António José Seguro não é um mau presidente nem sequer um presidente médio. Também não é bom, nem sofrível, na realidade não apresenta espessura suficiente para ser avaliado. O seu nível pode ser definido nos termos por si estabelecidos: é o sítio onde está, que é um nível muito razoavelzinho desde que não desça. Quando revelou esse seu programa de esforço moral referia-se à discussão política, mas todo o seu passado se pautou por esse permanente esforço de estabilidade e calma. António José Seguro não eliminou dos seus vícios apenas a pressa, conseguiu que dele se tenha ausentado o vagar – o vagar com que, apesar de tudo, ainda se vai fazendo qualquer coisa.
AJS tem o perfil de um presidente e poderia ser presidente de qualquer coisa. O facto de se ter resignado a ser presidente da república é um privilégio da sua bonomia. Calhou ser assim mas, mal compreendida, essa sua queda no poder alimenta a suspeita pública de que era a menos exigente de todas as presidências a que podia aspirar – se um dia abandonasse pelo seu próprio pé o nível em que se colocou para aspirar a ser presidente. Realmente, AJS estava então parado quando Pedro Nuno Santos, o precipitado príncipe do PS, o precipitou na pressa de disputar da presidência da república. Tomou isso a sério o bom AJS, nem sequer notou a jocosa aliteração atribuível a PNS. Os vários apelos dos seus camaradas socialistas para que reparasse na sua falta de requisitos mínimos e na melhor veia presidencial de muitos dos seus colegas, também não o demoveram. É certo que tanto custa andar para trás como andar para a frente e AJS recusou a vertigem furiosa de sair do sítio.
António José Seguro tem qualidades. As suas qualidades não as reclama como tal para que não se sinta a pecar por soberba. Deixa que todos as vejam, sem pressa, as contemplem com a resignação de quem se habitua ao crepúsculo – parece dia e já não é.
AJS é um homem educado, a educação é a mais crepuscular das suas qualidades. Considera o litígio, ou uma pequena discussão, uma forma desnecessariamente apressada de chegar a uma conclusão. Se tivesse estado na sua mão nunca se teria ultrapassado a tecnologia do paciente café de saco e apenas a fruta caída no chão, pela qual esperaria sentado numa pedra, seria considerada aceitável. Não se furtou à guerra com António Costa por medo, por ter que se levantar da cama ou para não ter que chegar tarde a casa. Fê-lo para não criar mau ambiente e porque já então se dispusera a não baixar de nível – o que previa, e muito bem, que aconteceria se tivesse que disputar com o seu aguerrido camarada nem que fosse um lugar de estacionamento no Largo do Rato. Renunciou aos seus cargos de Conselheiro de Estado e de deputado da Assembleia da República, afastou-se como um peregrino que regressa à sua errância depois de ter visitado Roma e os locais avistados pelo papa.
A sua passagem pelos governos de António Guterres evidenciaram outras qualidades do seu carácter, a prestabilidade e a eficácia silenciosa. Depois de ter sido Secretário adjunto de Guterres foi por este chamado a renunciar ao Parlamento Europeu para ser Ministro, outra vez Adjunto do mesmo Primeiro Ministro. Não é uma curiosidade histórica ter adjuvado de maneira privilegiada e repetidamente o Primeiro Ministro que deixou Portugal num pântano, é um sinal da sua competência para avançar na imobilidade e progredir na procrastinação.
Os anos seguintes permitiram a António José Seguro mostrar que não era apenas educado, prestável e calmo. Acompanhou José Sócrates nos seus anos de secretário geral do PS e Primeiro-Ministro de Portugal e viria a suceder-lhe como secretário-geral. Nunca identificou em Sócrates condutas menos estimáveis nem se deixou levar com o que dessas condutas era dito. Jurou solidariedade ao seu camarada até ao fim desse convívio próximo e nunca até hoje acrescentou mais nada ao seu silêncio. Isso é virtuoso e cabe aos portugueses perceber porquê. Pode ser a virtude que pertence aos 3 macacos sábios do budismo Tendai (que não vêem, não ouvem e não falam), pode ser lealdade (o que era muito de louvar, na altura e ainda mais hoje em dia, depois de ter levado com a argúcia de António Costa num sítio inominável), ou pode ser elegância (a que preserva vícios privados e públicas virtudes como um traço de família). Seja uma delas ou as três ao mesmo tempo, serão certamente as mais estimadas por todas as instituições tuteladas pela Presidência.
António José Seguro é baço e flexível, tem olhos inclinados e carentes, maneja coreograficamente uma expressão triste de político batido. As senhoras compreenderam isso, acham-no fofinho, perceberam que AJS será capaz de esmorecer toda a luz que o tocar, que sempre à sua volta se cultivará uma obscuridade hipnótica na qual a nação dormirá tranquila. A sua presidência não é apenas justa politicamente é também merecida e salutar como a sesta.
António José Seguro é o presidente melhor que Portugal podia ter. Não suscita temor e é mínimo o risco de prejudicar o progresso nacional com qualquer decisão ou acto da sua parte. Não é coincidência que o feito mais notório do seu passado político tenha sido não fazer nada – a sua abstenção na votação do orçamento de Passos Coelho continua a ser referida como sábia e providencial. O seu sucessor, António Costa nunca lhe perdoou essa boa acção e, nunca a tendo assumido como um pretexto retaliatório, deu início a uma cavalgada sobre o poder que transformou o país no que ele hoje – com António Costa já longe e o bom do António José Seguro como presidente da república.
António José Seguro não é temível nem fará mal a ninguém – a não ser que o empurrem, ou lhe peçam. E para não ser desagradável. Todos os receios e nojos se encontram entre os seus votantes, uma parte menor mas capaz de tudo – até de votar em António José Seguro.
Não são de recear os tradicionais votantes do partido socialista. São uma reserva assustada de reformados e beneficiários da segurança social. Entre eles encontram-se vestígios de militantes que ainda conheceram Mário Soares e nutrem por ele admirações incondicionais. Já não são muitos, são a memória a desaparecer do partido da mãozinha, perdoam a Soares a descolonização porque ele se opôs à barbárie do comunismo, fazem por esquecer o que Soares quis ver esquecido. São ternos e bem intencionados, são a água e o sol que desde há 50 anos têm nutrido a vidinha dos que não são uma coisa nem outra. Desde sempre votaram socialista porque seria impensável votarem outra coisa. Para eles o PS é o partido e os que querem roubar o poder ao PS não podem ser pessoas normais – os que são contra o PS são os protestantes da política, não conhecem a verdade e estão sempre assanhados contra o partido da religião.
São igualmente inofensivos os pensadores sumários, de boa índole e leitores das letras grandes dos jornais. Têm a experiência regular de se arrependerem das suas escolhas e encaram cada eleição como se fosse uma raspadinha: se sair alguma coisa é só ganho, se não sair nada também não perderam muito. Mudam o seu voto com frequência, tendem a rejeitar algo e não a preferir alguém em especial. Não têm convicções de princípio, ajuízam do que é melhor naquela ocasião para si, para a sua família e para todos os seus amigos. E gostam de almoçar fora no dia das eleições.
Mas são preocupantes outros apoiantes de António José Seguro.
Os que acreditam nele depois de o terem negado três vezes são os mais imprevisíveis, na melhor das hipóteses. Ou, numa perspectiva previsível, aqueles que mais depressa o desampararão no seu Monte das Oliveiras. São seus camaradas desde há muitos anos, promoveram-no sempre que lhes deu jeito, com o mesmo cálculo com que se elege um chefe de turma entre os piores da turma. E, com o mesmo cálculo, puseram o homem com dono sempre que já não era preciso fazer figura de corpo presente. Contorcem-se agora para apoiar Seguro, consequentemente, porque a sua vida pública tem sido feita de contorcionismos e ajustamentos. Divulgam opiniões como se fossem nascidas de uma qualquer inteligência sobre os factos mas não têm qualquer grandeza, apenas a sua convicção sobre a menoridade do povo os mantém convencidos de que são maiores e melhores. Ninguém sabe o que pensarão amanhã, ou o que farão, de que sarjeta íntima vão retirar a sua próxima convicção.
Apoiam António José Seguro pessoas excepcionalmente inteligentes. Não deixam escapar outra explicação para esse apoio senão a sua lucidez excepcional, pretendem que outras razões são desnecessárias ou inconfessáveis. Desejariam não apoiar AJS, por quem não têm respeito e ao qual dedicam a simpatia solidária que se dá a um senhor hesitante que se propõe atravessar a rua, mas não querem ser confundidos com atrasados mentais que pensam de outra maneira. Não representam um perigo de maior, vivem à margem das decisões políticas porque temem cometer erros, consomem-se no exercício da clarividência e não cometem asneiras porque tendem a não cometer coisa nenhuma.
Apoiam António José Seguro figuras públicas de quem todos esperam uma opinião, porque os tempos são confusos e tais figuras são líderes de opinião – por causa das coxas, dos óculos ou das fatiotas. Seriam inofensivas se não invadissem a política com a sua vacuidade, depois de o terem feito noutros domínios, e se tal não significasse o alargamento da sua influência sobre processos mentais que, em extensas fatias da gente, substitui a inteligência.
Apoiam António José Seguro cantores, artistas vários e intelectuais seleccionados. Sofrem de um pavor constante de serem confundidos com os ocupantes de c) e de não parecerem suficientemente inteligentes. Como a maioria deles é capaz de ler com alguma fluência, assinam cartas abertas – na maior parte dos casos nem precisam de ler, basta um amigo chegado dizer-lhes que aquilo é para a boa acção do costume – e querem que se entenda que só se envolvem politicamente porque a hora é dramática e só por isso, por uma urgência que os convoca, se vêm obrigados a descer ao nível do povo comum.
Apoiam o Presidente António José Seguro consideráveis colecções de gente boa. Têm medo de várias coisas – do aquecimento global, do Covid, de tomarem banho durante a digestão, de yogurtes fora de prazo, das gorduras, de fantasmas, de ameixas quentes, do fascismo, de se esquecerem do fogão ligado, dos ares condicionados, do Alzheimer… Têm principalmente medo dos seus próprios pensamentos. Estão atentos a todos os sinais à sua volta e escolhem sempre o que lhes parece mais seguro.
António José Seguro é presidente pela graça de Deus. E porque foi cooptado pelos seus admiradores de conjuntura como o menos mau, escolhido pelas elites porque não havia outro melhor, pelos seus adversários por ser o mais inofensivo, pelo povo em geral porque se diz que é bom para todos. E, final e decisivamente, porque perante tanta recomendação e tributos como aqueles, António José Seguro não se desconforta e aceita ser presidente.