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Amo Fátima Bernardes

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Não me leves a mal. Nada disto tem que ver connosco, com o nosso encontro. O mundo é que nos perturbou. Eles queriam a lágrima fácil, o carinho take-away, pronto a engolir.

Quando percebi, Fátima – desculpa –, quando entendi o que se passava entre nós, as palmas suadas, o não conseguir descansar os olhos, a ânsia qual «rato cego metido num canto à espera de ser desancado» (J. Conrad), a antecipação do nosso encontro, o desfilar das horas e das inseguranças, o bom mal-estar; enfim, quando entendi, Fátima, já era tarde. Estava apanhado. Sabes, sou um tipo nervoso. Disseram-me que não me preocupasse: tratavas dos temas com muito carinho. Mas não descansei. Queria que a hora do nosso encontro passasse, desculpa confessar-to.

Convidaste-me para o teu «Encontro com Fátima Bernardes», programa da manhã da TV Globo, onde haveria um bate-papo sobre Trissomia 21. Aceitei. Aí no Brasil tens fama de lidares muito bem com os teus convidados. De esbanjares carinho e amor.

Dois dias antes do encontro, chegou um pedido da tua parte. Uma foto do meu irmão. Ora, as fotos estão todas na Internet, respondi. Não, não, uma foto do seu irmão. Veja lá no Google, que aparece a capa. O seu irmão usa capa? Que bacana. No Brasil diz-se «usa capa»? Diz, sim. Então ele usa capa. Que legal, que lindo que ele é. Você leu? Se li? Sim, leu? Eita, não encontro a foto com a capa, cadê? Está mesmo aí. Não encontro: qual é o nome do seu irmão? O título? Em Portugal se diz «título»? Sim, diz-se. Qual é o título do seu irmão? Bem, o título é esse. Esse?, que título bizarro. Muito comum em Portugal?

O mal-entendido teria continuado, Fátima, mas acabei por perceber o que querias. Uma foto do meu irmão que não é O Meu Irmão. Coisa difícil de explicar a quem tem o «carinho» e o «amor» como léxico. Disse-lhes que falaria com todo o gosto do livro e da síndrome de Down, mas não falaria do meu irmão. Juntei confusão à confusão. A culpa é minha.

Não me leves a mal. Nada disto tem que ver connosco, com o nosso encontro. O mundo é que nos perturbou. Eles queriam a lágrima fácil, o carinho take-away, pronto a engolir. O «ai que lindo, que bonito, que sensível» que provoca o choro na dose certa. A mágoa suave que faz sentir bem. A compaixão que se mastiga e cospe no mesmo movimento. E sim: queriam a vida em Oprah buffa.

De repente, lembrei-me de uma máquina bem oleada, louca mas sensível, em pleno funcionamento. As peças coordenam-se numa lógica inevitável, certeira. O fito da máquina é não ser vista, mostrar apenas o produto, como o tamboril e a sua cana de pesca fluorescente. Embora o produto seja belo como o sentimento, este não esconde a máquina. Ela existe na sua lógica e quer pescar-nos. Entra nas nossas casas todos os dias, aí como aqui. Tu, Fátima, és só a sua cara. Uma bela cara, não escondo.

O único entrave ao nosso encontro, portanto, era não conheceres a minha família. Podia falar-te de mim e do meu trabalho, talvez até falasse de mais (disse-te que sou nervoso). Teríamos a nossa intimidade sem entrarmos na dos outros. Aliás, não seria mais agradável só os dois?

Mas horas passaram e tu nada. Talvez fosses tímida. Já quase me arrependia, quer dizer, via boas intenções em ti. Afinal de contas, quem ama e acarinha quer tudo. Quer foto.

Insistiram. Ia desistir por ti, mas percebi que estes encontros são fugazes e que o amor e o carinho nem sempre duram. Lamentei muito, porém não te daria uma foto do meu irmão. Ficaste sentida comigo. Eu compreendo. Pouco depois, fizeste saber através da produção que retiravas o convite. Sem a foto, sem a isca do tamboril, não valia a pena.

Isto fica entre nós, porque tenho vergonha de o admitir: apesar de tudo, como foi bom ter sentido o teu carinho.

 

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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