Quando uma empresa revê e atualiza os seus planos estratégicos, normalmente começa por analisar as tendências emergentes e a situação competitiva. Este exercício serve para identificar oportunidades de crescimento rentável. Não há boas nem más notícias, há apenas dados e factos, e as decisões subsequentes para deles tirar proveito.

De uma perspetiva europeia, olhando para as primeiras semanas da nova administração dos EUA, podemos antever oportunidades “tremendas”. Com efeito, há muito se argumenta que o sucesso da economia norte-americana pode ser atribuído, pelo menos em parte, a três pilares fundamentais:

(1) a sua abertura, políticas específicas e financiamento para atrair os melhores talentos do mundo;

(2) a intensa concorrência e consequente inovação que diferenciaram as empresas americanas das restantes; e

(3) os incentivos e apoios do enorme orçamento federal para impulsionar indústrias emergentes alinhadas com as tendências globais, nomeadamente através do financiamento de investigação básica, de forma semelhante ao que o capital de risco faz com as start-ups.

Curiosamente, todos estes três pilares estão a ser abalados e poderão até ser demolidos num futuro próximo se as atuais políticas se mantiverem. Por exemplo, no que toca à atração de talento, a mensagem para os estrangeiros é clara: já não são bem-vindos. Muitas das políticas de ação afirmativa que promoviam o acesso e a igualdade de oportunidades, especialmente para aqueles que queriam competir, mas não dispunham das ferramentas ou recursos necessários, foram eliminadas. Pior ainda, universidades de referência foram afetadas pelo cancelamento de vários programas, deixando muitos estudantes e investigadores internacionais sem o financiamento previamente garantido.

No que respeita à concorrência, existe a ameaça do aumento de tarifas generalizadas para proteger as indústrias americanas, isolando-as da competição global. No entanto, já vimos no passado o impacto devastador que essas políticas podem ter nas próprias empresas domésticas.

Por fim, no que toca aos incentivos e investimentos do governo, a grande aposta que os EUA estavam a fazer para recuperar terreno face a outros países na vanguarda das tecnologias emergentes do futuro, como as energias renováveis, foi cancelada.

Neste contexto, sob a perspetiva das empresas europeias, estas políticas criam grandes oportunidades de desenvolvimento futuro. Por exemplo, cada vez mais talento está seriamente a considerar abandonar os EUA, o que abre uma janela para o atrair para a Europa. A política de isolamento comercial da nova administração, através de tarifas e das prováveis represálias, pode desligar pelo menos parcialmente as empresas americanas do resto do mundo, criando oportunidades para que outros preencham as lacunas deixadas e beneficiem da concorrência aberta. Finalmente, as empresas que viam concorrentes sediados nos EUA a receberem investimentos avultados para inovar em tecnologias de ponta poderão agora usufruir de uma posição competitiva reforçada.

As empresas europeias estão particularmente bem posicionadas para tirar partido destas mudanças. No que toca à atração de talento, o continente oferece uma sociedade intensiva em conhecimento, que rivaliza com a dos EUA, com a vantagem adicional da diversidade cultural, riqueza histórica e qualidade de vida. No que se refere à concorrência, a Europa dispõe de um vasto mercado interno, sustentado por órgãos reguladores sólidos que garantem uma concorrência justa a longo prazo, mas, mais importante ainda, proporciona um ambiente empresarial aberto à competição global, com todas as suas vantagens (inovação) e desafios (por vezes ganha-se, por vezes perde-se).

Além disso, as empresas europeias poderão beneficiar de uma posição competitiva renovada em indústrias emergentes, como as energias sustentáveis, e focar-se na forte concorrência vinda do Oriente.

Com base na minha experiência enquanto imigrante em Portugal, acredito que o país está especialmente bem posicionado para lucrar com esta reconfiguração global. Temos uma sociedade que acolhe a imigração e políticas específicas para atrair talento estrangeiro de forma inteligente. Podemos oferecer condições excecionais de vida e trabalho, além de um excelente conjunto de profissionais formados nas universidades portuguesas, muitos dos quais fluentes em inglês. Portugal garante também acesso a um mercado interno europeu altamente competitivo e inovador, integrado nos mercados globais e disposto a reconsiderar as suas instituições e a desregulamentar quando necessário, ajustando a rigidez administrativa para um modelo mais flexível e eficaz.

Adicionalmente, poderá haver um reforço significativo dos fundos europeus para aumentar a competitividade, em linha com o Relatório Draghi, que visa reduzir a diferença entre a Europa e outras potências em áreas emergentes, como as tecnologias limpas e os veículos elétricos, entre outras. Estes fundos serão complementados por medidas para fortalecer o mercado interno europeu e simplificar a regulamentação, uma necessidade há muito identificada.

Em suma, as mudanças em curso do outro lado do Atlântico podem criar oportunidades para as empresas deste lado, em particular para Portugal. Confio que as empresas saberão captar valor desta nova realidade e que serão devidamente apoiadas pelas nossas instituições nacionais e europeias, à medida que reforçam o mercado interno, financiam novas tecnologias e simplificam a regulamentação.