Sou um homem branco, heterossexual, republicano, do centro-direita, liberal, democrata, capitalista. Profundamente liberal. Profundamente democrata. Profundamente capitalista.

Democracia, liberalismo e capitalismo são condições necessárias uns dos outros. Nenhum deles existe sem os outros dois. Este é o ponto de partida que gostaria de deixar bem assente, porque este artigo se fará à volta da ideologia e dos princípios políticos, e não do currículo das pessoas.

Será publicado no dia 25 de novembro o livro “50 vezes 25 de Novembro”, com prefácio de Pedro Passos Coelho, e com a apresentação de Rui Ramos. O livro conta com o contributo de 31 autores diferentes, e visa assinalar os 50 anos do 25 de novembro de 1975, data histórica da democracia portuguesa. Até aqui tudo certo.

Sou daqueles que de facto considera que o 25 de novembro é uma data histórica, que fechou a revolução e deu o pontapé de saída para uma efetiva democracia portuguesa. Não a desvalorizo, como faz a esquerda invariavelmente, ainda que tenha sido um político de esquerda, Mário Soares, um dos protagonistas principais desta data memorável.

Assim, acho que faz todo o sentido relembrar este dia, como se celebra o 1 de maio, por exemplo, sobretudo neste seu cinquentenário, mas nunca esquecendo que não haveria 25 de novembro sem o 25 de abril, e que o 25 de novembro se destinou a parar tanto a revolução quanto a reação, abrindo caminho para a democracia. Com o 25 de abril vencemos uma ditadura, com o 25 de novembro garantimos que não nasceria outra. O 25 de novembro não rivaliza com o 25 de abril, são datas simbólicas que significam coisas diferentes em momentos e contextos diferentes. Ambas podem e devem ser celebradas, sem desprimor para qualquer uma delas.

Posto tudo isto, não posso deixar de concordar que o 25 de novembro seja efetivamente celebrado, e deixe de ser uma nota de rodapé ou um título bonito que é timidamente evocado todos os anos, sempre com medo que a omnisciência e suprema sabedoria da esquerda venha censurar quem celebra esta data. É, aliás, triste que o 25 de novembro divida esquerda e direita.

Mas se me alegra a celebração efetiva do 25 de novembro de 1975, acho que deve ser aproveitado o cinquentenário desta data histórica para fazer um alerta à própria Direita, que tende a valorizar especialmente este dia.

Analisando com mais atenção o livro “50 vezes 25 de novembro”, não deixa de ser alarmante que, dos 31 autores que contribuem com artigos ou ensaios para este livro, a sua maioria seja militante ou pelo menos simpatizante de partidos como o Chega e o ADN. E se neste aspeto tiver de concordar com a esquerda (o que em mim não é habitual), então que seja.

É importante que a Direita democrática perceba o caminho que está a trilhar.

Deixar que militantes de uma extrema-direita nacionalista e antidemocrática se apropriem de uma data tão especial e tão democrática e a capitalizem como arma de arremesso e trunfo dialético para espalhar o seu veneno absolutista e fazer proliferar o seu discurso autocrático, é aceitar a morte ou, pelo menos, a total descaracterização da Direita democrática.

É importante pararmos para pensar a quem estamos a vender a nossa Direita.

Sou um feroz crítico da cultura do cancelamento e do policiamento das ideias e da linguagem, não tenho qualquer pretensão de impedir que qualquer pessoa escreva um livro sobre o que quiser, e não tenho qualquer intenção de apelar ao boicote a este novo livro – pelo contrário, irei certamente comprá-lo.

Não pretendo também menosprezar o contributo de outros autores que contribuíram para o livro, e que são por demais respeitáveis, como Rui Moreira ou Vasco Rato, entre outros.

Pretendo apenas apelar a que a Direita democrática reflita e decida o caminho que pretende fazer. E quanto falo da “Direita democrática”, refiro-me a cada um dos seus atores e militantes. Queremos continuar a validar o perigoso discurso dos simpatizantes do ADN e Chega, que não querem senão dinamitar a nossa democracia, colocar em risco os nossos direitos, liberdades e garantias, e destruir o Estado de Direito como o conhecemos?

Ou vamos assumir-nos, como defendo, como o último reduto da Democracia, do combate ao autoritarismo, aos que desprezam a liberdade e aos que querem minar os pilares do liberalismo político? É um dilema apenas aparente, para mim. A escolha certa é só uma, por muito que possa não ser a escolha mais fácil. A Direita democrática (PSD, CDS, IL, e todos os cidadãos que, não sendo partidários, se colocam neste lugar do espetro) deve ser a linha vermelha, as tropas da fronteira entre Direita e Extrema-Direita, entre a ordem e a selva, entre a verdade e a mentira, entre a democracia e o pós-democracia.

A Direita não se deve vender nem render à sedução do autoritarismo, deve combatê-lo de forma corajosa e implacável. Combater a extrema-direita faz-se repugnando o seu discurso, isolando os seus protagonistas e afastando as suas pretensões, e impedindo a normalização do seu discurso e das suas ideias mais ignóbeis.

Isto não significa, por exemplo, rejeitar toda e qualquer iniciativa que o Chega apresente no Parlamento. Se o Chega apresentar uma iniciativa meritória no Parlamento, não é por mero despeito que ela deverá ser rejeitada. Por outro lado, se o Chega entender votar favoravelmente uma proposta de outra força política, não deve essa força política ir a correr retirar a proposta apenas para evitar uma associação ao Chega.

Mas deve haver uma fronteira inultrapassável, em termos de poder, entre os partidos da Direita democrática e o Chega, que retire todo o palco, toda a relevância e qualquer resquício de poder a este partido. O Chega (e, claro, os restantes Chegas) não podem ter oportunidade para afirmar o seu projeto político, para segurança e salvaguarda do próprio regime democrático. E essa defesa cabe, em primeira linha, ao PSD, CDS e IL.

Estes partidos democráticos, alguns fundadores do regime, devem ser os primeiros soldados de combate ao Chega e seus parentes. O PSD, CDS e IL são a última fronteira antes do inferno autocrático que o Chega traria a Portugal.

Assim, defendo que os partidos da Direita democrática (incluindo o centro-direita) devem procurar unir-se mais com outros partidos democráticos, como o PS e o Livre, do que com o Chega, no que tocar à sobrevivência do regime.

Estará agora o comum eleitor de esquerda a invocar a Lei da Imigração ou da Nacionalidade para tentar demonstrar uma aproximação entre PSD e Chega, pelo que apelo a que não se confunda a convivência democrática normal com aproximações ideológicas.

Há um problema de imigração em Portugal, e ele deve ser resolvido. O Governo pretendia resolvê-lo de uma forma que o PS rejeitava, e teve então de buscar apoios noutros partidos, nomeadamente o Chega. Isto é viver em democracia. O Governo fez o mesmo com o IRC, e o PS com as SCUT.

Diferentemente, no que tocar a concessões que empoderem o Chega e o aproximem do poder, os partidos democráticos devem, sim, pensar duas vezes. Desde logo, devemos impedir que o Chega possa chegar ao Governo – nesse aspeto, Luís Montenegro tem estado à altura e mantido o “não é não”, mesmo em prejuízo de uma maioria muito alargada no Parlamento. Até no Orçamento do Estado tem sempre negociado com o PS a sua viabilização – o que defendo que se mantenha, mas não sendo irredutível quanto a uma possível viabilização futura pelo Chega, sob certas condições.

Importante é que, no futuro, e venha quem vier a liderar o PSD, CDS e IL, esta postura se mantenha. Combater o Chega, custe o que custar, apenas para proteger a democracia, liberdade, o nosso modo de vida. Tal já aconteceu noutros países, em diferentes momentos da história, como na Bélgica, Áustria e Finlândia, onde partidos rivais (socialistas, liberais, conservadores) se uniram para impedir a tomada do poder por partidos nacionalistas e de extrema-direita.

Sou também completamente a favor de que o mesmo deve ser feito contra qualquer partido da extrema-esquerda, mas essa ameaça é hoje, felizmente, inexistente.

A admiração que nutro por Pedro Passos Coelho, que considero ter sido um dos melhores Primeiros-Ministros que Portugal já conheceu, que me inspirou a ter participação política, e que reconheço como um político sério, sensato e uma referência histórica da política portuguesa, não me impede de estranhar a aproximação a partidos como o Chega, ou pelo menos a sua acrescida tolerância.

Concordo com Pedro Passos Coelho no combate ao politicamente correto, ao policiamento da linguagem e das ideias, à cultura de cancelamento, à necessidade de regulação de imigração, e sou a crer (ato de fé) que, se fosse PM, não aceitaria governar com o Chega – quem já lidou com um Paulo Portas como parceiro de Governo, sabe o quão prejudicial seria ter um André Ventura.

Mas mais deve ser feito para combater a extrema-direita, a ameaça última do nosso modo de vida, dos direitos que damos por adquiridos, das liberdades que exercemos a torto e a direito – e que assim continuemos a exercer! Não a devemos trazer para dentro, e, sobretudo, não lhe devemos vender qualquer centímetro da Direita democrática.

A forma como transformaram a Assembleia da República numa autêntica selva, a forma como tornaram a indecência e o insulto recorrentes no discurso público, a maneira animalesca e repugnante de tratar adversários, cidadãos, compatriotas, e mesmo as próprias instituições… o Chega não serve a ninguém, deve ser rejeitado liminarmente.

É função de qualquer democrata, de esquerda ou direita, liberal ou conservador, combater os movimentos extremistas, abdicando da trincheira ideológica, aceitando as diferenças para outros partidos e protagonistas. Se não cedermos na ideologia agora, cederemos, no futuro, a nossa liberdade, os nossos direitos e, quem sabe, a nossa vida. Fora com a extrema-direita!