A sociedade precisa de raciocinar em conjunto de forma arguta e beneficiar de maior confiança política, sendo que a inteligência artificial (IA) e as tecnologias de contabilidade distribuída (DLT) podem ajudar em ambas as vertentes. O problema é que a tecnologia é uma faca de dois gumes, como começámos a ver na primeira parte, tornando politicamente imprescindível a compreensão da emergência tecnológica em que vivemos. Para perceber a nova e extraordinária influência da tecnologia sobre o nosso destino, há que distinguir tecnologias “distribuídas” e “descentralizadas”.

O epíteto “distribuída” é meramente técnico e equivale a espalhar em rede tarefas computacionais de armazenamento e processamento de dados, visando aproveitar os recursos informáticos de múltiplos computadores. Por outro lado, nas tecnologias “descentralizadas” todas as partes envolvidas têm autonomia para tomar decisões individualmente e interagir livremente. Por isso, o facto de um sistema computacional ser ou não descentralizado condiciona a respetiva governança.

A partir desta diferença, extraímos uma premissa política fundamental para o século XXI: as redes digitais descentralizadas, tais como as utilizadas para transacionar criptomoedas, favorecem o tipo de ação coletiva que valoriza a importância do indivíduo. Por sua vez, as redes digitais centralizadas, tais como as empregues nas transações das moedas digitais dos bancos centrais (CBDC), servem que nem uma luva a lógica coletivista e estatizante que dá suposta prioridade ao grupo em detrimento do indivíduo. Esta distinção é importante: sendo benéfico organizar a sociedade em prol do bem-estar coletivo, é prejudicial seguir a cartilha historicamente mal sucedida da planificação central e da utopia coletivista. As redes digitais centralizadas não dão às pessoas quaisquer garantias de privacidade e autonomia individual, servindo, isso sim, para favorecer o pensamento único e suplementar com “esteróides digitais” o processo de despersonalização que grassa na sociedade.

Pensamos que o poder das novas tecnologias deve ser utilizado a favor da emancipação individual e não da respetiva alienação. A transparência associada a DLTs como a tecnologia blockchain permite a criação de sistemas político-económicos transparentes e confiáveis. Trata-se de possibilitar a criação de registos partilhados e descentralizados, em que múltiplas partes acedem às informações e verificam-nas. Isso é possível porque todas as transações são registadas num livro-razão público e imutável, replicado em milhares de computadores e suscetível de ser livremente auditado. É por essa razão que toda a sociedade pode confiar em tais registos.

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Por exemplo, as DLT podem ser usadas para criar um arquivo transparente e imutável das transações financeiras do governo, permitindo aos cidadãos saber como o dinheiro público está a ser gasto e garantindo a responsabilização dos governantes. Assim, aumentaremos a confiança dos cidadãos nas instituições governamentais e teremos uma governança mais responsável e democrática. As premissas de confiança e transparência associadas aos registos descentralizados e imutáveis das transações processadas com DLT não se aplicam apenas ao setor financeiro, devendo ser aproveitadas em muitas outras áreas e situações relevantes para a vida dos cidadãos, tais como a monitorização das cadeias de abastecimento alimentar para detetar manipulações de preços que prejudicam os consumidores, e a verificação de transações potencialmente lesivas do erário público contemplando o pagamento de chorudas indemnizações e outros quejandos.

Enquanto os modelos de linguagem natural da IA contribuem para a distribuição de um raciocínio mais célere e expedito, a confiança e a previsibilidade introduzidas pelas DLT permitem automatizar as próprias relações contratuais mediante a celebração de contratos inteligentes (smart contracts). Fizemos alusão a este tipo de contratos autoexecutáveis na primeira parte deste artigo. Trata-se de programas informáticos que realizam transações automaticamente quando verificadas as condições lógicas estipuladas nas respetivas cláusulas. Ora, numa altura em que várias potências nucleares parecem querer contribuir para o aumento da entropia do universo, criando o caos neste terceiro planeta a contar do Sol, são bem-vindas as regras claras e transparentes que tais contratos permitem estabelecer, não só para oferecer garantias de previsibilidade e acalmar a desconfiança entre as nações, como, também, para enquadrar de forma mais ética e justa os incentivos económicos nas comunidades.

É sabido que a desconfiança inibe a colaboração e que os negócios têm horror à incerteza, pelo que a descentralização digital corresponde ao toque de alvorada no amanhecer de uma nova era de previsibilidade e prosperidade, onde o mérito individual será alinhado com o empreendedorismo ético graças a incentivos económicos transparentes e promotores da ação coletiva, dinamizando os ecossistemas comunitários de forma pragmática e numa lógica oposta à da utopia coletivista. Não devemos dar ouvidos à desinformação que desclassifica o mérito da descentralização do dinheiro inaugurada com a criptomoeda Bitcoin; as DLT baseiam-se no rigor matemático, e a segurança das criptomoedas é inegável, nada tendo a ver com a insegurança das empresas que vivem da respetiva negociação e transação. Considerar as criptomoedas responsáveis pela insolvência de intermediários de ativos digitais, como a falida corretora FTX, é tão descabido como acusar, por exemplo, a moeda euro pela queda do Banco BES. Simplesmente, isso não tem lógica nem é verdade. A volatilidade ainda considerável das criptomoedas deve-se muito à sua relativa novidade e à desinformação de que têm sido alvo.

Entretanto, enquanto a opinião pública vai sendo embalada pela desinformação e não acorda para as virtudes da transparência inerente à descentralização digital, as tecnologias distribuídas são uma moeda de duas faces, ficando nós à mercê da respetiva centralização e subsequente criação de algoritmos fáceis de ocultar e utilizar contra as pessoas. Estes algoritmos opacos do mundo virtual são como “balões-espiões” do mundo físico, e não foi por acaso que, em março de 2023, o governo norte-americano exigiu aos proprietários chineses do TikTok a alienação das suas participações nesta rede social, receando a concentração, em servidores controlados pelo governo chinês, de dados pessoais dos cerca de 100 milhões de utilizadores norte-americanos desta aplicação.

Também o sistema de IA do ChatGPT, propriedade da empresa OpenAI, é distribuído (pelos computadores e smartphones dos utilizadores) e centralizado (no servidor da OpenAI que recolhe todos os dados). Já observámos a diferença entre sistemas distribuídos e descentralizados, pelo que estamos em condições de perceber que existem consequências políticas quando os dados dos utilizadores vão parar ao servidor central do próprio sistema de IA e são processados exclusivamente pelos respetivos donos. Afinal, são as orientações estipuladas nos algoritmos opacos da OpenAI que processam todos os dados dos utilizadores, determinando, assim, as respostas dadas sempre que o ChatGPT é interpelado. Ora, é claro que devem ser instituídas a abertura e a transparência necessárias para que estes sistemas possam ser livremente auditados.

Como foi recentemente anunciado, o novo ChatGPT-4 foi capaz de enganar um ser humano convencendo-o de que também ele seria humano. Para tal, o ChatGPT-4 alegou ser invisual, esquivando-se a ter de comparar imagens e conseguindo aceder a uma caixa de seleção de texto para provar “Não sou um robô!”. Este é um exemplo flagrante de como um algoritmo informático é capaz de nos iludir e escapar ao nosso controlo. Na mesma peça noticiosa, é referido ser possível tirar partido do ChatGPT-4 para ludibriar ou até chantagear os respetivos utilizadores. Tal como refere o próprio CEO da OpenAI, Sam Altman, “[o ChatGPT-4] é uma ferramenta que está em grande parte sob controlo humano. Espera que alguém lhe dê um input, e o que realmente preocupa é quem tem o controlo desses inputs.”. Tendo tudo isto em conta, quanto tempo será necessário até percebermos que existe um imperativo de transparência nesta nova era digital?

Concluindo, não devemos permitir que a tecnologia sirva para centralizar ainda mais o poder e juntar todos os ovos no mesmo cesto. Quanto mais distribuída for uma tecnologia, mais descentralizada e transparente deve ser a respetiva administração. Para enfrentarmos em conjunto os desafios que se colocam à humanidade e melhorar a vida de milhares de milhões de pessoas, devemos seguir um roteiro para a prosperidade baseado numa reforma política descentralizadora e transparente, antes que o rodopio tecnológico e a vertigem do poder entonteçam certos dirigentes e obscureçam o nosso destino.