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Nada faz das esquinas das ruas locais privilegiados para encontros, excepto as pessoas não se verem até ao último instante, ficando sem tempo para fugirem. E assim casal e amigo esbarram sem aviso, numa esquina da Baixa.

O casal quase deixa cair o embrulho que leva ao colo, mas apanha-o, afagando-o e suspirando, embora sorria perante o amigo que não vê há anos. A conversa desemboca num «Tanto tempo» desprendido, enquanto os carros apitam no semáforo. O casal estreita o embrulho com mais força, ainda com medo de o deixar cair.

O amigo repara no sorriso de mulher satisfeita escondido na meia-idade como flor em redoma. Até as mãos indicam um grande prazer, e íntimo, que força a saída pela expressão do corpo. Os dedos endireitam uma madeixa de forma decidida, a disfarçar o embaraço. Quanto ao marido, olha para o embrulho no colo da mulher, no colo de ambos, olha para o sorriso da mulher, e aproxima-se dela cintura a cintura. Claro que estão felizes.

O amigo percebe a felicidade de imediato, mas não quer dizer, indiscreto, que está na cara, que é óbvio; que, enfim, nunca os viu assim. Prefere encetar a conversa de circunstância: a verdade é que corremos atrás das próprias caudas, na senda do movimento, num estado de ansiedade que é estado de sítio metido para dentro, e afinal acabamos onde começámos. E isto não impede que nos separemos dos amigos por anos. Lembra a memória de como se conheceram, de como a vida roda. Dá-se por ela, sentimos ternura por nos revermos, ainda que por acaso.

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Depois paramos para pensar, perguntamos o que é que mudou, certos de que afinal qualquer coisa terá mudado: o casal aconchega nos braços uma novidade. «Lindo», refere o amigo, destapando a echarpe, «mesmo lindo».

E de facto é isso, lindo e indefeso. Abre os olhos, fita quando olhado, e fecha-os como para se esconder. As orelhas delineadas acompanham um meio sorriso, ou assim parece. O buzinar de um carro próximo assusta-o. Encolhe-se.

«A nova aquisição da família», diz o casal. O amigo pergunta em fífia se é menino ou menina e que idade tem. «Um menino de dois meses, vê lá tu», respondem. «Até temos medo de andar com ele na rua. Curioso quão parecidos connosco ficam. Só a osmose dos afectos explica isto, parecermo-nos tanto com eles, ou vice-versa.»

O amigo pergunta se dá muito trabalho. «Acorda-nos à noite e temos de lhe dar de comer a toda a hora, sabes como é, o normal para a idade, mas de resto aguentamos bem», esclarecem, aconchegando-se um ao outro. Os turistas, que circulam frenéticos nos últimos calores de Agosto, dão encontrões indiscriminadamente. Amigo e casal resguardam-se na entrada de uma papelaria.

«Tu e a tua mulher não pensam em ter um, como nós?», pergunta o homem. Ocorre ao amigo que o casal parece ternamente de ferro, como a estátua do Príncipe Feliz, que ofereceu aos aldeões o ouro e a prata que a banhavam. O casal dá por fim a sua prata e o seu ouro, tudo o que tem, e assim fica mais forte – e mais feliz. O amigo percebe que quer isso para si, e mente ao dizer «Já pensámos».

O amigo ouve sem pressas, e mesmo com alegria, as minudências do «nosso amorzinho», como lhe chamam. As horas a que se levanta, em que ocasiões chora, de que brinquedo mais gosta, o que precisa para ser confortado, as feições e os solavancos quando sonha; até a consistência das fezes, que têm fluído aguadas. Quer acrescentar qualquer coisa, algo que demonstre que está realmente contente pelo casal que agora reencontra. Contudo, a mulher e o homem não o deixam intrometer-se no entusiasmo, e excedem-se e gesticulam.

Mas encontros de esquina passam rápido. Num salto, perturbado pela conversa, o embrulho desfaz-se e cai, com sobressalto do casal e do amigo. Por momentos perdem-no no passeio, entre as pernas dos turistas, só que a trela já foi posta e o cachorro, liberto do embrulho, não vai longe. Observam-no a urinar a medo no semáforo. O amigo despede-se enquanto o casal ergue o cachorro, que ficou com as patas encharcadas.