“Se não fizermos nada, a próxima vaga tecnológica esmagará empregos tão depressa  quanto cria riqueza.” O aviso, dado em entrevista ao Financial Times em 2023, pertence a  Mustafa Suleyman, co-fundador da DeepMind,e autor do fabuloso livro The Coming Wave  – considerado por Bill Gates como o seu livro preferido sobre IA (Inteligência Artificial). Esta  «vaga» resulta da junção entre inteligência artificial avançada e biotecnologia; juntas geram  um poder tão grande que, se não for bem regulado, pode transformar-se num tsunami  social. Os números há muito deixaram de ser cenários teóricos: em Portugal, um estudo da  McKinsey — relatório «Portugal e a IA generativa: acelerar a produtividade até 2030»,  divulgado a 21 de outubro de 2024 — estima que 1,3 milhões de trabalhadores – quase um  terço da força laboral – terão de se requalificar até 2030 para que a economia não fique  submersa.

Obtemos um retrato mais granular através um policy paper da Fundação Francisco Manuel  dos Santos: 28,9 % dos empregos atuais (empregados de mesa, operadores de  equipamentos, estafetas) integram o que os autores batizaram de “profissões em  colapso”; 12,9 % vivem no “terreno das máquinas”, um limbo onde o destino depende do  ritmo a que o software progride; 22,5 % encontram-se em ascensão (matemáticos,  profissionais de marketing ou analistas financeiros); e 35,7 % residem no “terreno dos  humanos”, tarefas difíceis de substituir, mas com ganhos de produtividade modestos.  Traduzido: a IA não elimina tudo, mas baralha quase tudo – e baralha de forma desigual.

A fissura mais funda talvez nem se meça no índice de Gini, mas na literacia algorítmica. Só  56 % dos portugueses possuem competências digitais básicas – uma taxa estagnada há  três anos. Do lado das empresas, o abismo reflete-se noutra estatística: apenas 19 %  conseguem recrutar ou formar pessoal com skills adequados. Resultado? Empresas  sedentas de talento, trabalhadores à deriva e regiões vulneráveis a uma nova forma de  pobreza: a tecnológica. Braga, Aveiro ou Viseu concentram mais de 40 % dos postos em  risco; Lisboa e Porto acolhem as “profissões em ascensão”. Sem política ativa, a geografia  do emprego tornar-se-á um mapa de exclusão.

O desafio de requalificar 1,3 milhões de pessoas é tudo menos poético. A McKinsey calcula  que, para cada euro investido em tecnologia, serão precisos três em mudança  organizacional – reformulação de processos, formação, gestão de mudança. Quem paga a  fatura? Inspirando-se na lógica de “incentivos partilhados” que Suleyman defende para a  regulação da IA, poder-se-iam desenhar três instrumentos:

1. Conta-Formação 4.0: um crédito fiscal só utilizável em cursos certificados de IA;

2. Fundo de Transição Setorial: afetar parte do valor poupado em salários graças à  automação para alimentar um fundo para a requalificação desses mesmos  trabalhadores;

3. Microcredenciais com seguro-emprego: formações de três a seis meses que  garantem um salário-ponte durante a reciclagem, à imagem do modelo  dinamarquês de flexicurity.

Importa, contudo, passar do PowerPoint à prática. Suleyman organiza a sua estratégia de  contenção em três verbos – “delay, detect, defend” – que se podem traduzir para o mercado  laboral. Delay: adiar despedimentos até existir um caminho de requalificação;  concretiza-se em cláusulas que ligam automação a planos de reskill nos contratos  colectivos. Detect: monitorizar os impactos em tempo real; seria missão de um  Observatório Nacional do Emprego Pós-IA que divulgasse dados mensais por distrito,  prevenindo surpresas. Defend: proteger os mais vulneráveis; traduz-se num seguro de  rendimento temporário combinado com tutoria ativa para transição de carreira.

No terreno, a revolução é palpável. Um exemplo que me é familiar, um Aeroporto: portas  biométricas aceleram o controlo de fronteira, robôs de bagagem reduzem filas, chatbots resolvem litígios de aluguer de viaturas em segundos. Ganham os passageiros e a eficiência  operacional, perdem as funções repetitivas. Aqui, o kill switch técnico que Suleyman  preconiza ganha tradução social: cada quiosque automático devia financiar horas de  formação para os antigos assistentes de balcão. A IA que otimiza o fluxo de passageiros  pode – e deve – também otimizar carreiras humanas.

Falta-nos, contudo, o braço da lei. O AI Act, aprovado pela União Europeia, obriga as  empresas a promover literacia em IA desde 2 de fevereiro de 2025, mas Bruxelas pondera  adiar algumas obrigações para 2026/27. Se a norma recua, as organizações também  recuam. Portugal não pode esperar: antecipar verbas do PRR para cursos de IA nas PME e  tornar pública a matriz de risco laboral que cada firma já entrega à Autoridade para as  Condições de Trabalho seriam dois passos simples e rápidos. A pressão de pares costuma  ser mais veloz do que a do Diário da República.

Concluir é simples, concretizar é urgente. O futuro não está escrito no código-fonte dos  chatbots; está nos contratos sociais que assinarmos. Se investirmos em requalificação –  1,3 milhões de vezes – e se ligarmos automatização a responsabilidade, a “próxima vaga”  de Suleyman transformará oficinas em laboratórios e armazéns em estúdios de  criatividade. Tecnologia sem pessoas é apenas cálculo; pessoas sem skills são estatística.  Juntar ambos – e depressa – é um dos verdadeiros desafios desta década.