Partilho esta reflexão sobretudo com aqueles que, tal como eu, votaram na AD nas últimas legislativas.
Há três equívocos que a campanha eleitoral alimentou. O primeiro equívoco é que há o risco de concentração de poder na AD. Não é verdade, a estabilidade que temos é frágil e ilusória. Temos um governo minoritário e um dos governos minoritários com menor apoio parlamentar de sempre.
O segundo equívoco é que os candidatos que estão na reta final irão ajudar o governo. A verdade é outra: escutada a campanha eleitoral, a estabilidade política e o governo da AD estão ameaçados.
Um eleitor AD deve votar tendo consciência disto. Depois do governo de Pedro Passos Coelho, que quase todos os eleitores da AD profundamente admiram, seguiu-se, aos nossos olhos, a desastrada governação de António Costa.
Para eleger um governo AD, com um primeiro-ministro moderado e pragmático, foram necessários quase dez anos de luta política. Para um eleitor da AD, a estabilidade não é uma coisa abstrata e a desejar, é uma realidade que já se conseguiu, que se sabe que é frágil e que está ameaçada por estas eleições presidenciais.
O terceiro equívoco é que Luís Marques Mendes é o candidato do governo. Luís Marques Mendes não é o candidato do governo, Luís Marques Mendes é o único candidato que não é contra o governo. Esta diferença é decisiva, sobretudo para os eleitores da AD.
André Ventura, se vencer, pretende hegemonizar o sistema político a partir de Belém. Diz ao que vem e não há como não apreciar isso. Tomando posse em março e com o Chega reforçado, Luís Montenegro entraria em crise antes do Verão.
O almirante Gouveia e Melo, se fosse eleito, seria um fator de instabilidade instantâneo. Os violentos e sistemáticos ataques ao governo e aos partidos políticos falam por si. Considera que «juntos vamos mudar Portugal», enfim, em segredo mal guardado, acha-se providencial. O ataque com insinuações à honorabilidade de outros candidatos faz questionar quais os seus limites na ação política. A tensão que provocaria como Presidente seria negativa e não virtuosa, e deterioraria a estabilidade.
António José Seguro é um homem sério, no mundo dos socialistas dos mais sensatos, mas o eleitor da AD não se deve iludir. Seguro não escaparia à lógica das coisas. Mário Soares era moderado e passou o segundo mandato a procurar destruir a maioria absoluta de Cavaco Silva. Jorge Sampaio também era moderado e dissolveu uma maioria absoluta da AD, abrindo a porta a Sócrates.
Uma coisa seria haver uma maioria absoluta da AD; outra coisa é a realidade que temos, uma maioria relativa que será tomada de assalto, à esquerda e à direita, mal o desgaste crie condições mínimas para isso.
António José Seguro não terá peso no PS, nem terá peso para fazer frente ao PS. A natureza jacobina deste radicalizará para apressar a queda do governo. Empoderado pela eleição de Seguro, o PS votaria contra o orçamento, colocando a estabilidade política nas mãos do Chega.
Como dizia Víctor Cunha Rego, «as coisas são o que são».
Mais sofisticado é o caso de João Cotrim de Figueiredo. Teve o mérito de manifestar as suas convicções, coisa que aprecio, mas é demasiado ideológico para não gerar tensão com o governo. Ao invés de Gouveia e Melo, a tensão que Cotrim de Figueiredo criaria, apelando ao reformismo liberal, não seria necessariamente negativa em si mesma, mas não é isso que serve a estabilidade.
A sua tese de que seria aliado de um governo reformista, é paradigmática de uma pressão ideológica que não iria dar certo. Não ajudaria o governo, antes colocaria o Presidente no centro do sistema, quando não é esse o seu lugar, nem a sua função. E basta o Presidente da República não estar no seu lugar próprio para gerar instabilidade.
Acresce que um Presidente da República não pode afirmar que será aliado de um governo que seja reformista, leia-se, no caso concreto, que pratique o reformismo liberal em que o Presidente acredita. Isto é, o Presidente não será aliado se o governo não fizer as reformas do próprio Presidente? Esta via traz a tensão institucional e o desgaste do governo.
Prefiro um candidato, como Luís Marques Mendes, que conhece bem os critérios constitucionais da ação de um Presidente e não tem a ilusão de uma agenda ideológica a partir do Palácio de Belém. Quem transforma o país são os governos, não são os presidentes.
É este sentido institucional que melhor protegerá a estabilidade do governo da AD e de todos os governos futuros que os portugueses venham a escolher. Pode parecer pouco, mas é o essencial.