Felizmente a campanha de rua e todos e quaisquer debates acabam amanhã. Felizmente. Os candidatos à Presidência da República deixaram que a campanha os apanhasse num jogo rasteiro de acusações e contra-acusações, ataques pessoais e tentativas sistemáticas para denegrir outros candidatos. O resultado foi um espetáculo paupérrimo, ruidoso e indigno do cargo a que se propõem. Vale a pena recordar outros tempos, não por nostalgia, mas por exigência. A campanha de 1986, por exemplo, pela elevação política que teve, pela ideologia expressa (Diogo Freitas do Amaral, Mário Soares, Salgado Zenha, Maria de Lurdes Pintassilgo), serve hoje sobretudo como contraste. Mas também como alerta. Alerta do que nunca mais teremos.
Em quarenta anos fomos capazes de degradar o debate político, empobrecer a linguagem, perder toda a profundidade intelectual e substituir a exposição de ideias pela insinuação permanente. Confundiu-se frontalidade com agressividade, proximidade com vulgaridade, opinião com barulho. O debate tornou-se chão, repetitivo, previsível, irrelevante, incapaz de mobilizar, inspirar ou esclarecer. Falou-se muito e nada se disse. E quando se disse algo, raramente se disse o que importava.
Em mais de cinquenta anos de democracia fomos também esvaziando o lugar de Presidente da República. Responsabilidade absoluta, nos últimos dez anos, para a chamada presidência dos afetos. Uma presidência que não nos trouxe diplomacia relevante, influência europeia, afirmação atlântica, memória histórica duradoura ou qualquer outra característica importante. Muita verborreia, muito mediatismo, muitas selfies, pouquíssima substância para, mais grave ainda, quem tem indiscutivelmente valor intelectual. Quando a vaidade substitui o discernimento, o resultado torna-se um mero nada. Só umbigo. Zero legado.
Como se isso não bastasse, o debate presidencial resvalou quase por completo para o plano executivo. Mas Portugal não é uma república presidencialista. O Presidente não governa, não executa, não substitui o Governo. Quando os candidatos insistem nesse terreno revelam ou ignorância institucional e prática ou oportunismo político. Em ambos os casos, é grave. O Presidente existe para conter, consensualizar, influenciar, representar e elevar. Não para prometer o que não se pode cumprir.
O mais impressionante, porém, é o vazio absoluto de ideias presidenciais. Nada ficámos a saber sobre o essencial: que estilo de Presidência defendem, que diplomacia querem exercer, que alianças estratégicas pretendem reforçar, que papel prospetivam para Portugal na Europa e no mundo, que comunidades e geografias priorizar, que portas abrir. O mundo não se faz apenas no nosso quintal. E essa evidência parece ter desaparecido por completo da campanha.
No desfecho, mais um dado revelador. Uma acusação de assédio, lançada por uma jurista contra um candidato, a cinco dias das eleições, sobre factos putativamente ocorridos há anos. Mesmo que tal fosse verdade, e isso compete exclusivamente à polícias e aos tribunais, uma jurista sabe que isto nunca pode acontecer assim. Não anos depois, não a cinco dias de fechar a campanha, não no espaço público, não como arma política. Isso não é justiça, não é ética, não é política. Não é nada.
O que temos visto são, assim, os frutos de um sistema que perdeu o sentido do limite, do tempo e da responsabilidade. Onde tudo vale. Onde quase nada honra a República. Se mal estávamos, pior ficámos. Acabem rápido com a campanha. Até porque temos de levar com dose dupla.