiável. O isolamento foi o princípio do fim.

É difícil não pensar nisto quando se ouvem as palavras de Donald Trump sobre a NATO. Recentemente, afirmou que encorajaria a Rússia a fazer “o que quisesse” com países da NATO que não cumprissem os 2% de investimento em defesa. Não é a primeira vez que Trump trata a aliança atlântica como uma empresa em que só paga quem “investe”. Mas nunca tinha ido tão longe.

Ora, a NATO não é um negócio. É uma aliança baseada num princípio simples e poderoso: confiança mútua. O artigo 5.º, que prevê a defesa coletiva, nunca foi apenas uma cláusula — foi a alma da segurança europeia e da liderança americana. E quando um líder americano sugere que essa confiança é opcional, abre-se uma brecha que nenhum orçamento militar consegue tapar.

Trump pode argumentar que está apenas a exigir justiça. Mas a forma como o faz — desvalorizando o compromisso americano com os seus aliados — transforma os EUA de líder confiável em parceiro imprevisível. Isso é música para os ouvidos de Putin. E um alerta vermelho para a Europa.

A lição histórica é clara: nenhuma superpotência se mantém de pé sozinha. Nem com armas, nem com dinheiro. Precisa de aliados. Precisa de confiança. E quando perde isso, por palavras ou por atos, começa a queda — lenta, silenciosa, mas inevitável, mas os parceiros mantém a sua força e muitas vezes até substituem a superpotência que perde a sua própria influência.