A desgraça é tremenda, a tragédia não trouxe misericórdia.
Leiria é palco de uma destruição inédita, de um inimigo que não se viu do Castelo, não foi detetado ao longe de um postigo da muralha, chegou invisível.
Foi o vento. Quem levou os telhados das casas, quem vulgarizou as árvores frondosas do que povoam o concelho, quem atacou os locais mais sacrossantos da cidade, e destruiu o imaginário da infância, juventude e idade adulta de centenas de milhares de pessoas. Da minha infância, juventude e idade adulta.
Hoje na colina da Igreja de Nossa Senhora da Encarnação, palco de tantos passeios e aventuras juvenis, nenhuma alegria se avista. No Estádio que todos vimos erguer, joga o bravo povo leiriense contra a devastação mal-vinda – o resultado só poderá ser um. No Pinhal de Leiria, que todos temos por fortaleza da região, avista-se, de novo, mais a morte do que as árvores.
A força da natureza, que passamos todo o ano a menosprezar, falou tão alto que nos tirou um pedaço da nossa vida. Uma perda que todos os leirienses podem atestar; ver-se-á da nossa janela, sempre que acordarmos.
Mas Leiria não caiu. Foi testada na sua bravura e na sua bondade, que sabemos não faltar.
A ruína pelas margens do Lis não é a ruína de uma cidade que começa e acaba nos seus cidadãos, que hoje são família e entregues a si próprios.
Ao contrário do que muitos acham, não é hoje tempo para a crítica política, para táticas e estratégias que interessam à corte lisboeta, mas que não interessam às populações que perderam casas, bens e os seus mais próximos. Rememos todos para o mesmo lado, ajudemos quem tem por missão auxiliar as populações e apoiar a reparação da cidade. Os políticos, os técnicos, as forças de segurança, e, claro, as populações. Todos merecem o nosso apoio e a nossa colaboração.
Nos filmes de ação que invariavelmente se focam na vida ou morte de um qualquer político estrangeiro, ouvimos frequentemente “the Eagle has fallen” (ou outro nome de código qualquer), para simbolizar a queda dessa figura. Pois, Leiria has not fallen. Leiria não caiu.
A cidade que não existe foi detetada no mapa impiedoso da raiva dos ventos de mais de 150 km/h que sopraram sobre a nossa região, desde Leiria a Coimbra, passando por Castelo Branco, Pombal, e tantas outras localidades que se depararam com a fúria incontrolável.
Uma região tão frequentemente assolada por incêndios, hoje enfrentou um inimigo ainda mais sorrateiro. Porque não se vê, não se cheira, não se enfrenta, não se apaga. Não se evacuam freguesias, não se fecham perímetros, ninguém nos vale. É esperar que passe, e não volte.
Mas que volte Leiria. Que tornemos a existir pelos melhores motivos. E que a cidade que às vezes não existe prove que os aluimentos não arrastam a solidariedade, que a destruição não arrasa a entreajuda, que os ventos não derrubam a bravura, a coragem e a humanidade. Que nada nem ninguém destrói Leiria, porque Leiria, mais que fronteiras, é um ideário.
É a calmaria da província, que se apaga pelas 18h de cada sexta-feira, numa cidade que por breves minutos insiste em ter trânsito de capital. É os mais velhos no café, que mesmo no centro da cidade cumprimentam quem passa, reconhecendo-se ou não, mas porque de uma capital de distrito ninguém tira a aldeia.
É a Praça Rodrigues Lobo, de onde avistamos o Castelo, como se o mundo tivesse sido criado já assim, como se estivessem lá desde sempre, e fosse impossível que qualquer homem o alterasse. Pois, nem homem, nem tempestade.
De entre o desespero, a ruína e o desnorte, sabemos que da Praça continuaremos a avistar o Castelo, que teremos sempre estacionamento no Estádio, que o UD Leira há-de subir de divisão e que a Gândara dos Olivais é independente dos Marrazes. Que Fátima, na verdade, é mesmo em Leiria, que na Praia do Pedrógão fará frio quando em todo lado está calor, e que não há memória do último ser vivo que se arriscou mergulhar no Rio Lis.
O nosso ideário continua vivo, não importa como esteja a rua em frente da nossa casa em cada manhã. E que se juntem os herdeiros de D. Dinis para reerguer a cidade que temos diante dos nossos olhos, tornando-a, como sempre, na mais bela cidade portuguesa.
Porque Leiria existe, e Leiria não caiu.