Dividindo o país entre crentes e não crentes – e não falo só de religião – de certa forma todos nós tivemos dúvidas se Lisboa, entre obras, o turismo residual e o expectável volume de peregrinos, ia estar preparada para receber com sucesso as Jornadas Mundiais da Juventude.  Enquanto atirávamos Carlos Moedas ao ar, por investimentos que pareciam grotescos e adjudicações diretas em série, o pior que nos poderia acontecer é “sair cara” e tê-la de pintar de preto. Mas não. Saiu Coroa e nada teve a ver com um mero golpe de sorte: Carlos Moedas, em conjunto com as autarquias de Loures e Cascais, fez História.

As Jornadas Mundiais da Juventude provaram que o país, não só está preparado para receber eventos de uma dimensão histórica, como temos as pessoas e o património certo para os acolher. Portugal surgiu no radar mundial com imagens de um crescente estado de alma multigeracional sem precedentes, contaminando as nossas ruas, as regiões que acolheram os peregrinos, e locais de convergência como o Parque Eduardo VII e o Parque Tejo-Trancão, que ganhará uma nova vida e cujas imagens à beira-rio nos fazem esquecer o que aquela zona representava e até o valor do polémico palco que, absorvido por um milhão e meio de pessoas, pareceu-nos pequeno demais.

Para além deste, registou-se do decorrer desta semana um outro fenómeno evolutivo: o da comunicação. O fair-play de Moedas ao “Tapete da Vergonha” foi o pontapé de saída para as polémicas, abrindo campo e a baliza para o efetivo propósito das Jornadas Mundiais da Juventude. Para quem assistiu na bancada, de forma atenta, a toda a Jornada Mediática da Juventude, há um antes e depois da mensagem revolucionária do Papa Francisco quando asseverou que “A Igreja é de todos, todos, todos”.

No arranque da semana, não todas, mas algumas mensagens de comentadores e porta-vozes convidados, bem como até testemunhos de peregrinos, davam aquela sensação de amargo na boca, de que a bola estava bem encaminhada e foi à trave por ligeiros tiques bafientos e desadequados em pleno século XXI. Isto a par de lamentáveis episódios como as barreiras à comunidade LGBT e, mais grave ainda, a censura (institucional) ao cartaz memorial às vítimas de abusos sexuais de menores na Igreja, assombrando a mensagem central da JMJ e, acima de tudo, a imagem da Igreja na era que acredito estarmos a viver: a da Inclusão.

Mas a mensagem unificadora de Papa Francisco ressoou e contaminou a narrativa dos dias que se seguiram, convertendo visões, o léxico e, acima de tudo, trouxe uma lufada de ar fresco à comunicação da Igreja, que se tornou mais convergente e coesa.

Consciente de ser um plano verdadeiramente ambicioso, certo é que a Igreja em Portugal precisa, mesmo que doa, de se despojar de conceitos que já não fazem parte desta nova Era e de uma verdadeira (nova) estratégia de comunicação, catalisadora do muito que faz pelas suas comunidades, do seu impacto positivo – que ninguém sabe de forma factual – e, como não podia deixar de ser, uma ação mais interventiva e menos académica no combate aos abusos sexuais que conhecemos. Após a JMJ em Lisboa, percebemos que o seu Papa é o ser humano certo e tem a mensagem certa, dois grandes ativos de comunicação que uma instituição pode ter. Cabe à Igreja aproveitar este momentum para calibrar a sua reputação e fazer jus ao que representa. E para fazer isso, sem dúvida, “Há pressa no ar”.