Todos os líderes partidários, sem exceção, têm pavor de médicos. Salvo Leonor Beleza e Maria de Belém, há 40 e 30 anos, todos os sucessivos governantes também. Sucessivos Primeiros Ministros que não permitem que os titulares da pasta da Saúde tomem as medidas que são precisas. É o caso deste Governo também! Não escrevo sobre nenhum segredo de Estado ou alguma revelação bombástica que ninguém saiba. Disse-o publicamente demasiadas vezes com propostas concretas para melhorar o acesso e a qualidade no Serviço Nacional de Saúde. Aliás, a sociedade em geral está bem ciente do que escrevo, políticos e jornalistas também.

A estratégia de atirar dinheiro para cima do Serviço Nacional de Saúde sem profundas reformas na sua organização trouxe-nos até aqui. Estamos todos reféns de uma classe profissional que prefere um SNS, tipo repartição pública, das 9h às 17h, durante a semana, quando não há pontes e dias festivos e pago principescamente. É só disto que se trata para muitos, demasiados até, receber muito e trabalhar menos horas. Trabalha-se nos mínimos, não há consultas externas aos fins de semana, não há marcação de exames aos fins de semana, exceto de urgência, nem altas, nem admissões (pouquíssimas quando há). E os outros profissionais de saúde? Esses trabalham por turnos de segunda a segunda. Têm fins de semana e dias festivos quando lhes calha folga nesses dias, pode não acontecer. A classe médica teve os maiores aumentos dos últimos anos, e bem! Falta o cumprimento de regras.

E no privado? No privado há tudo e a toda a hora. No privado cumpre-se ou não há lugar para quem quer as pontes, os feriados, as datas festivas e férias só nos meses de verão. É isto há anos e todos sabem. Manuel Delgado disse publicamente que era impossível fazer escalas médicas porque faziam o que queriam. Estávamos num debate de uma convenção internacional da Ordem dos Enfermeiros em 2019. Ele sabe, foi administrador hospitalar e Secretário de Estado da Saúde.

O pavor dos políticos traduz-se num “se impomos regras, fogem para o privado”. Não, meus amigos, só foge para o privado definitivamente quem cumpre e é muito bom. Fartos de aturar os que ficam no SNS a chegar tarde e a cumprir pouco. O Privado não tem lugar para todos, muito menos permite o que fazem no SNS. Hoje, é possível a um médico do quadro do SNS rescindir o seu contrato num dia e ser aceite como tarefeiro no dia seguinte no mesmo hospital. E assim temos 213 milhões de euros gastos só com tarefeiros em 2024. O valor e a organização das escalas é absolutamente insustentável. Não existem equipas, existem umas pessoas que vão lá quando querem e ninguém os pode obrigar. Arrastam o tema da exclusividade há décadas e continuamos a dividir recursos com o privado. Demasiadas vezes cumprem-se horários no privado à custa das escalas do SNS. E quase ninguém, com honrosas exceções, diz alto que o número de médicos por mil habitantes em Portugal é dos mais altos dos países da OCDE e está acima da média da OCDE.

Cada vez que abordo este assunto chovem insultos e ódios mesquinhos, fruto de um país cheio de hipocrisia que se habituou a viver nesta pequenez de debater sem ser frontal, assertivo e verdadeiro. Nunca, como hoje, foi tão preciso dizer a verdade. Os enfermeiros trabalham, nos serviços de urgência, por turnos de 7 ou 8 horas. O modelo de turnos de 24 horas para os médicos é absurdo, obsoleto e obviamente não é cumprido. Mas peguemos no exemplo das urgências obstétricas, que ultimamente encerram dia sim, dia sim.

A maioria das urgências que encerram têm a equipa de enfermeiros completa, com os especialistas em Saúde Materna e Obstétrica responsáveis por fazer cerca de 80 a 90% dos partos normais ou ditos de baixo risco. Sim, leram bem, estes partos são há anos feitos pelos enfermeiros especialistas e é assim no mundo inteiro.

As urgências obstétricas encerram com dois médicos lá dentro e a equipa completa de enfermeiros, assistentes operacionais e administrativos. Dizem vocês, não pode ser? Ai pode, é o tal pavor! É que enquanto no resto do mundo bastam estes dois médicos especialistas, aqui em casa, Deus nos livre de afrontar a Ordem dos Médicos que impõe três, mesmo que as normas internacionais digam o contrário. E que ficam lá a fazer? Nada, enquanto as urgências abertas rebentam pelas costuras. É o mesmo princípio dos bancos de urgência de 24h. Qualquer profissional de saúde sério vos confirma que em muitas urgências gerais dividem estas 24h para irem à noite a casa dormir.

Tenho plena consciência do que escrevo e a Sra. Ministra da Saúde também, não tenha ela sido presidente de um dos maiores Hospitais do País e com muitíssima experiência no sector! Não é ela que precisa de coragem, até lhe sobra, mas não é Primeira Ministra. Quem precisa somos nós porque até para dizer a verdade é preciso coragem.

Em 2002, Durão Barroso foi eleito a dizer que com ele não haveriam mais crianças em lista de espera cirúrgica. Outros se seguiram com a conversa do costume. Temo que talvez já seja tarde para inverter as burrices que se têm feito, não estou certa, mas o meu pavor é só esse.