Em Portugal, segundo o último Census, cerca de 9 em cada 10 portugueses diz-se “cristão”. Não há dúvida de que a matriz cultural portuguesa é cristã. O centro vital da matriz cultural cristã é o amor ao próximo. Dito de outro modo, o amor é a raiz dos valores em que os portugueses acreditam e deve, assim, conformar toda a nossa realidade.

Há, no entanto, três áreas em que o amor, a própria palavra “amor”, se considera estar interdita: na política, na economia e na comunicação social. Raríssimos politicos ousam dizer “amor” na sua ação. Raríssimos líderes empresariais ousam dizer “amor” na sua gestão. Raríssimos jornalistas ousam dizer “amor” no seu critério editorial.

Parece mal, inadequado, inútil, impróprio, perdedor, talvez ridículo.

Esta suposta interdição do amor na política, na economia e na comunicação social são três grandes mentiras sobre o amor. Aliás, que sentido faria, ou faz, num país de matriz cultural cristã, interditar o amor em áreas tão importantes como a política, a economia e a comunicação  social?

Amor e política

Os políticos atuais enganam-se sobre o mérito do amor na ação política, sobre o papel do amor como pedra angular da própria evolução histórica das sociedades.

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O melhor exemplo é a União Europeia. Os “pais da Europa” – Robert Schuman, Konrad Adenauer e Alcide De Gasperi – usaram a linguagem do amor na construção europeia e transformaram o mundo. Schuman falava em “amor fraterno”, Adenauer nos “princípios da ética cristã” e De Gasperi procurava no “fermento evangélico” o impulso para uma política de fraternidade.

Não eram outros tempos, eram, isso sim, outros homens.

Se o amor fosse central na ação política, os partidos entender-se-iam com muito maior facilidade. Se o interesse egocêntrico do político, que alguns consideram ser inerente à própria política, se confrontasse com o amor, que é inerente à nossa cultura, como seria diferente para melhor a realidade do povo e a qualidade da própria democracia.

Um bom exemplo é o futuro da Segurança Social. Como seria possivel, à luz do amor, fazer das diversas gerações um joguete de interesses eleitorais? Não é esta incontornável questão, uma questão de amor e de compromisso entre gerações? Não constitui obrigação política de amor colocar cada geração na posição das outras gerações? Se houvesse amor na política, como seria possível os partidos não estarem sentados à mesa num esforço sem descanso para harmonizar a solução mais justa?

Se amarmos os mais novos, como se todos fossem nossos filhos,  não é de elementar bondade informá-los com urgência e precisão sobre o futuro que os espera? Se amarmos os mais velhos, como se todos fossem nossos pais, não é de elementar bondade falar-lhes do problema dos filhos e netos e, com extrema sensibilidade, atraí-los em paz para um compromisso de amor entre gerações?

Amor e economia

Há vários anos que defendo o amor como critério de gestão, como o melhor critério de gestão. Amor significa, na matriz cultural cristã, tratar os outros como gostaríamos de ser tratados se estivessemos no lugar deles. É a decorrência do princípio de que devemos amar os outros como a nós mesmos.

Na atividade empresarial, significa tratar os nossos colaboradores, os nossos clientes, os nossos fornecedores, os nossos acionistas, os nossos concorrentes e a comunidade que nos envolve como gostaríamos de ser tratados se estivessemos na posição deles.

Há algum outro critério de que possa resultar maior coesão, maior eficência, maior motivação, maior inspiração, maior recorrência de contactos? Há algum outro critério de discernimento ético mais poderoso e eficiente  do que este? Há algum modelo económico que produza mais riqueza, que distribua melhor a riqueza e que assegure a sustentabilidade das organizações mais e melhor do que este? Não há.

O amor é incompatível com a exigência empresarial, dizem alguns. Mas há algum critério mais exigente do que o amor, há alguém mais exigente do que aquele que ama? Há alguém com quem sejamos mais exigentes do que com aqueles que amamos, desde logo os nossos filhos?

Dizem outros que é idealismo. Mas não é, é apenas o caminho menos percorrido. E não será um dos males do mundo moderno termos excesso de objetivos e carência de ideais?

Este caminho só será conseguido com líderes com capacidade de amar e com capacidade para dizer no mundo dos negócios e das organizações a palavra que faz toda a diferença: “amor”. Sensata, sentida e desassombradamente.

Amor e comunicação social

Fiz jornalismo vários anos, presidi a uma instituição do ensino superior de comunicação social também durante vários anos. Lembro-me de a seriedade e a deontologia serem temas nucleares, mas não me lembro de se falar de amor. Ora, se há área da modernidade onde o amor é essencial, é a área da comunicação social. O amor como critério editorial deveria ser o primeiro tema de estudo e de debate no setor da comunicação social.

Uma vez mais, o jornalista deve tratar o outro, aquele que é objeto da sua notícia ou do seu comentário, como gostaria de ser tratado se estivesse no lugar dele. Há algum critério mais sensato, de apreensão mais fácil e mais humano do que este?

Vende menos? Mas vender é critério de vida? E, em boa verdade, vende menos aquele que se torna credível ao longo dos anos? E justifica-se, para vender, vendermos a nossa consciência?

Três mentiras sobre o amor que são três verdades sobre nós próprios. Sobretudo, verdades sobre a responsabilidade a que estão chamados, na política, nas empresas e na comunicação  social, todos os que, para além da capacidade de amar, têm a capacidade para dizer a palavra “amor” onde quer que estejam.