Nas últimas eleições autárquicas, o país conheceu um novo panorama autárquico que destoa em grande parte daquilo que se tinha visto desde 2013. O Partido Social-Democrata (PSD) teve uma vitória clara, tendo conquistado o maior número de câmaras municipais e freguesias. Não deixou de haver, é claro, algumas desilusões autárquicas, que até mesmo Luís Montenegro admitiu que “custaram um bocadinho”. A vitórias do PS em Coimbra, Viseu e Bragança são certamente o ponto mais negativo da noite eleitoral social-democrata.

No entanto, a vitória laranja foi por demais evidente, e a onda laranja ganhou novo fôlego a nível nacional. O PSD é, tantos anos depois, o partido da moda no país.

Mas no meio deste oásis social-democrata, encontramos um verdadeiro deserto: Leiria. Viseu e Bragança, alguns dos concelhos apelidados de ‘Cavaquistão’, foram custosamente perdidos pelo PSD em 2025. Mas o primeiro concelho do Cavaquistão a cair foi mesmo Leiria, em 2009, quando o PS ganhou autárquicas no município pela primeira vez em democracia.

O concelho de Leiria é-me particularmente caro: foi lá que nasci, cresci, andei na escola e é lá que faço questão de voltar todas as semanas, não obstante viver em Lisboa. É a cidade onde os meus pais cresceram e viveram, e onde o meu pai foi autarca vários anos e a minha mãe pertence à uma associação de bombeiros voluntários. Leiria é a minha cidade, sempre foi e sempre será. Nasci e cresci com a noção de interesse municipal e interesse público bem presentes.

E é por isso que me custa assistir, desde 2009, a uma sucessão de executivos autárquicos que votaram a cidade a um estado de dormência e, arrisco, irrelevância a nível nacional. Hoje, Leiria não existe; essa é mesmo a posição de Leiria no mapa de Portugal: inexistência, apagamento, irrelevância.

É o que sucede quando as prioridades políticas se resumem a medidas de cosmética, gestão diária da cidade, satisfação de clientelas (sem qualquer insinuação de ilegalidade) nomeadamente no setor cultural, mas sem uma visão estratégica e de futuro para o concelho de Leiria.

Não é dizer que tudo é mal feito pelo atual executivo. É dizer que há muito por fazer, e muito por fazer melhor. E que deve ser exigido ao executivo municipal de Leiria, que é uma grande cidade, uma ambição maior para reposicionar Leiria no mapa nacional.

Analisemos o Ranking de Competitividade Municipal de 2025 elaborado pelo Instituto +Liberdade. No total são utilizados 11 critérios para a determinação do ranking, mas referir-me-ei apenas a alguns.

Para começar, Leiria não lidera em nenhum dos 11 critérios. Dirão alguns leitores que não é exigível que Leiria seja o 1.º classificado em algum dos parâmetros para que se considere um município desenvolvido. Sem dúvida, e concordo. Mas importa deixar aqui algumas notas por parâmetro, para se mostrar o caminho que Leiria tem por fazer, e que tem escolhido não fazer:

  • Saúde: este parâmetro incorpora fatores como médicos por mil habitantes, camas em hospitais públicos e farmácias por 100 mil habitantes. Leiria situa-se em º lugar, atrás de concelhos como Valpaços, Cinfães, Peso da Régua, Seia, Nelas, Anadia.
  • Educação: este parâmetro incorpora fatores como a média do ranking de superação das escolas, instituições de ensino superior por 100 mil habitantes e docentes de ensino não superior por mil habitantes. Leiria situa-se em º lugar, atrás de concelhos como Vale de Cambra, Esposende, Vila Pouca de Aguiar, Nazaré, Arouca, Bombarral ou Miranda do Corvo.
  • Proteção e Justiça: este parâmetro incorpora fatores como n.º de crimes, n.º de bombeiros, processos pendentes na justiça civil. Leiria situa-se no º lugar (!), atrás, por exemplo, de Torres Vedras, Esposende, Seixal, Pombal, Alijó, Lagos, Amadora.
  • Fiscalidade e Endividamento: este parâmetro incorpora fatores como impostos cobrados pela Câmara Municipal per capita, taxa de IMI, derrama municipal, e dívidas da Câmara. Leiria situa-se em º lugar (!), e nem vou enumerar os concelhos que estão à nossa frente por franca vergonha.

É este o legado dos últimos 16 anos de gestão socialista, e dos últimos 6 anos do Presidente Gonçalo Lopes? É. Haja alguém que o diga.

A tentativa de “colocar Leiria no mapa” passa sobretudo por festas e festivais, pela Final Four da Taça da Liga ou o Festival Extramuralhas, mas não é aí que se esgota a ação política autárquica, sobretudo quando até nesses eventos não se acautela os danos e constrangimentos causados aos moradores da cidade e freguesias vizinhas. O posicionamento do concelho de Leiria deve ser feito através da tentativa de melhorar e até estar em posição cimeira nos vários indicadores de competitividade municipal indicados, e noutros que não enumerei. Menos festas e bolos. Mais ação real para fazer cidade em Leiria.

Leiria não avançou na habitação, na mobilidade, na captação de investimento privado, na atratividade turística, na ferrovia, na saúde. E regrediu mesmo na relevância nacional. Como se explica que uma capital de distrito, com praia, com uma localização privilegiada em relação às principais cidades do país, com uma proximidade única ao maior centro religioso católico do país (Fátima), tenha tão pouca importância que até os próprios portugueses se esquecem dela?

É surpreendente como não se resolvem problemas do concelho tão óbvios como não haver uma circular externa gratuita, ao contrário da maioria dos grandes concelhos, não haver um papel público da Câmara na oferta da habitação, que já é escassa e na grande maioria não é acessível, as permanentes descargas de efluentes suinícolas e industriais no Rio Lis, o esquecimento do Pinha de Leiria, a notória falta de investimento público face a outros concelhos, entre outros.

Estes são só alguns problemas do concelho, que não são dignos de uma capital de distrito, de uma cidade que se quer moderna, evoluída, transformada, capaz de responder aos desafios dos novos tempos. Isso é porque Leiria, politicamente, vive no tempo velho, um que já pouco percebe das transformações que são necessárias empreender.

Por isso, é também tempo de a atual oposição, a nível concelhio, evoluir na sua capacidade de fazer política e oposição no concelho.

As divisões no PSD Leiria têm sido mais tradicionais do que ocasionais, e têm relegado o PSD para um nítido segundo plano na cidade. Boicotes, birras e lutas partidárias que só prejudicaram o partido e, consequentemente, a cidade. Na minha participação precoce no PSD e JSD Leiria, cedo percebi que o que defendo para o PSD e para o município não estava minimamente nas prioridades da estrutura local.

Leiria tem uma maioria sociológica social-democrata. Isto vê-se não só na história das autárquicas, mas ainda hoje nas eleições legislativas. O PSD sempre foi o mais votado nas eleições legislativas no concelho de Leiria. No tempo de Cavaco Silva, chegou a ter resultados na ordem dos 65%. Com Rui Rio, em pleno descalabro eleitoral, também o PSD venceu expressivamente em Leiria. Em 2025, com Montenegro, o PSD obteve 40,2% dos votos, e ganhou mesmo em todas as freguesias do concelho. Como pode o PSD Leiria desperdiçar isto?

A apresentação de Sofia Carreira como candidata foi um sinal positivo, mas não suficiente. O PSD Leiria está profundamente descredibilizado no concelho, e só uma viragem total e uma verdadeira fuga para a frente podem voltar a trazer a grandeza a um município que está confortável na sua pequenez. É precisa uma visão desempoeirada e moderna da política. E são precisas pessoas novas, enérgicas, ambiciosas e com instinto e capacidade política para concretizar essa visão, priorizando sempre os interesses dos leirienses.

Também o PSD Leiria precisa de sair do tempo velho, e chegar ao novo tempo. Aliás, deve ser o PSD a trazer esse novo tempo para Leiria.

Eu defendo que Leiria merece ser grande, e que os leirienses se sentirão atraídos e militantes de uma nova iniciativa política que defenda o reerguer da cidade. Essa iniciativa, creio, deve ser protagonizada por um PSD Leiria que se desprenda dos vícios do passado, dos rostos que ditaram a sua desintegração, e que apresente novas ideias, e novas pessoas.

Leiria é um deserto no oásis autárquico social-democrata. Pode e deve ser grande, mas o atual executivo socialista está resignado a esta irrelevância da cidade e, arrisco, confortável com ela. Leiria não pode ser tímida, nem pequena, nem inexistente. Precisa de novas políticas e novas pessoas. Leiria não pode ser desperdiçada, deve existir.