Comemora-se com entusiasmo quem fez coisas começar e quem faz coisas acabar. A ideia de comemoração está ligada a fundadores, abolidores, libertadores e noivos. Não se comemora decerto tudo o que começa e tudo o que acaba, mas apenas as coisas que começam ou acabam mais raramente. Parece mais difícil fazer uma coisa que se faz raramente do que fazer uma coisa que qualquer pessoa faz, ou que pelo menos que certas pessoas fazem frequentemente. Um libertador esporádico suscita admiração; um libertador endémico é como um número cómico, ou como um tique nervoso.
Quem começa e quem acaba com coisas pode fazê-lo de propósito, por acaso ou sem querer. Aqui também as comemorações mais calorosas se fazem a respeito de quem começou ou acabou coisas de propósito. Se uma prática detestável tivesse sido abolida por uma assinatura de alguém convencido de que estava a dedicar um livro de versos o seu fim seria menos celebrado; e se um regime político amável pudesse ser instituído carregando num botão, uma pessoa que ao se desequilibrar carregasse por acaso nesse botão não seria celebrada, ou seria apenas celebrada como instrumento do destino.
De facto, as nossas energias comemorativas dirigem-se sobretudo a acções deliberadas; e essas acções, podendo demorar algum tempo, têm todas princípio, meio e fim. Tal como só se comemoram fins raros a que se chegou de propósito, assim só se comemoram acções chegadas ao fim. Reservamos os nossos elogios para um bolo de chocolate que saiu do forno; ao entrar no forno fazemos quando muito barulhos benevolentes acerca do que de lá irá sair: mas não é ainda motivo para entusiasmos maiores; entusiasmamo-nos mais com resultados de acções decisivas.
Ao nosso modo comemorativo aborrece por isso a ideia de duração. A invenção de um bolo ou de um remédio parece-nos mais rara e mais milagrosa que a reprodução de uma receita ou a produção em série e a venda maciça de um composto químico; e talvez também por isso identificamos mais facilmente os inventores que os divulgadores, os beneficentes que os beneficiados; reconhecemos os momentos decisivos, mas achamos que o tempo que decorre entre esses momentos não é muito interessante.
E no entanto a maior parte das vidas neste mundo passam-se sem fundações, abolições, libertações e festas de casamento. O que fica depois de alguém fazer uma coisa difícil e rara é a persistência das actividades de quem não teve nada a ver com isso mas as realiza por causa disso, e que sem estar sempre a pensar nisso vai fazendo durar a nova dispensação. A maior parte de nós nunca fez nada de memorável ou que seja comemorado por estranhos; mas faz durar este mundo com as suas acções e os seus hábitos de pequena escala. Cada uma dessas acções e desses hábitos é uma comemoração surda daquilo que acaba por nos importar mais.