Corria o ano de 1967. As águas furiosas da ribeira de Loures galgaram as margens e arrastaram vidas e casas inteiras, deixando um rasto de destruição que o Estado Novo deixou por quantificar. Numa entrevista, Gonçalo Ribeiro Telles deixou a nu alguns dos maiores problemas que assolavam o território português: além dos bairros-modelo, de Alvalade ao Restelo, com a calçada resplandecente e equipamentos para as unidades de vizinhança, havia um território esquecido, senão mesmo desconhecido pelos planeadores.

O nosso presente deu-lhe razão. Houve uma transição para a democracia feita aos solavancos de um país que se transformou como nunca antes. Houve excessos na construção, é certo: aldeias e vilas descaracterizadas, construção em altura sem transportes públicos. Mas o que teria sido o crescimento das cidades sem a Reserva Agrícola, ou mesmo sem a Reserva Ecológica Nacional? Quantos prédios teriam nascido em leitos de cheia, nas várzeas e nas lezírias apetecíveis que há em todo o país? E quantas casas, quantas vidas estariam em perigo, dependentes da boa vontade das águas?

O pensamento de Gonçalo Ribeiro Telles teve eco e fez escola. Mas em 2010, depois de 47 vidas terem sido arrastadas pela fúria das águas e das encostas da ilha da Madeira, então sem Reserva Agrícola e a Reserva Ecológica Nacional, percebeu-se como o ordenamento do território é muito mais do que o embelezamento de um país: é a segurança das nossas vidas, dos nossos empregos e das nossas casas. E enquanto salva vidas, credibiliza o tecido económico e social e aumenta a confiança nas instituições, fundamental no desenvolvimento de um país.

Se o passado e o presente lhe dão razão, o futuro dar-lhe-á ainda mais razão. Pelo menos a avaliar pelos modelos climáticos, que prevêm um aumento explosivo de fenómenos climáticos extremos. É certo que os modelos climáticos nem sempre têm razão, porque muitas projeções para o derretimento das calotes polares têm sido ultrapassadas. Provavelmente, teremos ainda mais fenómenos de seca, chuvas torrenciais e uma subida ainda maior do nível dos oceanos, num futuro ainda mais próximo.

É por isso que se coloca a questão: quantas vidas mais irá salvar Gonçalo Ribeiro Telles, se soubermos aplicar a sua visão de território? Porque no final do século XXI, as árvores poderão ser outras, mas a morfologia do território pouco irá mudar: os rios torrenciais irão correr sempre no fundo dos vales, que Gonçalo Ribeiro Telles ajudou a manter livres de construção.

É certo que o ambiente está, cada vez mais, na ordem do dia. Ao nível da União Europeia, as políticas ambientais assumem já uma posição de charneira, na definição da identidade coletiva, como se depreende no novo European Green Deal. Mas uma frente de adaptação não substitui o legado de Gonçalo Ribeiro Telles. Porque, por mais metas que tenhamos, de neutralidade carbónica, de economia circular, ou até mesmo de qualidade de vida, não podemos perder a ligação à terra, isto é, às coisas tangíveis.

A consciência ambiental também está a alastrar, entre greves climáticas, novas opções alimentares e Dias Sem Carros. Há uma nova consciência, sobre a dependência do território que nos rodeia, para a nossa sobrevivência. Mas, por favor, não transformemos a defesa do ambiente em números.

Os números são importantes, é claro, e fazem a diferença, quando se trata de melhorar processos e aumentar a eficiência. Mas complementam, não subsituem a nossa ligação ao sensível, ao humano. Os números e os indicadores são importantes para tormarmos decisões informadas, baseadas na ciência. Mas as formas da paisagem são as formas que nos rodeiam, nos parques e nos jardins, mas também na estrutura ecológica, esse suporte básico de vida das nossas cidades. Saibamos também pensar com as formas das coisas e fazer paisagem. Afinal, também somos paisagem.