Não foi como dar um passo em falso, mas o mar e eu dançámos. O tempo de praia lembrou-me o tempo de mar e, apesar de isto parecer confessional, aqui vai, na volta da maré.

Deitei-me na areia à espera de que o Sol desse cabo de mim – me engolisse. Fizera 12 anos e o meu corpo raquítico, dos que se perdem entre os ossos quando respiramos, exigia a mão do Sol para se aquecer. À volta, onde as dunas permitiam, ouvia o ir e vir de jogar futebol. A turma em peso marcava e sofria golos. Os professores dividiam-se entre vigiar o mar e aplaudir os alunos.

Quente, decidi ir à água. Alguns amigos já nadavam. «Buchas e esticas, mergulhos e amonas, cás e lás», gritavam eles entre golfadas que os mantinham à tona. A areia deixava a rebentação chegar longe, num estender que escondia os pés. Quanto a mim, não queria brincar porque sabia que não se brinca com o mar.

Mantinha a água pela cintura, como planeara, não prestando atenção às ondas cada vez maiores. A rebentação em Aveiro promete sempre mais e, por muito que as ondas venham calmas, podem surgir enfurecidas. Agem com eloquência, como se conversassem umas com as outras, excitando-se no mexerico.

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Até então, não entendia o mar enquanto personagem, como coisa viva. A ciência descobrira tudo, sobrepusera-se ao mistério. Tomara o lugar dos adamastores. Todavia, ao velho de Hemingway, o mar só deu para depois tirar. Segundo Melville, somos inexplicavelmente atraídos a ele pelo menos uma vez na vida. Como em Solaris, o oceano tem vontade, quer conhecer-nos. E assim, quando nos debatemos com ele, não o fazemos com a água, a corrente, a areia, o vento e a rebentação. Debatemo-nos com uma ideia. É pois muito difícil contrariá-lo.

Nesse dia, perdi o pé na dança com o mar. Quando tentava continuar pela cintura, o fundo tornou-se mais fundo, as ondas mais intensas. Ainda que combatesse a corrente, esta queria levar-me ao colo para longe da costa. De início não dei importância, tratava-se de um banho mais longo; porém, o banho não acabava e, aos poucos, o corpo de rapaz ressentia-se do frio, que o reduzia a água. Começara nos dedos dos pés e das mãos e galopara pelos membros.

Eu sabia que era injusto o mar proceder daquele modo. Queria de mim o que não me pertencia: uma vida cheia que desse de comer à corrente. Tratava-se de um equívoco. Não podia dar-lhe nada, só uma vida curta e vazia, sem proveito. A cada movimento tentava negar essa dádiva, mas o mar deixara qualquer gentileza de parte: decidira ficar comigo e não parecia importar-se com o próprio engano.

Quando metade do meu corpo se fez em água e em frio, vi duas cabeças que se aproximavam. Pertenciam a dois amigos da minha turma. A dezenas de metros da costa, naquele lugar estranho para encontros, como foi bom vê-los, perceber que gracejavam e que, embora sentissem a mesma aflição, a conversa os distraía. Passámos a formar um todo que contrariava as ondas, ainda que a corrente insistisse em levar-nos para o alto-mar. Para o isolamento.

Na tira da praia, lá onde não chegávamos, a turma corria de trás para a frente ao perceber que não conseguíamos voltar. Uma ambulância estacionara nas dunas. Atrás de nós, um barco de pescadores temia resgatar-nos, não sei porquê. Recolhia as redes. Nadávamos a meio caminho entre duas ajudas.

Mas nadávamos acompanhados, e isso acalmava o frio, que agora comprimia o peito. Sempre que pensava, num rasgo de insensatez, «Descansa, liberta-te», a voz de um dos amigos, com certeza tão aflito quanto eu, puxava-me para a superfície.

As nossas gargalhadas tornaram o mar fraternal, apesar de a situação ser mais grave a três: antes se perdesse apenas um. Nós não percebíamos nada disso, estávamos simplesmente contentes por nos termos encontrado, ainda que a irritação do sal invadisse as narinas, a garganta e os pulmões. Negávamos o isolamento com a nossa proximidade.

Nisto, entre o remoer das ondas, do motor do barco e da sirene, levantou-se uma voz de homem que cantava «O Boca Doce é bom é bom é». E prosseguia, em jeito de desgarrada, «Diz o avô e diz o bebé». Ficava mais nítida a cada passagem de onda, mas só percebi a quem pertencia mesmo em cima de nós. Era o professor que costumava ler Sebastião da Gama.

Agarrámo-nos a ele, seguindo as suas lições. Não resistir às ondas. Acalmar até que a corrente mudasse, e entretanto conversar e cantar. Fizemos publicidade ao pudim Boca Doce onde ninguém nos conseguia ouvir. Aquele gigante de homem era agora tão pequeno quanto nós, comparado com o mar, e como nós sentia a garganta constrangida pelo sal e pelo medo.

Passara uma hora desde que entráramos na água. Talvez um pouco menos. Sentia apenas a cabeça, em particular o sangue a latejar nas bochechas, e sabia que o resto do corpo já não me pertencia. A língua entravava-se com o gosto metálico do esforço, que era bom, porque vinha no fim. A conclusão, e depois nada. Dádiva feita, vamos para casa. Eles, eu, ou nós. Em camas separadas ou conjuntas, depois de lavar os dentes e de marcar um golo nas dunas. Nunca marcara um golo. As ideias surgiam dispersas, sem sentido, porque uma única ideia, a do mar, se impusera.

E de repente, sem motivo, estávamos reconciliados. Déramos mostras de qualquer coisa, talvez de amizade, e fôramos perdoados. Em poucos minutos, o mar entregou-nos à areia.