Portugal tem um potencial escondido por limitações estruturais. Como ultrapassar estas limitações é um desafio diário que várias gerações, por razões múltiplas, têm tido dificuldade em concretizar.

A educação teve um grande poder transformador em Portugal, mas ainda não terminou o seu caminho. É um investimento sem retorno imediato e, por isso, necessita de grande determinação e continuidade na estratégia. Imprimirmos ao processo educativo das novas gerações a maior qualidade possível, modernizando as metodologias, garantindo sempre equidade no acesso e reconhecimento do mérito é a maior garantia de construirmos um capital humano participativo e com um genuíno desejo de acrescentar valor à sociedade.

Simultaneamente temos que criar condições para que as gerações que venham a beneficiar desta mais valia educativa desejem viver em Portugal. E vivemos já este problema. Para o ultrapassar precisamos de conseguir imprimir uma visão holística para o começo de uma vida independente. Um ambiente otimista, uma esperança de futuro, uma perceção de que cada nova geração é muito bem-vinda na nossa sociedade. E pragmaticamente teremos que oferecer condições globais económicas satisfatórias, incluindo oportunidades de emprego desafiantes, compatíveis com as qualificações, e com um equilíbrio adequado de remuneração, impostos e acesso à habitação.

Mas isso não chega. Temos que demonstrar que o pais está ativamente a procurar desburocratizar, dar sinais de que as instituições acreditam no cidadão e de que o país é judicialmente rápido e implacável quando ocorrem infrações graves.

Teremos também de dar sinais claros que os bons passos dados na sustentabilidade energética são um caminho de futuro e que coletivamente estamos empenhados na transformação digital. As novas gerações têm que sentir que fomentamos ativamente todos os setores económicos e que o turismo é visto de forma equilibrada, valorizando a cultura, a qualidade e a diferenciação.

Para que estes vários setores funcionem, a imigração é um componente importante, que tem que ser organizada, dignificada e humanizada, própria de um país com uma fortíssima experiência de emigração e com uma visão histórica global capaz de se articular naturalmente com a comunidade lusófona, valorizar o capital de respeito global que usufrui e cultivar a sua matriz europeia.

Para além de todos estes aspetos de relevância imediata para as novas gerações há um setor que se liga intimamente ao processo educacional e à confiança no estado: a saúde.

O Serviço Nacional de Saúde (SNS) é uma grande realização nacional. Atravessa neste momento uma encruzilhada de sustentabilidade complexa com desafios múltiplos. Por um lado, a nível internacional, os custos globais da saúde aumentaram, pressionando todos os modelos de organização de cuidados de saúde. Por outro, os baixos salários do SNS abriram a porta ao recrutamento internacional de médicos e enfermeiros portugueses e sofreram a erosão da competição do crescente mercado de saúde privado português.

Esta encruzilhada está financeiramente espartilhada por um orçamento da saúde que, embora sempre crescente, está limitado por outras prioridades orçamentais emergentes (por exemplo, defesa) e por um teto condicionado pelo crescimento económico, admitindo-se claro que o copagamento por parte de cada cidadão, o aumento de impostos e o endividamento nacional atingiram o limite.

Esta situação gera uma ansiedade acrescida a vários níveis nas novas gerações. A má resposta de cuidados primários de saúde em algumas áreas geográficas, as incertezas na capacidade de resposta, com o exemplo mediático das urgências em geral, com um enfoque principal na ginecologia-obstetrícia e na pediatria, a insuficiência na cobertura de medicina dentária e nos cuidados de psicologia, e globalmente um receio de que o SNS possa não conseguir dar resposta efetiva a necessidades de saúde futura, conduz as novas gerações a um sentimento de necessidade de contratualização de seguros voluntários de saúde privados.

Esta realidade repercute-se também na capacidade de independência financeira dos jovens e constitui mais um fator de insegurança. Adicionalmente, numa perspetiva de incentivo de natalidade, a inconstância do SNS é mais uma ameaça que não é certamente ultrapassada por outras políticas de apoio à natalidade. As novas gerações deparam-se também com o envelhecimento populacional e a pressão nos cuidados de saúde daí resultante, gerando preocupação com as necessidades de saúde dos seus pais e/ou avós.

É por isso crucial que o país encontre uma solução para relançar o SNS, atraindo os recursos humanos para um ambiente positivo, que promova a diferenciação técnica e científica dos médicos e com uma relação estreita com o ensino pré e pós-graduado. Para isso é fundamental um funcionamento em rede do SNS, com nós de alta diferenciação técnica e científica, constituídos pelos hospitais de matriz universitária, associados a faculdades de medicina e a unidades de investigação. Estes centros podem oferecer cuidados complementares mais diferenciados e oportunidades de colaboração científica e de treino técnico ao restante SNS. Deverão constituir vetores de desenvolvimento do SNS e de motivação dos profissionais de saúde, preparando o país para o progresso da digitalização e da inteligência artificial na medicina e para o impacto de novas emergências em saúde pública, incluindo os efeitos das alterações climáticas.

Perspetivar o futuro de Portugal pelo ângulo de visão das novas gerações abre-nos um leque variado de preocupações, mas reforça a sensibilidade de que a educação e a saúde são dois pilares para a evolução harmónica, solidária e competitiva do nosso país, sedimentando um sentimento de bem-estar, crítico para o desenvolvimento sustentável.

João Eurico Cabral da Fonseca é médico, especialista em Reumatologia. Com uma pós-graduação em gestão de saúde, é diretor do Serviço de Reumatologia do Hospital de Santa Maria e professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, instituição de que é também diretor. É membro do Clube dos 52, uma iniciativa no âmbito do décimo aniversário do Observador, na qual desafiamos 52 personalidades da sociedade portuguesa a refletir sobre o futuro de Portugal e o país que podemos ambicionar na próxima década.