O calendário para as eleições presidenciais aperta e a corrida continua louca, imprevisível e cheia de pequenos tesourinhos que vão alegrando quem as cobre 24h/por dia, mas que pouco dizem a quem enfrenta um dilema que hoje, ao contrário das passadas décadas, se coloca de forma geral: em quem voto?
O eleitor “de esquerda” tem a vida, nesse aspeto, mais facilitada: ou vota por desmedida convicção na extrema-esquerda que se divide em 3 candidatos mais ou menos inexpressivos, ou vota no representante de um centro-esquerda moderado, sensato e com reais possibilidades de alcançar o poder (talvez a única que a esquerda terá nos próximos tempos).
Já o eleitor “de direita” enfrenta mesmo um dilema fundamental. Ventura parece ser o menos sujeito às variações na contabilidade dos votos, no sentido em que tem o eleitorado mais fiel e fixo, com pouca basculação, e resumido essencialmente aos alienados enraivecidos, tristes e chateados com tudo e mais alguma coisa, associando o seu insucesso pessoal às deficiências do Sistema, bem como o ocasional ultraconservador bacoco. Não é surpreendente que se mantenha nos 18-19% nas sondagens, ligeiramente abaixo do que o Chega obteve nas últimas legislativas.
João Cotrim de Figueiredo encabeça a frecha liberal do espetro político, mas transcende visivelmente o reduto eleitoral da Iniciativa Liberal, afirmando-se como um sério candidato a passar à segunda volta. No entanto, o dia 12 de janeiro de 2026 caiu como um estrondo na entourage do liberal, quando colocou a hipótese de apoiar Ventura numa segunda volta, e hoje veio tentar remediar (foi mesmo só uma tentativa), dizendo que “não sabe o que lhe passou pela cabeça”, e justificou com o cansaço da campanha. Quanto aos demais casos que surgiram também nesse dia, não merecerão o meu comentário.
Gouveia e Melo, que se situa neste espaço intersticial entre política e forças armadas, entre esquerda e direita, entre extremismo e moderação, entre o sistema e o anti-sistema, tem sido a desilusão maior desta campanha eleitoral, não conseguindo vender esta imagem de independente e não-político, ao que certamente não terá ajudado a proximidade a figuras como Rui Rio, Luís Bernardo, Isaltino Morais, e uma associação mais ou menos omnipresente à maçonaria, que desde logo deixa o Almirante bastante irritado sempre que é mencionada. Quem não deve não teme.
Luís Marques Mendes vai fazendo a sua campanha, sem sobressaltos, evidenciando uma postura serena independentemente da direção dos ventos, situando-se sempre ao centro, mas não saindo da asa do Governo da AD.
Os debates foram, de certa forma, elucidativos. A brejeirice e alarvidade de André Ventura permanecem intocadas. Seguro foi sempre igual a si mesmo: sensato, tranquilo, monocórdico, vago. Marques Mendes com uma postura semelhante, embora mais carismático, conhecedor e com alguns trunfos na manga dentro daquilo que os poderes presidenciais lhe permitem. Gouveia e Melo confirmou o que já se desconfiava: é de esquerda, de direita, de centro, de cima, de baixo, de todos e de nenhum, e, assim, demonstrou algum vazio de ideias e, pior, de convicções.
Cotrim foi várias vezes afirmativo, pujante, disruptivo. Foi também tantas vezes imprudente, imaturo, instável. As acusações a Marques Mendes saíram-lhe pela culatra, quando o social-democrata o atacou diretamente na jugular no primeiro minuto de debate, seguido de um silêncio confrangedor (e pouco usual) do liberal, tendo sido incapaz de concretizar quem o pressionou a não se candidatar, quando, de que forma, e sequer se estaria mesmo associado a Marques Mendes – acabou com Cotrim a dizer que talvez não estivessem associados à candidatura do social-democrata, mas que presumiu que sim.
Posto este desenho eleitoral de uma corrida tão inédita, o que pensar? Em quem votar? Não vou dizer que tive zero dúvidas, que tive desde início a certeza sobre quem mereceria o meu voto. Mas hoje as dúvidas dissiparam-se, e as certezas afirmaram-se.
O Presidente da República é um cargo com poderes limitados e tantas vezes meramente simbólicos, é certo. Mas não deixa de ser o Chefe de Estado, quem representa Portugal perante outras nações, quem nomeia o Governo, e, sobretudo, quem tem o papel constitucionalmente atribuído de influenciador-mor da condução da política nacional (a famosa “magistratura de influência”, onde muitas vezes se refugiam os candidatos presidenciais quando lhes perguntam como vão realmente executar o que estão a prometer). E não deixa de ter o poder de marcar politicamente o calendário em Portugal, estabelecendo prioridades, enfatizando problemas e possíveis soluções, recomendando os órgãos de soberania a atuar de certa forma.
O Presidente da República é importante, ponto. É o garante da nossa Constituição. É o último fiel da balança do nosso sistema político. Assim, é importante que quem exercer este cargo seja dotado das qualidades políticas, mas sobretudo pessoais, necessárias para nos garantir equilíbrio, estabilidade, e algo que vai sendo cada vez mais raro: normalidade.
Entenda-se que o Presidente da República não é um executivo, não executa medidas, não aprova legislação. Por isso, quem considerar que elegendo Cotrim de Figueiredo, o IRS vai baixar no dia a seguir, desengane-se. E o exemplo de Cotrim de Figueiredo é até paradigmático para a posição que de seguida transmito.
É preciso decidir sobretudo tendo em consideração o perfil pessoal e político de cada candidato. Cotrim de Figueiredo, como André Ventura, pretendem executar, mudar o país, têm um rol de propostas e medidas que invariavelmente surgem no seu discurso, mas que não cabe ao Presidente da República executar. Isto é, sendo Presidente, Cotrim ou Ventura não poderão executar nada do que estão a propor.
É por isso necessário ter em conta esse perfil pessoal e político, conjugado, claro, com alguma afinidade ou, pelo menos, tolerância ideológica.
Assim, e concluindo, não podia deixar de votar em Luís Marques Mendes. Entende os poderes do Presidente, conhece a maioria dos atores políticos, empreendeu diversas tarefas políticas como deputado e governante. É sensato, demonstra sentido de responsabilidade, é sereno, previsível, ponderado, e é um criador de consensos. Nada mais importante num Presidente da República, tendo em conta sobretudo o cenário político cada vez mais polarizado que enfrentamos.
Dito isto, Seguro partilha também muitas destas qualidades. No entanto, não deixa de ser um relativo desconhecido, que já disse não querer ser chamado de socialista (entretanto já virou o bico ao prego), que não consegue apresentar uma convicção ou ideia concreta sobre nenhum assunto, a não ser os lugares-comuns e frases feitas que traz tão bem treinadas. Não esquecer as impressionantes afirmações “a justiça deve ser igual para todos; a lei laboral deve ser equilibrada; devemos respeitar trabalhadores e empresas”, entre outras opiniões tão amigas do vazio.
Marques Mendes não deixa de tomar posições, mas situando-se sempre num campo de moderação que, a meu ver, não deve nunca faltar a um Presidente da República. Tudo isto sem se render ao socialismo velho, caduco, findo, e sem respostas. É moderado sem ser vago. É previsível sem ser inerte. É confiável sem ser aborrecido. É equilibrado sem ser indefinido.
Ninguém sabe como acordará o país no dia 19 de janeiro, muito menos no dia 9 de fevereiro (após a previsível segunda volta). As possibilidades são várias: as nuvens de Seguro ou Gouveia e Melo, a ameaça séria de chuva de Cotrim, a tempestade de Ventura. Sabemos sim que com Marques Mendes teremos algo que conhecemos, um day-after sem sobressaltos, sem ruído, sem tragédia. Um day-after sereno, sem nuvens e com um horizonte tão nítido que poderemos ver algo reconhecível como futuro.