Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Este é o som do You Vent Soreia esta manhã também sobre as eleições intercalares nos Estados Unidos, que estamos a acompanhar numa emissão especial desde as 10 da noite, mas não é tema único. E além da rádio, já sabe que também nos pode seguir com imagem nas nossas redes sociais ou pelo site do Observador. Carla, hoje, além da Filomena Martins e do José Manuel Fernandes, está também conosco e desde as 06h o historiador Bruno Cardoso Reis.

Um resistente. Não é tema único as eleições, naturalmente. Vamos também olhar para a comunicação do primeiro-ministro ao país ontem à noite. Mas vamos começar, Bruno Cardoso Reis, vamos começar por ti, olhando para as intercalares norte-americanas. Se olharmos para os luso-americanos que concorreram, há vencedores e vencidos, não é?

Sim, o vencedor é o Jim Costa, que é um congressista da Califórnia, que é por sinal vizinho, é o 21º distrito da Califórnia, é vizinho do David Valadão, que está no 22º e é dos poucos congressistas republicanos da Califórnia, aparentemente de acordo com a apuração, que ainda está aí por metade dos votos, mas as diferenças já são muito grandes. Realmente, ele desta vez não vai conseguir reeleger-se. Estamos com uma diferença de quase 30 pontos. Jim Costa, sim, é um democrata, mas não David Valadão, que era o último congressista republicano da Câmara dos Representantes, que tinha votado a favor do impeachment de Donald Trump. Acho que merece essa menção honrosa, mas realmente isso não foi suficiente, até porque na Califórnia os círculos eleitorais, inclusive o dele, foram redesenhados como parte desta guerra, no fundo, de ir buscar eleitores com uma geografia criativa. É uma coisa que tem alguma tradição nos Estados Unidos, mas que piorou nestes anos. Antigamente, era só de 10 em 10 anos e mais ou menos a pretexto do censo, mas agora até se fez fora desses prazos. E realmente, aparentemente, na Califórnia, haverá talvez quatro congressistas, numa delegação que tem mais de 50, quatro membros da Câmara dos Representantes republicanos. Mas entre os democratas, realmente temos o Jim Costa, que é alguém muito ativo, muito amigo de Portugal, muito amigo da Ucrânia, muito amigo da NATO, em termos de política externa, um daqueles republicanos moderados.

Tem que vamos saber sempre como é que se vai posicionar.

Exatamente. E que acho que é uma mais-valia também para as relações entre Portugal e os Estados Unidos. Não temos, infelizmente, assim tantos luso-americanos no Congresso e, pelos vistos, vamos perder um deles, que é realmente o David Valadão.

Portanto, notas diferentes para cada um deles, Bruno.

Sim, o Jim Costa eu acho que merece talvez um 16 e o David Valadão talvez um nove. Enfim, tem aqui a nota pelo esforço.

És assim tão generoso com os teus alunos, fico sempre fascinada. Ainda por cima, estás ao lado da Filomena Martins, vais ver já daqui a pouco como é que ela vai comentar a atualidade, mas antes disso, Bruno Vieira Amaral também.

A Filomena Martins teria uma acampada à porta da sala dela se fosse professora. De cinco para baixo.

Já vais ver, mas Bruno, a tua nota e a quem, olhando para as eleições norte-americanas.

Aqui pro Partido Democrata, que tem, de facto, uma grande vitória. Só que são muitas vitórias, ou seja, é difícil retirar ilações sobre qual o caminho que o Partido Democrata deverá seguir a partir de agora, já a pensar nas próximas eleições presidenciais, porque temos candidatos muito diferentes, por razões muito diferentes, também o voto de protesto contra Trump e contra a situação atual, os eleitores a votarem na carteira, mas estamos a falar de muitas eleições diferentes e das quais é muito difícil retirar aqui uma linha para seguir para o grande objetivo dos democratas, que é regressar à Casa Branca, porque este debate interno no Partido Democrata já existe há muito. Houve um grande choque com a derrota em 2024 da Kamala Harris para Donald Trump, porque muitos democratas moderados, ditos moderados até aí, mesmo esses acreditavam que a melhor maneira de enfrentar Trump era conduzir o partido um pouco mais para a esquerda. Muitos diziam que tinha de se chegar ao socialismo secreto no coração dos eleitores norte-americanos.

Ali, Bernie Sanders, não é? O pensamento do Bernie Sanders.

Sim.

Ou da Cassia Cortez.

Muitas pessoas que pensavam dessa forma perceberam que, afinal, se calhar, esse socialismo secreto, esse eleitorado, não existe. Podem, em determinados momentos e em determinadas casas, não gostar, por exemplo, do radicalismo do Partido Republicano e de alguns republicanos, mas isso não significa que defenda certas ideias que também considera radicais por parte dos democratas. Portanto, estas eleições não fornecem grandes pistas sobre o caminho a seguir, porque temos candidatos muito diferentes a conseguir vitórias. O que é certo é que há um desgaste grande da presidência Trump e também pelos efeitos que tem tido na economia, o que também depois levanta a questão: qual é que será a opção por parte dos republicanos? Será que teremos J. D. Vance a avançar para uma candidatura presidencial num contexto que dificilmente lhe será favorável. Ele pessoalmente até pode manter algum crédito junto dos eleitores e não estar tão chamuscado quanto o próprio presidente por todos estes acontecimentos. Mas na prática, é mesmo um segundo mandato de Donald Trump, apesar de não ser consecutivo. Há sempre um desgaste associado a isso, que acaba, ou pode acabar, porque é um presidente impopular, pode acabar por afetar qualquer que seja o candidato, ainda para mais um que é vice-presidente dos Estados Unidos. Portanto, estas eleições também levantam questões para o lado republicano de saber se vão à procura de um candidato Dentro do círculo, mesmo que seja o círculo alargado do Donald Trump, ou fora, até olhando para estes resultados que foram obtidos agora. Mas eu acho que a grande questão decisiva, porque agora pode também haver esta espécie de embriaguez com a vitória, a questão mais importante é para os democratas e qual será o caminho e o candidato a escolher nas próximas eleições presidenciais. Mas sem dúvida que, para já, há uma grande vitória do Partido Democrata, mesmo que não se consigam tirar grandes ilações sobre quem é o grande responsável ou sobre esse caminho a seguir.

Quantifica essa vitória.

Vou quantificar. Eu acho que é uma vitória que merece um 16, uma nota mais alta do que do professor Bruno Cardoso Gayo.

Não, foi o mesmo 16.

Foi o mesmo 16.

O mesmo 16. Ora, falando em generosidade nas notas, Filomena Martins, como é que viste a comunicação de ontem? Acabou por ser uma conferência de imprensa do primeiro-ministro, afinal. Inicialmente, não havia indicação de direito a perguntas, mas houve. Como é que viste essa declaração de ontem?

Vou começar por aí. Exatamente isso. Ele falou ontem ao país às 20h, a partir de São Bento, e convém lembrar que essa, pelo menos na minha cabeça, na cabeça de muitos portugueses, é a hora das grandes ocasiões. Quando o primeiro-ministro e o presidente falam ao país, é sempre às 20h, é sempre de São Bento ou, obviamente, do Palácio da Presidência. Foi essa hora que, em março do ano passado, se bem nos lembramos, pôs o futuro do governo nas mãos da oposição. Desta vez o anúncio foi outro, anunciou reuniões com o PS e com o Chega, um plano de investimento na habitação e a promessa de rever a lei das rendas. São medidas importantes, mas eram medidas que, para mim, poderiam ser anunciadas no fim do Conselho de Ministros, noutro qualquer momento, e não com aquela solenidade toda. E a pergunta, para mim, fica sempre no ar no dia em que o governo cair, se demitir ou haver algum momento realmente importante, que formato é que se vai usar, porque este das 20h está completamente misturado. Vai usar o mesmo que usou para falar de casas, que já usou também para falar de apoios? Acho estranho. Achei mesmo estranho. Já acontece tudo naquele formato que para mim dantes era solene. É isso. De acordo. Já não vejo aquilo como um momento solene em que os governantes falavam ao país de coisas realmente importantes. Pronto, agora quanto ao que disse. Há algum mérito no que foi dito, três semanas depois desses protestos começarem e de Montenegro se evaporar. Ele respondeu ao que se pediu no início do protesto, soluções para a habitação, que é, e acho que estamos todos de acordo, um dos problemas mais graves do país. Não se deixou arrastar para os outros, chamemos-lhe acampamentos, onde já se defende tudo, desde a Palestina aos direitos LGBT. Ele escolheu o essencial e eu acho que fez bem. E também nos tratou como adultos num ponto, o que sabe sempre bem quando passamos a vida a ser tratados como tontinhos. Disse que o governo vai investir 10 mil milhões até 2030 na habitação, mas avisou que não há políticas públicas grátis, o que traduzindo, se o dinheiro vai para habitação, não vai para a saúde, não vai para outras áreas. E é raro ouvir um primeiro-ministro dizer isto com esta clareza, porque quem promete tudo a todos raramente explica quem paga. O primeiro-ministro aproxima-se agora do PS e do Chega, convidou José Luís Carneiro e André Ventura para reuniões amanhã, diz estar aberto ao diálogo, mas recusa um leilão de propostas e admite mexer na lei das rendas sem dizer como. É uma espécie de um recuo que não é assumido como um recuo. Claro, Carneiro já reclamou vitória, diz que o primeiro-ministro reconheceu finalmente que esta crise não tem solução policial. É a leitura que lhe convém, mas agora tendo de levar propostas concretas para São Bento ou vantagens, vai-se, depois de tanto assobiar para o lado sobre as responsabilidades socialistas na habitação e até nas ações da PSP. Obviamente, André Ventura também reagiu e fez o que sabe fazer, bateu nos dois lados. Aceitou o convite, mas classificou a declaração como dececionante. Acusa o primeiro-ministro de não ter apresentado uma única medida, de não mostrar empatia pelos portugueses e de uma total falta de humildade, por achar que já fez tudo o que tinha que fazer, essas coisas. Ao mesmo tempo, apontou logo o dedo ao PS, disse que Carneiro é um dos grandes responsáveis pela crise da habitação e deixou uma exigência curiosa. Ele agora quer que a nova lei das rendas seja aprovada a três, com PSD e PS. Ou seja, o Chega, que viabilizou a lei agora quando estada, quer partilhar o recuo com os socialistas, que é para ninguém ficar sozinho com o fardo. É sempre bom ficar assim. Divide-se o mal pelas aldeias. E depois há aquilo que ficou por dizer, que é nem uma palavra de Montenegro sobre a atuação da PSP, nem sobre Luís Neves. O primeiro-ministro apenas se distanciou da leitura do Ministério da Administração Interna sobre a decisão do tribunal. Pareceu um pouco. Sobre o silêncio, diz que falou quatro vezes em 15 dias e que o seu dever é governar, não comentar. Pronto, eu tenho dúvidas que numa crise destas um primeiro-ministro desapareça e depois quando reaparece seja assim tão formal, passou do oito ao 80. Só uma última nota que eu acho que tem importância, que é movimentos de sete países europeus, Portugal incluído, convocaram manifestações simultâneas para 20, 21 e 22 de novembro sobre habitação, salários e pensões. Vão contestar estas três coisas. É uma contestação que agora ganha escala europeia, se é que não tinha já antes de outras formas, e significa uma coisa simples, que é a pressão da rua não vai acabar amanhã, é só um método.

Paulo, o que retiras da intervenção do primeiro-ministro, já com reações dos outros partidos?

Antes de mais, acompanhando o que disse a Filomena, que nunca devia ter sido feito naquele formato, 20h, à altura solene, porque é um formato banalizado. Das duas, uma: ou Luís Montenegro tinha alguma coisa para anunciar que de alguma forma pudesse alterar o braço de ferro que está montado com a rua e com duas praças, concretamente, com algumas centenas de acampados, e não tinha, de facto, ou então não fazia aquela comunicação às 20h. No fundo, ele chamou o país todo para dizer que durante o dia tinha feito dois telefonemas, um para José Luís Carneiro e outro para André Ventura, e que os dois tinham concordado com ele reunir-se na quinta-feira. Portanto, nem sequer era já resultado de reuniões. E claro que os acampados não gostaram. Mas também não havia nada que Luís Montenegro pudesse dizer que eles pudessem gostar, a não ser que se fosse embora, que Luís Montenegro anunciasse, coisa que obviamente não está em causa, mas que anunciasse a sua saída. É a única coisa. Porque a questão está muito para além da habitação, e Luís Montenegro também devia ter percebido isso. Ou atacava o problema de frente, de uma forma ou de outra, podia à boleia agora da decisão do tribunal, fazer um anúncio sobre uma forma diferente de olhar para aquilo, para pelo menos baixar o braço de ferro, que agora começa a desautorizar a polícia, como é evidente. Já estiveram 60 tendas, se não me engano, esta noite no Rossio e 20 no Porto, e a polícia não interveio. E, portanto, já começamos aqui naquele braço de ferro da desautorização. E, portanto, Luís Montenegro praticamente ignorou esse tema ou ignorou mesmo a questão da segurança.

Não passou por cima.

Sim. Sabendo disso, ele devia ter feito a leitura da mesa e perceber que medidas concretas que só têm efeito a prazo, ainda por cima, não interessam nada. A questão que está em jogo está muito para além da habitação. A habitação é um bom mote, é o problema mais grave que o país tem neste momento para resolver, mas basta olhar para o caderno reivindicativo deste protesto e perceber que eles não querem só mais casas, eles querem casas à maneira deles. Isto é, quando começam a conversa por dizer: "Não é preciso construir mais", eu acho que é todo um programa louco que está em evidência. Obviamente que há ali sempre a tentação, a tentativa de deitar mão à propriedade privada, de ir buscar casas que são privadas e que estão vazias. E, portanto, eles querem essas casas, eles não querem que apareçam mais casas para as pessoas habitarem e para arrendarem a preços acessíveis. Querem que sejam essas casas. Ou então programas públicos de habitação, que são precisos e estão a ser feitos. E eu acho que Luís Montenegro perdeu uma oportunidade, de facto, para fazer uma diferença, para mudar um bocadinho a forma como este assunto está a evoluir, porque, sinceramente, eu neste momento não estou a ver uma saída para aquilo. Talvez dia 24 de novembro, ainda faltam três semanas.

Faltam 20 dias.

20 dias, mas não estou a ver uma saída para aquilo.

Paulo, a tua nota.

A minha nota. Eu dou um sete a Luís Montenegro, porque eu acho que isto foi um ato falhado, de facto.

Filomena, sete é a sua nota máxima.

Eu estou mais simpática, porque foi às 20h, fica oito.

Fica um oito. Ana, isto é só para eu ficar mal quando disse que eras muito exigente. José Manuel, os presidentes da Câmara de Lisboa e do Porto, como é que estão?

Estão a portar-se mal. Estão a portar-se mal porque eles têm que perceber que a democracia não são os acampados, a democracia não são as assembleias populares. Quem decide o que se passa em praças, que inclusivamente têm agenda para os próximos dias, não são as assembleias populares, como ontem vimos por um comunicado. Nós não aceitamos que venha para aqui o mercado de Natal, o presidente da Câmara que faça noutro sítio.

Eles já são donos do Rossio agora.

Exatamente, é como se fossem donos do Rossio. E eu acho duas coisas extraordinárias, como é que o presidente da Câmara, no caso de Lisboa, não tomou ainda medidas. Ontem estava previsto começar a ser montado o mercado de Natal e em vez de irem para lá os trabalhadores montar o mercado de Natal, porque ao princípio só lá havia uma tenda, deixaram que aquilo se enchesse de tendas. O que é que vão fazer agora?

E a decisão do tribunal é favorável a isso. Distraamente, não sendo compatível.

Esta noite passou uma coisa extraordinária. A decisão do tribunal diz que aquilo só se aplica à Renata Campos. Esta noite esteve lá um deputado a dormir.

Câmara.

Câmara.

Câmara. Renata Câmara. Esta noite esteve lá um deputado a dormir do Bloco de Esquerda. Os deputados agora também já desafiam os tribunais, acham que é assim que se faz. E a seguir, têm o prémio de aparecer em todos os órgãos de informação a seguir, porque estão ali a dormir, portanto, é preciso pôr alguém, mostrar imagens e eles aparecem. Há uma coisa, aliás, extraordinária. O João Marques de Almeida hoje diz que boa parte do Bloco de Esquerda está assustado porque estão a aparecer ali outros líderes. E de facto, há ali outras pessoas a aparecer. E agora já tivemos a Mariana Mortágua também a dormir lá, para não ser só a Renata Câmara. Portanto, há uma disputa pela liderança da extrema-esquerda, que é disso que estamos a falar, e o presidente da Câmara de Lisboa e o presidente da Câmara do Porto, principalmente a do Porto, diz que pode ir ao Rivoli discutir em assembleia, porque ir ao Rivoli é discutir em assembleia. Uma coisa é receber representantes, mas isso começa por aqui, é que não há representantes. Todos os dias vemos pessoas diferentes. Ora aparece um, ora aparece outro. Às vezes as mesmas coisas vão variando. Eu não sei o que é que o presidente da Câmara de Lisboa e o presidente da Câmara do Porto estão à espera. Porque uma coisa é achar que pode ali haver um cantinho onde estão uns cartazes, outra coisa é deixar as praças novamente ocupadas numa altura em que há pessoas que fizeram investimentos, há trabalhadores que vão trabalhar para ali, têm os seus empregos, é uma altura em que para o comércio é fundamental o período de Natal e de repente não se pode privatizar. Mas o que é que estão a fazer? Uma assembleia com 100 ou 200 ou 300 pessoas não privatiza, ocupa, vandaliza, o que nós quisermos, mas é pior do que privatizar.

Nota para os autarcas.

Eu estava a dizer que a Filomena disse que teria uma acampada à porta, eu se calhar também posso ter uma acampada à porta para o caso dos presidentes de câmara. Vou dar zero aos dois, porque este comportamento só piora a situação. Não retoma o controlo, porque nalguns pontos eles estavam ancorados na própria decisão do tribunal.

Estavam escudados. Então zero para Pedro Duarte e para Carlos Moedas. Bruno Cardoso Reis, muito obrigada por teres gostado também.

Obrigada, foi um privilégio.

E sujeitar-se ao oral, porque entrou nisto sempre com esta enorme abertura. Obrigada. Obrigada, Bruno. Um bom descanso e o "Vencedor" é regresso mais logo na Tarde Política.

Depois do Jornal das seis, esta quarta-feira dão notas Ajudito França, Helena Garrido e Alexandre Borges.