Acaba de passar um helicóptero aqui, no meio do nada. Com certeza beberá água para lançá-la num fogo para lá das montanhas, quem sabe já num incêndio.

O piloto governava sozinho o helicóptero. Nem o vi, só reparei na máquina, mas o movimento que descrevia, único por ser guiado por mão única, conferia personalidade à máquina e ao voar. Aquele helicóptero voava daquela maneira. Como diria Saint-Exupéry, mais ou menos assim, o piloto é a alma do voo. E aqui há um intuito nobre, apagar a chama e salvar quem está em perigo. O piloto serve-se do helicóptero como os homens se servem de talheres, para matar uma ansiedade.

E é no fundo para isso que se escreve: matar uma ansiedade. Quem me dera ser o piloto, e a escrita a máquina que guio. E quem me dera que o movimento que a escrita descreve seja único (único por ser apenas meu), pilotado por uma mão, por uma vontade. Neste momento, isto parece-me tão difícil como apagar um incêndio, como salvar quem periga.

É que, para escrever como quem voa para apagar o fogo, seria preciso encontrar-me tão só como o piloto que passou. Menos do que ele, porque dá atenção ao rádio, que lhe aponta as convergências do rio onde é mais seguro beber. Continua em comunidade, e a querer ampará-la. Sim, mais só do que ele e fitado num objectivo igualmente válido, diria até nobre.

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Mas os últimos tempos tiraram-me este tipo de solidão.

Quando escrevia só, voava direito ao objectivo e tinha a certeza, ou a ilusão, de que a mão que guiava o voo era única, minha. Agora temo voar rente por me saber observado, tolhido por essa trepadeira chamada orgulho, que constringe o ar e a elevação. Penso na figura do leitor, em quem observa, e isso paralisa, nem que seja por um instante, o mesmo instante repetido quando tento atacar uma frase.

Mas seria ridículo o piloto não voar, não atacar o fogo, por causa dos mirones. Ele só vê a paisagem. É demasiado senhor do cockpit para reparar que o seu trabalho é seguido e que talvez, sabe-se lá porquê, haja alguma urgência. Para ele, o leitor esbateu-se ou nunca existiu. Quando pousar, já feito o que urgia, poderá falar do assunto, ficar espantado e agradado por terem observado a lide. Até agradecido. Mais nada.

Simplesmente, antes, tem de se ocupar de outras coisas: onde buscar a água, qual o melhor percurso, ir e regressar, qual a frente que deve combater primeiro, a que altura sobrevoar a encosta que arde; enfim, tem de se haver consigo próprio, mais do que com os outros. Ainda assim, pilotar é difícil, quanto mais com olhos desconhecidos no cockpit.

O barulho dos rotores repete-se para lá das montanhas e não tarda o helicóptero volta com o serviço feito. Soa rápido e urgente.

Quanto à escrita, que ecoa mais distante, muito para lá das montanhas, a verdade é que não há urgência, não há incêndio, não há salvação.