O acordo foi assinado na semana passada: a Ordem dos Arquitetos irá colaborar com a ANA — Aeroportos de Portugal na seleção das equipas de arquitetura do novo aeroporto de Lisboa, entre outros projetos. Este acordo, discreto nas notícias e assinado pouco antes do concorrido mês de agosto, pode ser a chave para um aeroporto que vamos querer recordar por boas razões.
Qual é o ponto de partida? Ao longo das décadas em que se debateu a localização do novo aeroporto, Lisboa enfrentou a concorrência de outros aeroportos ibéricos, que funcionam como hubs regionais. Madrid Barajas e Barcelona El Prat viram a arquitetura reconhecida, não só em prémios, mas também nos indicadores de satisfação dos passageiros.
Em causa está a relevância e a integração em redes de transportes globais, da região de Lisboa e do país inteiro. Descurar a qualidade da arquitetura ou ceder à tentação de guiar as escolhas apenas pelo custo de construção mais baixo, pode armadilhar o projeto. O risco é muito maior do que o uso de materiais menos duradouros. Conceber espaços rígidos, sem contemplar a evolução da procura dos passageiros ou a sua capacidade de resistir e adaptar-se a décadas de alterações climáticas e novos padrões de mobilidade, esconde custos avultados no futuro, em qualquer cenário.
Mesmo quando as redes de infraestruturas funcionam no momento da inauguração, a resiliência é posta à prova ao longo do tempo de utilização. A estabilidade operacional é fundamental num aeroporto, seja nos espaços utilizados pelas aeronaves, mais expostos aos fenómenos meteorológicos, seja nos restantes sistemas e redes de ligação, da gestão de bagagem ao controlo aduaneiro.
Um dos aspectos mais determinantes da concepção, construção e gestão operacional do aeroporto é a integração de redes e sistemas diferentes, centrada na experiência de utilização do passageiro, entre a estação de transporte intermodal e as portas de embarque do avião. As transições devem ser suaves, fiáveis e previsíveis, mesmo assim capazes de criar uma memória marcante de Lisboa.
Essa memória está longe de ser improvisada: constrói-se com luz natural, iluminação e sinalética clara, materiais e texturas pensados para espaços de permanência ou de circulação. Ao longo do percurso, vivido por quem chega, parte ou faz escala, a riqueza sensorial e a criação de boas memórias depende da arquitetura. Os bons exemplos sucedem-se nos vários continentes, da cor da estrutura que, em Madrid Barajas, orienta o passageiro em relação à sua porta de embarque, à filtragem de luz natural com elementos em bambu, como se um pavilhão de um jardim se tratasse, no aeroporto indiano de Bengaluru.
Para fazer o passageiro a escolher Lisboa para a escala entre voos, arquitetura não é despesismo. Pelo contrário, assegura a eficiência do investimento, sem obras avulsas ou rotundas redundantes. Garante que a experiência do passageiro e a sustentabilidade operacional das infraestruturas orientam as escolhas de projeto.
Se a parceria entre a Ordem dos Arquitetos e a ANA der frutos, não é só o aeroporto de Lisboa a ganhar forma, é a maneira de pensar os grandes projetos nacionais que muda, com a qualidade arquitetónica a ser finalmente contemplada na contratação pública. Que as urgências deste momento, da demografia à habitação, nos façam construir melhor, não apenas mais. Deixaremos muito mais às próximas gerações.